O Sindicato dos Bancários do Rio Grande do Norte, por Horácio Paiva

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A ebulição política e sindical de Macau nas décadas de 1940 a 1960 forjou um bom número de brasileiros que dedicaram e dedicam suas vidas na busca de vida com dignidade para todos. O advogado e poeta macauense Horácio Paiva é um deles e é dele o texto que tenho a satisfação de publicar neste site. De Claudio Guerra para o baú de Macau 

O SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO RN

                                   HORÁCIO PAIVA  -

 

Macau, décadas 1980/1990. Greve dos bancários[CEF,BB, BNB e Bandern]

Macau, décadas 1980/1990. Greve dos bancários[CEF,BB, BNB e Bandern]

Tive a honra de presidir, por três mandatos consecutivos (1980-1983, 1983-1986, 1986-1989), o SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO RIO GRANDE DO NORTE num período denso da história de nosso País, quando se tornava cada vez mais necessária e urgente a reconstrução de seu espaço político republicano e democrático. Assumia assim a nossa luta, embora pacífica, um caráter verdadeiramente revolucionário pela reconquista do estado de direito democrático.

A eleição sindical ocorrida em 1980 não foi apenas a primeira daquela sequência de mandatos, mas sobretudo a primeira, após o golpe de 1964, nitidamente democrática, não obstante realizada pari passu ao combate do entulho autoritário e suas sequelas.

Com efeito, e resultante da opressão e do desestímulo, tínhamos àquela época cerca de apenas 600 bancários inscritos e aptos a votar em nosso quadro social. A grande maioria, já quase sem esperança, havia desistido de participar, preferindo aguardar os acontecimentos. Mas a vitória constituiu um grande êxito cívico em nossa entidade, que assim se antecipava à redemocratização que viria depois para todo o País.

A partir de então, atendendo ao chamamento de constante e crescente campanha de sindicalização, a afluência dos bancários à sua histórica entidade de classe cresceu, e a situação mudou por completo, o que se refletiu positivamente nas eleições seguintes: em 1983, votaram cerca de 2.700 associados, e, em 1986, com praticamente a totalidade dos bancários de sua base associada, mais de 5.000.

Mesmo assim, o crescimento de nossa entidade, da qual tanto me orgulho, não foi somente numérico, mas também social e político. Ainda em 1980 articulava-se e criava-se a primeira central estadual de trabalhadores do campo e da cidade do Rio Grande do Norte, após 1964 (a UNIDADE SINDICAL DO RN, depois denominada COORDENAÇÃO INTERSINDICAL DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE), cuja presidência ocupei, pelo nosso Sindicato. Também a nível nacional teve nossa entidade de classe posição de relevo quando, na histórica 1ª CONFERÊNCIA NACIONAL DA CLASSE TRABALHADORA, realizada no município de Praia Grande, São Paulo, fomos eleitos, eu – do SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO RN,  e José Francisco da Silva  -  da FETARN, para integrar a COMISSÃO NACIONAL PRÓ-CUT, como delegados representantes do Rio Grande do Norte.

Integrado à sociedade norte-rio-grandense, ao corpo social do Estado e do País, participou intensamente o SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO RN das expressivas lutas populares pela reconquista e aperfeiçoamento da democracia, com assento nos principais fóruns organizados, que discutiam e encaminhavam temas como eleições diretas para presidente da República, economia, liberdade (inclusive liberdade sindical), direitos humanos, Assembleia Nacional Constituinte etc.

Porém, a posição de relevo do SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO RN, criado em 1937, com carta de reconhecimento sindical à época expedida pelo então Ministério do Trabalho, do governo Vargas, pertence não apenas à história recente da República. Em todo o pré-64 isto já era notório, chegando mesmo a ocupar o principal cargo diretivo, na pessoa de seu presidente, José Campelo Filho, do COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES (CGT), seção do Rio Grande do Norte.

A existência e a importância do SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO RIO GRANDE DO NORTE, em nossa sociedade, em nosso meio social, político e jurídico, no presente e no passado, são históricas e, portanto, públicas e notórias.

Querer negá-las constitui grosseira agressão moral à entidade e à própria história.

Horácio Paiva