Do Comunismo ao Cordão Azul

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O anticomunismo no cinema

casei me com um comunista filmePara Walter Benjamin [1892/1940] filósofo alemão da Escola de Frankfurt, “Articular historicamente o passado não significa conhece-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.”  Foi assim que a colaboradora deste site, Poeta Nair Damasceno, buscou nas suas lembranças o episódio que transformou num belo texto sobre o anticomunismo patrocinado por alguém da  ditadura de 1964.  O fato é recorrente, pois nas décadas de 1940 e 1950, Hollywood esmerou-se em produzir filmes para alimentar a guerra fria. Filmes como Casei-me com um comunista e Ameaça Vermelha,  dentre outros,  eram exibidos no mundo todo, inclusive no Brasil, anunciando o sombrio golpe na democracia em 1964.

Da equipe do baú de Macau

 

 

 Do Comunismo ao Cordão Azul

                                                              por  Nair Damasceno [ndapaiva@yahoo.com.br]

 

Início da década de sessenta do ano mil e novecentos. Morávamos em Macau e costumávamos vir passar as férias em Natal na casa de minhas avós. Naquela tarde o alto-falante do parque anunciou que seriam exibidos filmes para a população do bairro na esquina da Avenida 6 com a Avenida 1 (Rua dos Canindés com a Presidente Quaresma) bem próximo a casa de minha avó.

nyoka0Adorei a idéia de ver filmes novos, pois em Macau eu só assistia no único cinema da cidade um seriado intitulado Os Perigos de Nyoka (um seriado americano realizado em 1942 pela Republic Pictures, dirigido por William Whitney e estrelado por Kay Aldridge). Não é que eu não gostasse, eu adorava ver Nyoka se salvando dos perigos todo início de uma nova sessão, mas aquela noite o filme deveria ser colorido e diferente.

Jantamos mais cedo, nos preparamos e lá fomos nós com um cheirinho de água-de-colônia Regina para o tão almejado filme. Nos juntamos a uma pequena multidão de mulheres, homens e crianças, todos de pé para desfrutar aqueles de lazer tão raro, ainda mais de graça.

 A tela era a parede de uma casa, mas isso não importava. Quando o filme começou deduzi que era de guerra. Soldados sisudos marchando em uma estrada de terra carregando seus fuzis, sabres e chicotes. Ao chegarem na primeira aldeia invadiam casas. Mulheres corriam apavoradas carregando crianças ao colo enquanto outras um pouco maiores se escondiam. Os soldados atiravam nos adultos, açoitavam as crianças maiores, arrancavam os filhos dos braços das mães, atiravam para cima e as recebiam na ponta de um sabre. Homens agonizavam, mães choravam, crianças gritavam, era um verdadeiro pandemônio, depois se retiravam sorrindo e se dirigiam para a próxima aldeia. Na plateia as mães abraçavam seus filhos como se os soldados fossem sair da parede e atacá-las. Eu tinha ido com uma irmã de criação de minha mãe chamada Lourdes que a todo momento balbuciava baixinho: –Misericórdia!. Durante a projeção do filme uma voz masculina explicava: -“esses soldados são comunistas por isso agem dessa forma, não podemos permitir que façam o mesmo conosco. O comunismo é uma ameaça, um perigo”. O filme terminou em meio a sussurros de medo e indignação, sem suspense, sem Nyoka. Todos os expectadores estavam indignados com os comunistas e foram muitas as pragas rogadas em voz alta.

Ao chegar em casa contei o filme ao meu pai. Ele me pediu que não comentasse com ninguém, mas aquele filme era mentiroso, comunismo não era nada daquilo, era um modo de governar onde os pobres tinham direito a terras para plantar. Pessoas comunistas eram iguais a qualquer outra, que em Natal tinha vários comunistas, entre eles um médico muito humano e competente chamado dr. Vulpiano. Outro comunista conhecido era um político chamado Djalma Maranhão que incentivava a preservação de pastoris, bambelôs e fandangos para que essa cultura não desaparecesse; isso que ele estava me dizendo era um segredo e eu o guardasse só para mim.

Guardei o segredo, não quis mais assistir nenhum filme que era exibido nas ruas naquelas férias, e em silêncio passei a simpatizar com aquelas pessoas que ele fizera referência pois eu adorava ver os bambelôs, os fandangos, os pastoris e era torcedora do cordão azul.

                                                                                                                         Do baú de Nair Damasceno