Fuga número tres

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RDS Ponta do Tubarão, Barreiras, 2010, Foto: Clarissa Guerra

RDS Ponta do Tubarão, Barreiras, 2010, Foto: Clarissa Guerra

A história, quem me contou pediu segredo,  pois os fatos eram muito recentes.  Eu escutei com atenção e depois lhe disse: — Nunca peça segredo a um contador de histórias.  Resisti até este ano de 2014, mas agora conto.

Era 2011 e os ventos da democracia sopravam a mais de duas décadas no Brasil. Seriam dezesseis horas de um dia qualquer da semana e ele estava na sua casa, junto ao mar e acordara à pouco da siesta obrigatória. Como sempre, nas tardes de agosto o vento leste era forte e contínuo. Passou por lá o homem que fazia as podas e derrubava árvores e “até coqueiros com mais de dez metros de altura” como ele gostava de ressaltar. Foram combinar uma poda na outra parte do sítio. Alguns galhos de uma algaroba teimavam crescer sobre a casa do vizinho que não reclamara, apesar do iminente desastre sobre o seu telhado.

Foram pelo sítio de coqueiros e algarobas, ele, um amigo e o homem que parecia um pouco embriagado, goguento e riscando o ar com o seu facão, descrevendo como  derrubaria aqueles galhos importunos ou  qualquer outra árvore que surgisse no seu caminho.

À direita, por onde caminhavam estava a grande tamarineira, árvore centenária e preferida dos marimbondos de fogo que a protegia dos meninos da região. Era uma bela árvore de tronco irregular com mais de tres metros de diâmetro, árvore quase sagrada e que produzia bons frutos utilizados todos os anos na fabricação dos licores das  festas de São Sebastião.

Quando passavam pela tamarineira, avistaram um homem recostado no tronco da árvore de forma a não ser visto por aqueles que estivessem a leste. O homem visivelmente nervoso,   falou baixo mas de forma que ele escutasse: –Estou aqui escondido porque procuram-me…

Ele mal olhou para homem e respondeu por todo o grupo:  – Não o vimos.  E mudaram o caminho de forma a não passar tão próximo da tamarineira.

Assustou-se como os seus amigos tambem se assustaram, mas continuaram calados. Ele não conhecia o homem, mas o homem o conhecia, pois dirigiu-se a ele e o chamou pelo nome.

Passaram vários meses até que um dia um morador da praia disse-lhe que o homem era um foragido da justiça e matara por ciúmes outro homem numa briga besta de bar.

Todos no povoado sabiam da história da tamarineira que agora era conhecida pela tamarineira do Pedro Pacamão, o nome do fugitivo.

De Claudio Guerra para o baú de Macau