Expropriação nas terras salineiras

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O texto do escritor macauense Walter Wanderley [1914/1980] revela o começo da tragédia salineira em Macau. O avanço do capitalismo quebra corporações – como era o sistema de cotas e expropria pequenos salineiros enquanto prepara a mecanização do todo o sistema de produção – desde a “pegada” da água do mar até a construção do Porto Ilha em Areia Branca. Um processo irreversível que permite o aumento da produtividade e o barateamento do produto. A produção continuou sendo social e a apropriação privada e agora para as mãos de bem poucos. E a cidade de Macau continuou na miséria, agora mais ainda com a expropriação dos pequenos salineiros.

De Claudio Guerra para o baú de Macau.  

 

WW Macau na poesia de EAÉ DAS MAIS RICAS TERRAS PEQUENINAS, e não vai neste verso nenhum exagero.

O sal foi sempre o produto impar de sua economia e dele são auferidos os meios de subsistência da gente macauense.

Quando o produto é exportado para os grandes centros consumidores, trabalham salineiros, estivadores, barcaceiros. O Município tem suas rendas aumentadas: as firmas produtoras, seus lucros triplicados, são mantidos às mesas altos cálices  de ouro, do verso de Ponciano Barbosa, o poeta natalense; o comércio prospera; o dinheiro corre na bolsa do pequeno e aumenta na dos grandes; há uma generalizada alegria de viver.

Acontece que Macau faz parte integrante do  nosso Nordeste sofredor e estoico, que parece sucumbir nas longas estiagens e que ressurge, maravilhoso, logo às primeiras chuvas; do Nordeste que, mesmo maltratado e espoliado, teima em ser, um dia, parcelas preponderante deste pais, através de vinte e cinco milhões de nordestinos que,  só agora, veem abrirem-se-lhes perspectivas de redenção, malgrado as manobras escusas que ora se fazem visando a economia canavieira,  algodoeira e salineira.

Outra cidade, situada no Sul, com as riquezas naturais de Macau, já teria alçado voos magníficos e solucionado os problemas mínimos e essenciais de uma terra habitável: água, saneamento, educação, urbanização, energia elétrica. Pois falta tudo isto à terra macauense.

Os pequenos salineiros, com a absurda extinção da autonomia do Instituto Brasileiro do Sal, fruto de ato injusto e unilateral, ficaram na posição desigual perante os grandes produtores, e tendem a desaparecer.

O porto de Macau já foi estudado uma dezena de vezes. Houve derivativos procrastinatórios para as mais diversas e esdrúxulas soluções. Cada governo tem um plano que se torna, depois, inexequível por uma simples opinião de um diretor de departamento ou pela cupidez de determinados órgãos no jogo intrincado de interesse contrariados. Acenam, agora, com os chamados terminais salineiros, que só beneficiarão os grandes produtores. E os pequenos?

A solução ideal seria a salina única com participação de todos os produtores através de suas cotas, rateando-se o sal embarcado proporcionalmente à cota de cada produtor, e as construções dos portos de Macau e Areia Branca, onde se adotaria o mesmo sistema. É uma solução simples e objetiva, perfeitamente exequível. E o sal-gema? Já atentaram para a gravidade do problema?

As empresas milionárias tem feito empréstimos à municipalidade para atenuar, ao menos, os problemas mínimos?

Perguntaríamos, então, diante desse contraste aterrador, de ser Macau uma das mais ricas terras pequeninas e não ter nada, o que pretendem mesmo fazer com a economia de uma cidade que, para viver, depende unicamente do sua principal produto de exportação – o Sal.

Deus é que sabe, e só a Ele devemos apelar.

 

p. 35/37 – Macau na poesia de Edinor Avelino [Ensaio], autor:  Walter Wanderley, Editora Pongetti, Rio de Janeiro, 1967.