Carnaúba in Scenários Norte-Riograndenses (1923) de Amphiloquio Camara

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Carnaúba in Scenários  Norte-Riograndenses (1923) de Amphiloquio Camara

Processo de fabricação da cera, in IBGE

Processo de fabricação da cera, in IBGE

Amphiloquio Camara Scenarios Norte Riograndenses 1923Uma das explorações importantes no final do século XIX e começo de século XX foi a cera de carnaúba. O porto de Macau era grande exportador do produto. A carnaubeira, além da cera fornecia muitos outros produtos para o uso do homem e muitos, assim como a cera, teve importância econômica. Em todo o Vale do rio Assu existiam grandes florestas de carnaubais. Na obra Scenários de Amphiloquio Camara encontramos uma descrição interessante sobre o produto exportado por Macau.

Carnaúba

Do livro Scenários  Norte-Riograndenses (1923) de Amphiloquio Camara

[grafia do texto atualizada]

 (p. 66) “A carnaúba encontra-se na extensão de muitas leguas, formando bela e opulenta floresta que resiste, sempre verdejante e produtiva, ás mais prolongadas crises climatéricas do nordeste.  Em vários municípios do estado ela dá exuberantemente, mas é incontestável que tem a sua região favorecida nas várzeas dos municípios do Açú, Santana  do Matos, Apodi e Mossoró, várzeas que são formados pelos rios Assú e Apodi, na sua marcha para o oceano. A carnaubeira tem um desenvolvimento lento, pois que se faz até aos cinquenta  anos, e a sua altura atinge, com essa idade, até quinze metros. A região ocupada pelos carnaubais, no Rio Grande do Norte, é de cerca de 2.000 km2, dos quais mais de quinhentos estão nas planícies marginais do rio Açú, produzindo mais de duzentas toneladas de cera, anualmente. Da carnaúba todas as suas partes são aproveitadas, desde o caule esbelto até as suas palha e cera, aliás, primorosa, que fornece. Só a carnaubeira faz toda a casa do sertanejo. O tronco dá o madeirame, os esteios, as linhas, as terças, os caibros, as vigas – a ossatura geral da construção – e as palhas fornecem a  cobertura do teto e o revestimento das paredes.   Mais ainda. Todo o mobiliário e todos os utensílios são de carnaúba. As prateleiras, as mesas, os bancos, o armário, são de taboas de  carnaúba, porque esta palmeira excepcional, ao contrario de todas as demais, tem um centro medular  tão rijo e tão duro com a periferia, e assim fornece tabuas solidas e resistentes. Da palha, forte e lisa fazem -se  diversos artefatos, como sejam chapéus, cestas, bolsas, esteiras, urupemas, sacos, peneiras, vassouras, abanos, cordas e até redes, constituindo tudo isto uma rendosa indústria principalmente das mulheres e crianças.  Extrai-se, também da carnaúba um polvilho bastante nutritivo e de agradável gosto. Seus frutos, abundantes quando verdes, constituem boa ração para os gados. Secos, fornecem um óleo fino comestível e torrados e moídos, dão um beberagem semelhante ao café. Suas raízes são medicinais, com aplicações diversas. O principal produto, porém, que a carnaúba nos fornece é a cera, de larga exportação, e como tal, uma das nossas mais importantes fontes de rendas. Os carnaubais do Estado produzem uma média anual de 400.000 quilos de  cera, ou sejam cerca de 27 mil arrobas. Calculado a preço (médio) de cada arroba em 40$000, tem-se uma renda de 1.080:000$00

Referindo-se à cera, assim se expressa o Dr. Domingos Barros:  É dura e quebradiça, de fratura conchoidal, insipida e inodora, fusível acima de 90 graus. Bom isolador de calor e da eletricidade, ardente com uma chama brilhante, rica em carbono. Existe na superfície das folhas, em tênue cutícula, como um verniz protetor. A mais bela cera, a de uma amarelo claro, é retirada das folhas mais tenras, antes mesmo que se tenham expandido em palmas. Mais idosas, dão cera mais escura. Há certamente um principio oxidável que, pela ação do ar, sofre uma profunda alteração da cor.

Eis como se pratica para recolher a cera: O operário armado de uma longa vara, formada pela articulação de tres ou quatro seções, e trazendo na extremidade uma pequena foice – o trinchante – apropriada ao mister, golpeia o pecíolo e a cada golpe desce uma palmas. São recolhidas e postas a secar. Opera-se a retração dos tecidos e a cera desprovida de elasticidade, não podendo acompanha-los em seu movimento regressivo, estala e fragmenta-se em finas e levíssimas escamas. Cumpre separá-las das palhas. Operação delicada. O menor logro ocasiona grandes perdas pela excessiva tenuidade da substancia. Abrem, no centro abrigado do carnaubal, uma clareira, recobrem-na de esteiras, amontoam as palhas, e, pela calma da madrugada, na calada do vento, com dizem, batem rijamente e sacodem as palhas. O pó é logo recolhido e guardado antes da queda do nordeste. Não resta mais que fundir, para obter os pães. A fusão opera-se no seio da agua a ferver para evitar a alteração por parte do calor direto. A cera, como um óleo amarelo, sobrenada o liquido em ebulição, e a as impurezas terrosas precipitam-se  no fundo da caldeira. O óleo, quente, é vasado em moldes e prontamente solidifica-se em pães. Ac era de carnaúba é muito procurada e tem boa cotação nos mercado americanos. Nossos carnaubais rendem anualmente 500 mil quilos de cera.”