Estética da miséria, número 1

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CRESM da UFRN em 1989: um exemplo. Foto Claudio Guerra

CRESM da UFRN em 1989: um exemplo. Foto Claudio Guerra

Não, eu não conheci o Doutor Virgolo, um sobrenome incomum. Ele ocupou um cargo importante na área da construção civil num desses governos biônicos da ditadura que entristeceu o país de 1964 a 1985 e quando só eram nomeados os amigos dos amigos do poder. Apesar de não conhecê-lo, fiquei interessado na história que me contaram dele.

Grande parte dos prédios públicos construídos durante esse período pelo interior e nos bairros pobres da capital e de uma ou outra cidade maior do interior têm características comuns: são pobres de Jô, com uma estética reduzida, paredes com acabamento péssimo, piso tosco e pintura de caiação, quando muito um lavável verde claro.

E quando algum diretor de escola ou delegado de polícia reclamava da miserabilidade da construção ele tinha uma justificativa pronta e bem ao gosto da burguesia: — Como é que vamos fazer um prédio de boa qualidade aqui se o povo mora em casebres? Seria uma coisa despropositada. Esse povo está acostumado com a miséria e com coisas de pouca qualidade. Se fizermos um piso melhor eles não vão nem saber pisar nele.

Em Macau,  até hoje, quase sempre o governo constrói prédios públicos miseráveis.

De Claudio Guerra para o baú de Macau