Eugenio de Castro

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A Ilha de Manoel Gonçalves por Eugenio de Castro, artigo na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Volume XXXII a XXXIV, 1935/1937, páginas 155 a 176.

 

A Ilha de Manuel Gonçalves 

por Eugenio de Castro

A  archeologia e as lendas (*)

In: Revista do Instituto Historico e Geografico do Rio Grande do Norte, vols.  XXXII a XXXIV, 1935 – 1937, edirtado em 1940, impressão da Tipografia Santo Antonio, Natal (RN)

 

Um dos scenarios mais propícios ás lendas tem sido, sem duvida, o mar pontilhado de ilhas ou em lucta contra outros accidentes geográficos litorâneos que, por vezes, os nevoeiros marinhos velam ou escondem, e o homem busca para motivos graciosos ou dramáticos de mythologia.

Aos poetas ou artistas apraz cantar ou engrandecer legendas e aos archeologos nem sempre desapraz escutal-as ou desmentil-as. A Atlantida ainda é motivo da vigilia de sabios, o thema predilecto de rapsodos.

Navegando nas aguas que guardam a legendaria cidade d’Ys, vizinha ao cabo de Finisterra submersa pela imprudencia da filha do rei Gladon em abrir a porta secreta ligada ao dique que a defendia do mar. Renan escutou tanger o carrilhão dos sinos da mysteriosa cidade submarina  sugestionado pela comovente lenda da Bretanha. Por sua vez, Selma Lagerloff, com intelligencia e fina sensibilidade, ao reviver em primoroso estilo “sagas” nórdicas em aguas frias do Baltico, deixou na alma do pequenino Nils Holgersson a certeza de que, de cem em cem annos, ao correr de uma noite, afflorava ás ondas e cidade de Vineta afundada como castigo ao luxo e soberba de seus habitantes [1] e vaticinou que o desencantamento da cidade submersa só seria assegurado, desde que um dos vinetenses  immortaes nessa predestinada noite realizasse o milagre de mercadejar seus productos pela mais infima moeda de qualquer habitante da Terra.

Nas paizagens litorâneas do Brasil a alma dos praieiros tambem acóde, aqui ou além ao apelo do mysterio, do terror, da fantasia; muitas de sua lendas, porém, entreformaram-se  como o fumo das suas “queimadas” . . .

A um curioso de archeologia, pois, não será demais trazer a lume dois motivos interessantíssimos que concorrem a perpetuar outros mythos ou fabulas. Assim de uma primitiva villa do sul e de uma povoação mais recente do nórte, se sabe terem sido sepultados no mar deixando precaria historia.

Uma, foi a primeira villa de São Vicente fundada a 22 de Janeiro de 1532, que teve submergidos sua primeira Casa do Conselho, o Pelourinho e a egreja da fundação affonsinha. Diz José de Anchieta que “com a corrente das que a e a terra do monte se tem fechado o canal” ou uma das barras do porto de S. Vicente [2]: e nol-o affirma Frei Gaspar da Madre de Deus –:  em suas duvidosas “Memorias” [3] que, para serem verdadeiras nesta passagem, teem para proval-o os textos dos cadernos [4] da Vereação de 1532, notadamente soe o quanto e a quem se pagou por tirar do fundo das aguas vicentinas os sinos da Matriz e o primeiro pelourinho da ilha.

Ante o precedente renaniano, e em contraste com elle, com que pena não fará um poeta nosso emmudecer os sinos submarinos de alguma lenda que haja de imaginar para essa villa d’Ys brasileira!

A outra povoação, mergulhada no esquecimento e para sempre nas aguas atlânticas, demorava na costa riograndense do norte, e seu nome evoca um drama tanto na nossa geografia quanto na historia dos nossos praianos valentes. Foi morada de salineiros e pescadores, e  ao sumir-se nas ondas, mostrava como padrão de sua fé um negro Cruzeiro de tres metros, braços abertos no espaço, madeiro batido pelas vagas que, em procissão marítima, cantando ladainhas, vieram os praieiros buscar como relíquia para a villa nascente de Macau.

Essa terra brasileira esquecida e desaparecida em  meiados do século XIX, — e óra motivo do nosso estudo, — chamou-se, ao tempo, a ilha de Manoel Gonçalves,

Uma “Ilhota” á Foz do Rio “Grande” ou Açú no Seculo XVI

Na representação cartográfica do litoral riograndense do nórte, entre as pontas do Mel e do Tubarão é muito imprecisa a maioria das cartas náuticas desde os primórdios dos descobrimentos. Mostram-se em geral deficientes quanto ao desenho da rede potamographica de que são hoje parte os braços principaes do rio Piranhas, nomeados Conchas, Cavallos e notadamente Amargoso ou Açu com antigo delta, ilha ou ilhas, barras e baixios, “arrombados” e “camboas”. E si tal precisão cartographica ainda é relativamente manifesta, fácil não será positivar-se, na hora actual, — só valendo-se de textos ou de cartas antigas e modernas, sem estudos oceanographicos completos, sondagens geológicas e archeologicas locaes, — o que ahi teria sido uma ilha de “Manoel Gonçalves”.

Gabriel Soares de Souza, no seu Tratado (5) não mostra conhecimentos rigorosos da “costa leste-oeste” descripta por informes nesse nossa ora mais notável do século XVI. Mesmo experto piloto que por ahi viajasse a esse tempo, valendo-se da monção que cursa periódica, como das correntes oceanicas e costeiras, e tendo de esperar pela contra monção para a certeza de volta – estas e aquellas a retardarem o expansionismo marítimo e colonizador irradiado de Pernambuco ou Nova Lusitania – não realizaria a empresa de represental-a fielmente em cartografia. Attente-se, para isso, na precariedade do calculo da longitude até fins dos século XVIII; na imprecisão das primitivas agulhas de bordo; no calculo da latitude sem a approximação actual no systema de projeção adotado nas cartas planas antes do objectivado por Mercator, tudo referido a um sector da costa em que muito representam os mínimos caminhos em latitude e em longitudes, para identificação toponymica, e se dará razão a pilotos e cartógrafos quinhentistas, e mesmo seiscentistas e setecentistas, da imprecisão em que incorreram.

O proprio cabo de S. Roque – nomeado por Vital de Oliveira “a volta da America” – ponto de marcação buscado pelo navio veleiro para segura rota nesse litoral, nem sempre foi uniformemente identificado e desenhado nas cartas coevas, e mesmo pósteras, ás primeiras expedições exploradoras. Assim, ainda hoje se fica em duvida, consultando-as a par de roteiros e derrotas, sei o primitivamente baptisado – cabo de S. Roque – foi sempre o mesmo ponto geographico, tal a confusão que, por imprecisos levantamentos topo-hidrographicos ou informações de saccordes de náuticos, se estabeleceria entre os actualmente assignalados Cabo de S. Roque e Ponto ou Cabo do Calcanhar. Em muitas cartas do primeiro seculo brasileiro o “cotovelo” e o “calcanhar” riograndense eram desenhados mais para este, para oéste ou mesmo juxtapostos respectivamente ao sabor de uma duvida, de uma quasi certeza, ou de uma fantasia.

Tendo em vista tantas irregularidades na representação cartographica do tempo, parece ter Gabriel Soares chamado ao Piranhas cujo braço mais oriental é o Amargoso ou “Açú” – o rio “Grande”; suppol-o na latitude de 4º sul e com quatro leguas distante para léste da “bahia” ou “buraco” das Tartarugas. Mas a “bahia” das Tartarugas, ou das “Tortugas” do século XVI ou seguinte não foi sempre reproduzida á mesma e regular distancia do Cabo de São Roque nos portulanos ou cartas dos descobrimentos e nas do seculo XVIII: nas primeiras, outra teria sido a “b. das Tartarugas”. Pelos exemplares de Viegas (1531) e Reinel (1516), approximadamente) dever-á identifical-a com bahia situada na costa riograndense do norte, e já no século XVII, pela carta de João Teixeira de Albernaz [6], na actual costa maranhense, o que vem confirmar duas passagens de “Historia do Brasil” de Frei Vicente de Salvador [7] com referencia ao “Buraco das Tartarugas”.

Gabriel Soares no seu “Tratado Descriptivo” nomeia, entre vários outros, a dois “rio Grande”: um em latitude de 5° 15’ sul, fácil de ser identificado com o rio Grande do Norte ou Potengy; um, e um outro “rio Grande” “entre duas pontas sahidas ao mar” tendo entre ellas “ima ilhota que lhe faz duas barras pelas quaes entram navios da costa”. Dá elle este “rio Grande” distante para o occidente dez leguas para o “Cabo de São Roque” que, como dissemos, muitos pilotos confundiam  com a ponta ou cabo do Calcanhar.

“Ente este cabo” (de São Roque, diz por equivoco Gabriel Soares) “e a ponta do Rio Grande se faz de uma ponta á outra uma grande bahia, cuja terra é bôa e cheia de matto, em cuja “ribeira ao longo do mar se acha muito sal feito” [8]. Ora, não ha nenhum rio digno de chamar-se “Grande” a menor distancia desse cabo, como ahi está descrito, ou em terra próxima em cujas ribeiras marinhas haja sal, sinão o Amargoso ou Açú, em língua brasileira. – Esse rio, porém, tem sua foz em maior lonjura tanto do verdadeiro cabo de S. Roque como da ponta ou cabo do Calcanhar: daquelle, vae a distancia de noventa e cinco milhas ou cerca de 24 leguas antigas; deste, a de setenta milhas ou de 17 leguas approximadamente.

E assim, deante de maior distancia dada pela carta moderna entre esses principaes pontos geographicos, — visto que o outro Rio Grande ha a considerar-se distante para o sul dez leguas do actual Cabo de São Roque, — poderá dizer-se ter sido a “ilhota” citada por Gabriel Soares o todo que, com o tempo, se veio a dividir em outros ilhotes desaparecidos e a cuja maior fracção um dia se chamasse a “ilha” de Manoel Gonçalves?

 

 

 

O Delta do Piranhas ou um Delta Açuano nos Seculos XVIII ou XIX

 

Nasce o Piranhas, cujo nome lhe adveio das muitas que lhe povoaram as aguas, em terras da Parahyba. Corre ao norte já em solo riograndense até a cidade do Açú, antiga Villa Nova da Princeza, e uma vez esta passada, inflete para o nordeste, rumo ao que se mantem em leito de tabatinga e, depois ao norte o seu principal braço Amargoso ou Açú até o Atlantico. Os outros dois braços que do mesmo caudal derivam, Conchas e Cavallos, veem lançar-se tambem no oceano, mas afastando-se da foz daquelle para o occidente, respectivamente 4 e 2 milhas [9].

No inverno, quando acontece ser chuvoso, ou mais notadamente no litoral, de Março a fins de agosto, sobem as aguas do Açú e dos dois braços: avolumam-se em torrente. E, onde o terreno cede ao ímpeto fluvial, abre-o este em “arrombados”, com a fúria tomada contra o mar simulando represália á conquista da terra pelo oceano durante o verão. Nesta estação invernosa a conta é mansa, os terraes do sudoeste para o sul manteem-se até onze horas: a viração do quadrante suéste favorece ou prenuncia grandes calmas equatoriais e aragens fracas entre Fevereiro e Março. É phase em que domina o rio á terra , e assim até annuncios de verão quando o mar retoma soberbo o senhorio de todo o litoral.

Si então, ventos do sueste sopram até oito horas do dia, de logo os ventos dos lesnordeste me viração fresca   investem contra a costa para retalha-la e vencel-a, principalmente quando os rijos nordestes a castigam e avassalam, e as “marés de lançamento” secundam a acção dos ventos [10]. Rasgam então sulcos ou leitos em “rias” que nascendo no mar, se insinuam em “camboas” sobre a terra e sobre os mesmos rios fazendo-os salgados, — como ao Amargoso ou Açú, até 36 milhas de sua foz [11]~– mas dando tambem origem ás salinas, a maior riqueza desse sector potiguar.

Estudada a constituição geologica  litoranea  do que se oppõe, ou é subjugado, pela correntada neptunina, nasce ahi a certeza de um drama secular do oceano e dos rios contra a terra, inquietação geographica regional marcada á flor do solo ou afundada em baixios, representada nas cartas topo-hydrographicas que se forma levantando, ou ensinada em outros documentos historicos – valiosos elementos para esta phase de nosso pequeno estudo.

Que destino, portanto, haveria de ter uma “ilhota” de frágil constituição, como em geral as que se ahi formam, através de mais de um seculo, situada á foz do Açú e maltratada óra pela torrente fluvial no inverno, óra no verão pela violência maior do mar em correntadas no serviço de rijos ventos? Indubitavelmente ser retalhada por esteiros, gambôas ou rias, esfarelar-se em baixos, submergir; para, prosseguindo o oceano na sua fúria implacável, ahi realizar sua missão precípua: vencer a terra para enriquecel-a de salinas.

Em 1757, dois seculos quase do relatado por Gabriel Soares, o Ouvidor Domingos Martins da Rocha argue que nessa zona banhada pelo Atlantico, “há quatro rios que nascem  do mesmo mar e entram pela terra a dentro”: um, a que chamam Agua Maré que da Costa até donde finda serão 5 leguas; ouro chamado Tubarão que só terá de comprimento uma legua; outro a que chamam Manuel Gonçalves, o qual é navegavel em distancia de oito leguas; o outro, ao qual chamam Assú que tem, nascimento no centro dos sertões que com individuação não se sabe donde  e só corre em tempo de inverno, e despeja para o mar no rio chamado Manuel  Gonçalves, já declarado”… [12]

Se bem que mais deslocada para oeste, — muito provavelmente, porque já cinco décadas eram passadas do que arguira o Ouvidor Domingos Martins da Rocha, — se vê não de todo a confirmação dessa noticia no “Mappa topographico da Capitania do Rio Grande do Norte” tirado por ordem do Governador da mesma capitania José Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, desenhado por Montenegro na cidade de Recife” [13] e impresso em 1811.

Este exemplar cartográfico assignala quatro ilhas anonymas geradas e divididas óra pela acção do mar, em “arrombados” e em rias que ficaram sendo as barras abertas entre ellas abertas. Entre a foz do rio Madeira, ainda ao tempo ahi assim chamado, mais oriental de todas, e a foz do rio das Conchas, fixa a carta de 1811 as cinco seguintes barras: do Madeira entre a 1ª e 2ª ilha; do Amargoso, ente a 2ª e 3ª ilha; do Açú, entre 3ª e 4ª ilha; do Conchas, á foz do braço ou barra do rio dos Cavallos, entre a 4ª ilha e a costa[14].

Revela esse documento entre duas dessas ilhas, como vimos, uma barra do Manuel Gonçalves, mas nenhuma dessas ilhas é nelle por este nome conhecida. Moreira Pinto, entretanto, no seu Dicionario Geographico, attribue-lhe essa toponymia anteriormente a 1818, quando diz que principiou o mar a invadil-a para destruil-a em poucos annos por completo [15], toponymina essa confirmada pela escriptura de 13 de Maio de 1797, citada adiante na nota 25.

Em 1843, edita-se a “Carta Corographica arranjada por Conrado Jacob de Niemeyer e Marcos Pereira de Sales” contendo as “Providencias das Alagoas, de Pernambuco, da Parayba, do Rio Grande do Norte e do Ceará” [16] e nella a configuração litoranea deste sector é bem diversa: mostra-nos uma ilha de Manuel Gonçalves tomando totalmente as fozes do Piranhas [nesse ponto Amargoso ou Açú] e dos Cavallos, indo pelo oeste a aproximar-se do local baptizado Conchas, situado no continente e que, nesta carta, não é banhado por nenhum rio deste nome. Entre este local e o ocidente da ilha registra a barra do Açu e entre a ponta do leste da ilha e o continente, a barra do Madeira: entre as barras deste rio e do Agua-maré da uma povoação de Macáu, no litoral potiguar. O delta Açuano não entra com detalhes na cogitação do cartographo. E assim, a acreditar-se sob maior confiança nesse exemplar, trinta e dois annos bastaram para alterar profundamente os aspectos topographico e hydrographico dessa região, com a maior evidencia que ahi toma essa ilha orientada ao NO-SE chamada Manuel Gonçalves.

O visconde J. de Villiers d’Ile Adam, no seu exemplar cartográfico de 1848, referente ás Provincias do Rio Grande do Norte e da Parahyba [17], assinala somente uma terra ilhada á foz deste rio, como ilha de Manuel Gonçalves extensa de 6 milhas, orientada para leste-oeste, com egreja de N. S. da Conceição, cuja padroeira era levantada pelos primitivos habitantes.

A vida de salineiros e pescadores ainda ahi seria intensa, mais cheia de justos cuidados, pois si a carta instrue estarem sendo muito productivas as salinas da ilha, tudo concorre para concluirmos que, sob ameaça impenitente do mar, já antes ou desde 1836, povoadores avisados buscavam a margem direita do Amargoso ou Açú, onde se foi formando a povoação de Macau[18].

Outra noticia referente ao ano de 1848 é a que nos dá o “Roteiro da Costa do Brasil”, de José Saturnino da Costa Pereira: “O Rio Piranhas vem ao mar por cinco bocas de que as tres príncipes teem os nomes de rio Amargoso que é o mais oriental; rio das Conchas que he o mais hoccidental e o rio dos Cavallos que há a do centro e a mais volumosa. “A terra que fica entre as duas bocas extremas tem o nome de ilha de Manoel Gonçalves”.[19] No “Dicionario Geographico descriptivo do Imperio do Brasil, de J.C. R. de Milliet de Saint-Adolphe, traduzido por Caetano Lopes de Moura e publicado em 1854, se lê o seguinte: “Manuel Gonçalves – Ilha da Provincia do Rio Grande do Norte perto da embocadura do rio Açú ou Mossoró”(sic). “E’ ornada de uma igreja da invocação de N.S. da Conceição, e nella faz-se um commercio considerável de sal, farinha de mandioca e peixe salpreso”.

Mesmo acceita a contribuição desta fonte colhida sem levar em conta a data da publicação desse livro, melhor será, todavia considerar-se a seguinte passagem que se lê ás fls. 19 do “Roteiro da Costa do Norte do Brasil desde o cabo de Sto. Agostinho até a cidade do Pará, escripto em 1857 pelo Piloto e pratico da costa e de numero da Barra Maranhão, Joaquim Duarte de Souza e Aguiar”; “Da ponta do Tubarão para o noroeste seguia-se uma ilhota denominada de Manuel Gonçalves; pouco a pouco se foi esta ilha desmoronando até que deixou de existir”. [B.N.R,J., V. – 166, 2, 11].

Completa a informação idônea do Piloto o que entre 1857 e 1859 Vital de Oliveira, grande hydrographo brasileiro e gloria da nossa Marinha, nos dará em suas cartas [20] com precisão maior que qualquer outro documento conhecido. Nella se apprenderá lição mais sabia para melhor concluir sobre o fraccionamento que no seculo XIX se operou no delta Açuano pela acção latente da mar em correntadas fortes ou “marés de lançamento” impulsionadas pelos nordestes. O que geologicamente poude resistir-lhe. Graças á estrutura de arenito imerso ou base submarina mais solida, se affirmará pelo resto de um aparcelado cercado de alfaques, tendo por linde ao occidente a foz do Açú, ao oriente a chamada “Barra da Ilha” e ao sul a “Cambôa dos Barcos” como reminiscência de uma das primitiva barras orientaes assignaladas na carta de 1811. O que, por mais frágil, não apoiado em alicerce submarino de arenitos, menor resistencia poude oferecer á acção do oceano, se desfez em dois parcéis: o do occidente, tendo ao noroeste bancos de areias movediços;  o do oriente, bem mais para leste da “Barra da Ilha” escoltada por baixios soltos e perigosos, na altura do que antigamente fôra a foz ou barra do Madeira. A configuração da terra aparcelada de Camapuam, além da formação dos baixios para o norte della uma milha. O rio das Salinas – que nessa carta vem nitidamente acentuado como afluente do Açú, provavelmente o rio Salgado da carta de 1811 –, e a “Barra da Ilha” ligada á “Cambôa dos barcos”, que contorna pelo sul a ilha maior do delta, dão já no meiado do seculo XIX novo e expressivo aspecto geographico á foz açuana e á costa potiguar deste sector [21].

Esse mesmo aspecto litoraneo, com pequenas alterações e em menor escala, é ratificado em 1876 na “Carte Routiére de la Côte du Brésil” de Mouchez [22] na secção do litoral baiano ao do Ceará. Não fosse ela trabalhada como sabemos, sobre a obra de Vital de Oliveira, a si, assim, nesta passagem, nada adiantará á que lhe servira de modelo, tal não se dará quanto á posição da Villa de Macau ahi marcada, e escolhida pelos retirantes da ilha, seus fundadores, como o local resguardado da ofensiva solapadora do mar.

Em 1907 o exemplar cartográfico da nossa Directoria de Navegação e Hydrographia revelará, parece-nos, como reminiscencia da ilha primitiva á foz do Açú, um pequenino parcel entre as fózes do Conchas e do cavaloes; e nella se notarão ainda baixios ou corôas cortadas por muitos canaes, afóra a “Camboa dos barcos” como uma das antigas barras desenhadas na carta de 1811. O morro de Diogo Lopes continuará como uma das características dos acidentes costeiros ahi formado sob o aparato dynamico das areias, criador das dunas.

Por esses dados, pois, como por outras contribuições geológicas e hidrographicas, se poderá concluir: a “ilhota” à fóz do Rio Grande [ou Açú], citada por Gabriel Soares , teria desaparecido antes que o outro fenômeno se operasse: — a formação de um novo delta Açuano, ao correr do século XVIII. E dahi em diante, sofrendo a mesma dura sorte, a terra ilhada e mais avançada ao mar, que não poude oppor em nível mais baixo resistencia maior à cyclopica acção oceânica, teve de recuar ou ceder até onde suas camadas geológicas lhe permitiram marcar a nova fronteira marítima [23]. Expressão dessa lucta secular foram, em parte os deltas mutáveis que em tempo existiram á foz do Açú á qual pertenceu a ilha de Manuel Gonçalves, — hoje para sempre sepulta nas salsas aguas, exphacelada  em bancos ou parcéis.

O exodo dos Ilheos e uma Lenda Brasileira

A´ proporção que as “marés de lançamento” ou de syzigia e os nordeste rijos devoravam a ilha dita de Manuel Gonçalves, habitantes de maior cabedal iam abandonando seus lares e transferindo-os para a margem direita do Açú.

E como eram elles na maioria portugueses, surgiria dahi uma nova povoação nomeada Macáu como reminiscencia da pequena cidade da China Lusitana?

Camara Cascudo, estudioso da historia da gleba riograndense do norte e um dos animadores da historiographia gonçalvina, diz que “por 1825 os principaes moradores da ilha de Manuel Gonçalves resolveram emigrar” [24]. Onde colheu Moreira Pinto os dados para o verbete de sue Diccionario marcando, como começo da invasão da ilha pelo mar, o ano de 1818, não é fácil saber-se; mas tudo faz supor, pelo menos com o auxilio da cartografia, quem vem de1811 até Vital de Oliveira em 1857-59, e dos roteiros citados, que, entre 1848 e 1857 se operou com maior intensidade a obra lenta mais continua da destruição a ilha. Inclusive seu desaparecimento final.

Salineiros e pescadores azafamados nas suas fainas em colher o sal das ultimas salinas ou o peixe sadio que, em torno a ella, já em parte submersa se criava, voltados a todo instante para os céos, nas suas orações, votos e novenas á padroeira, foram os últimos a abandonar as areias desertas como náufragos de um navio lentamente a sossobrar. Algumas relíquias desse tempo ainda existem em família, guardadas pelo zelo de mãos femininas [25], envoltas ou vista em comovida saudade. É que Macau, principalmente, e a povoação da ilha de Manuel Gonçalves, tiveram sempre vida e alma comuns pelo sangue de seus habitantes, pelos seus interesses mercantis, pela sua historia, somente quando uma é esperança ainda, a outra já começa a ser motivo de evocação. Assim, em 1836 é autorizada a criação de uma Mesa de Rendas em Macau ou na Ilha, e ao passo que esta se vae sumindo nos s pègos atlânticos. Macau sobe a Districto de Paz em1843, a cabeça de Municipio em  1844 ou 45, a villa em 1847. Cidade só o seria em 1875.

A data, porem, de 19 de Agosto de 1854, parece marcar época bem approximada da agonia dessa lendaria ilha das salinas: porquanto é só nesse anno, por Provisão provincial de n. 294, creada na villa de Macau a Freguezia sob a invocação da Padroeira da ilha de Manuel Gonçalves, — Nossa Senhora da Conceição.

Tudo leva a crer possa essa data se aproxima da do dia em que se conta terem de Macau partido romeiros tripulando festivos barcos e cantando ladainhas, em busca do maior dos parcéis sobre que ainda se alteava, braços abertos no espaço e batido pelas ondas, o Cruzeiro Christão a afundar com a propria ilha que lhe fora fiel, E a tradição rememora que esses salineiros e barqueiros valentes arrancaram então das areias gonçalvina e conduziram em procissão marítima para a Villa de Macau, esse mesmo cruzeiro que até 1931 vigiará o cemitério no continente, como a maior relíquia da ilha submersa, e depois será transferido para o corredor lateral direito da matriz macauense, para ahi ficar “envolto em fitas votivas e flores de papel vermelho” pelo zelo dos devotos.

Conta-nos, por fim, Camara Cascudo, “que em marés claras, os barcos dos pescadores passam raspando a ilha de Manoel Gonçalves, e que estes veem ainda hoje sombras de calçadas, filas escuras de pedra marcando o casario, manchas de antigos armazens, mysterios, encantamentos, sob as aguas do mar”.

É já a lenda regional que se forma na imaginação dos praieiros, a desafiar o archeologo avisado ou o hydrographo provecto para um estudo archeologico ou oceanographico da mysteriosa região. Ainda chegará a tempo a sciencia?

Si o tempo chegar, — como o gênio de Selma Lageroff soube criar no coração do pequenino Nils Holgersson a certeza de uma cidade de Vineta submersa no Baltico e a ser desencantada, melhor poderá o archeologo tirar de tão inglório esquecimento a “Ilha de Manuel Gonçalves”, com reconstituir-lhe sua vida, sua geografia e sua história, sem destruir, antes avivar, na imaginação dos praieiros potiguares, o mystico alvorecer de uma lenda brasileira.

EUGENIO DE CASTRO

NOTA – O thema deste pequeno estudo foi-me proposto pelo escriptor Luiz da Camara Cascudo que, sobre a ilha desaparecida, escutou tradições e pesquisou documentos na cidade de Macau. Com agradecimentos ao historiógrafo riograndense do norte e como subsidio de tão boa fonte, junto a este trabalho as notas 18, 24 e 25.

E.C.

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Notas:

[*] Transcrito, data venia, da Revista “Sul America”, ano 19, n. 76, pags. 23-27 e 54-58 – N. da R.

[1] “Le Merveilleux Voyage de Nils Holgresson”, pag. 158

{2} “Cartas de Anchieta”, Informações e Fragmentos Historicos”, publicação de 1896, por J. Capistrano de Abreu  Valle Cabral, pag. 44

[3] –“Frei Gaspar da Madre de Deus”, “Memorias para a hIstoria da Capitania de S. Vicente, 1º edição, 1797;3º edição de A. de Taunay, 1919, pag 141. Apud “Historia Geral do Brasil”, 3º ed. integral, pags. 202 tomo I.

[4} – Archivos da Camara de S. Vicente, Cadernos de Vereação, anno de 1542; “Memorias”, pag 141.

[5] – “Tratado descriptivo do Brasil”, 1587, publicado na Revista do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, tomo XIV, pag. 24.

[6] – “Collecção dos Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas” etc, por Diogo Barbosa Machado; pag. numeração antiga, 32 (B.N., 3ª secção, 1, 2, 13). Nesta carta lê-se “buraco das Tortugas”; mas na “Descripção de toda a Costa da Provincia de Santa Cruz a que vulgarmente chamão Brasil”, tambem de João Teixeira (de Albernaz) “Cosmographo de sua Magestade”, feita em 1642, não aparece essa toponymia.

[7] –“Historia do Brasil”, pag. 185-7, 1ª edição, Vol. XVIII, Fasc. 1 dos Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro”… o qual, discorrendo a costa avante do Ciará foi athé o “Buraco das Tartarugas”, e ahi fez uma cerca e deixou um presidio… “Dali forão ao “Buraco das Tartarugas” onde havia deixado o presidio…”

[8] – Obra citada, pag 25.

[9] – Em 1918, o engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira[Dic. Do Instituto Hist. Bras. Pafgn442, vol.22, 1922] em seu valioso estudo ensina: “ o rio Assú lançar-se no oceano por tres bocas; o Assú propriamente dito ou Amargoso, em cuja margem está a cidade de Macau, o rio dos Cavallos e o rio das Conchas. Estes últimos são ligados por camboas…

“O fundo do rio Assú {Amargoso] é, bem como suas margens, de tabatinga, de maneira que o canal dragado se conservara perfeitamente; as margens são revistadas de mangue, o que facilita também  a sua conservação.

“O canal segue sempre bordado de mangues até o pontal da barra do sul, o qual é formado de dunas que veem daquela direcção. Entre o pontal e a Corôa do Meio passa o canal sul que nas baixas marés de syzigia tem 0m,8 de profundidade. O canal do norte, prolongamento do canal do Assú, é o mais praticado e tem em maré baixa  1 metro de profundidade”.

Para defender o accesso ao porto de Macau projetou Souza Bandeiro o seguinte: 1] — Fixar as dunas no Pontal do Sul; 2] – dragar o canal da barra; 3] – draga o canal interno; tudo isto tendo em vista manter o canal com a força das correntes da maré” [Cl. T. de Lyra – Estado do Rio Grande do Norte].

[10] – H. Wagner, “Tratato di Geografia, Tradoto dal Tenente Ugo Cavallero, ed. 1911, Volume secondo, Cap, II, pag. 102;

“Questo lavoro di escavazione delle onde, cui si dá il nome de abrasione, si spinge fino al punto dove arriva l’onda de marea. Perciò, dove il livello del mare varia di poco, non si producono se non terrazze de sabbia relativamente ristrette. L’effetto piú importante dell’abrasione é la formazione di numerose insenature, che vano dalla forma pocco arcunta a quella semicircolare, separate l’uma fall’altra da promont ri; questi si formano la, dave l’abrasione no puó procedere com eguale rapiditá che ai lati, a causa della diferente durezaa o giacitura della roccia. Lo sgombero delle insenatura, senza il quale l’abrasione dovrebbe presto arrestarsi, avviennne por effetto dello metastasi delle coste, temine com cui si vuole indicare il lavoro compiuto dalle onde dirette obliquamente alla costa, col concorso delle correnti costiere locali, generate dai venti”

[11] – Vide “Directoria da Navegação, Costas do Brasil, Roteiro, 1ª parte, 1924, pg.107

[12] – Cf. “Dicc. Hist. Geog. E Ethnographico do Brasil”, Tavares de Lyra, “Estado do Rio Grande do Norte”, edição do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, 2º volume, 1922, pags. 571.

[13] – Exemplar da Biblioteca Nacional – Secção de Estampas, 2ª., 14, 4.

[14] – Tomando as coordenadas da primeira ilha que demora aa leste da barra de Manuel Gonçalves, encontramos para: Lat. M. 4º 41’  Sul e Long. M, app. – 7º 20’ Est,. Do Rio de Janeiro.

[15] – Moreira Pinto, “Dic. Geographico Brasileiro” pag . 437: “Manuel Gonçalves: Assim denominada uma ilha situada na costa do Estado do Rio Grande do Norte, próxima a cambôa denominada Barra da Ilha. Em 1818 principiou o mar a invadil-a destruindo-a de poucos annos completamente. Seus habitantes refugiaram-se no rio Amargoso e deram origem á povoação de Macau. No logar em que existiu esta ilha, notam-se diversas corôas”.

[16] – “Carta Corographica arranjada por Conrado Jacob de Niemeyer e Marcos Pereira de Sales”, 1843 [BB.N. 3ª secção, 3,7, 14]. Coordenadas da ilha de Manuel Gonçalves; [Lat. 5ª 6’ Sul; Long, 7º 8’ E., do Rio de Janeiro].

[17] – Carta do Visconde J. de Villiers d’Ile Adam, 1848 referente ás Provincias do Rio Grande do Norte e da Parahyba [B.N. 3ª Secção, 1, 3, 7-8]. {Lat. M. 5º 3’ 20” sul—Long. 6º 54’ E. do Rio de Janeiro] Comprimento na maior extensão,. 6 milhas.

[18] – Camara Cascudo, nota inédita: “A ilha de Manoel Gonçalves tomou provavelmente o nome de seu emphyteuta. Demorava a nordeste da cidade de Macau cerca de doze ou quinze milhas. Em fins do século XVIII era intensamente povoada, com armazens de taipa para guardar peixe secco, rumas de sal, negociando carne-de-sól com as “Officinas” de Assú. As salinas na ilha são mencionadas em documentos de 1799, com autos de posse. Além de gente pobre, pescadores e pequenos traficantes, nella viviam portugueses abastados com prole extensa. Vida humilde e simples. A Capella seria dedicada á Nossa Senhora da Conceição, tendo seu grande Cruzeiro de tres metros, com as extremidades em flor de liz, chantado na praçuela principal. Frei Vidal ´e tido como tendo erguido essa afirmativa de fé católica em 1811.

Idem, nota inédita: “O Cruzeiro está na Matriz parochial da cidade de Macau. Na placa informa ter sido retirado da ilha de 1825”. A data é negada por muitos conhecedores das tradições locaes, entre elles o Sr. Francisco de Araujo”.

“Em Macau disseram-me existir ainda a imagem de Nossa Senhora da Conceição padroeira da ilha. Viéra de Portugal. A “igreja era uma capelinha de taípa”.

Idem, nota inédita: “Onde é hoje Macau extendiam-se salinas e mangues. Em Alagamar moravam cinco ou seis casaes humanos. Vez por outra serviam de pilotos aos barcos e demandavam onde se fundaria a cidade. A navegação era fácil. Quem vinha do nòrte tomava piloto em Alagamar, entrava na barra da futura Macau e ahi carregava sal, peixe e carnes das “Officinas “ nos primitivos depósitos de rancharia, cujos donos moravam na ilha. A volta era pela barra, mesma trilha”.

[19] – “Roteiro das Costas do Brasil” de José Saturnino da Costa Pereira, 1ª edição, 1848, [B.N. 3229, 4, 34], pags: 182 e seguintes. A 2ª edição, dessa obra é dedicada ao Almirante Custodio José de Mello.

[20] – Viral de Oliveira: “Carta reduzida da Costa do Brasil do Rio Mossoró á Ponta do Reducto por M.A. Vital de Oliveira”, 1857 a 1858 [B.N.10 A,, 15, 24, 3ª. Secção].

[21] – Lat. do meio do parcel 5º 4’ 36” sul –Long. M. 6º 29’ 30” E., do Rio de Janeiro – Extensão 4”, E.

[22] – Mouchez, “Carte Routiére de la Côte du Brésil”, 1867 [B.N. 2-8-1]. [Lat. Da orla do baixio 5º 5’ Sul-Lat. Do meio do parcel 5º 7’ – Longt: m. 38º 56’ W. Paris ou 6º 8’ E., do Rio de Janeiro].

[23] – Segundo os estudos dos Geologos Roderic Crandall [Geographia, Geologia, Supprimento dágua, Transportes e Açudagens, Bol. n. 4] e John Casper Branner, reproduzidos no trabalho já citado de Tavares de Lyra, deve-se concluir: “As rochas de base complexa ou de massa crystalina depois de um longo periodo de erosão, ter-se-ão finalmente submergido ao longo da Costa da Parahiba e do Rio grande do Norte durante o periodo entre os fins do cretaceo e os principios do terciário.

“O mar invadiu a terra até passar a linda do contacto entre as areias das rochas sedimentares e crystallinas. Foi durante o primeiro periodo de depressão que o arenito de granulação miúda, já descripto, foi depositado. Com esta deposição as condições mudaram-se radicalmente, pois temos um pedra calcarea, quasi pura, que já directamente sobre esse arenito”.

“… a terra ao longo da costa submergiu-se durante o periodo post-cretaceo e foram depositadas a mais recentes camadas de areia e argilas”.

Vide nota 10m, H. Wagner. “Trattato di Geografia”, Trad. Vol.2 Cap. II, pag. 102

[24] – Camara Cascudo, nota inédita: “O rico comerciante João Martins Ferreira, seu filho José, seus quatro genros, José Joaquim Fernandes, Manoel José Fernandes, Manoel Antonio Fernandes e Antonio Joaquim de Souza vieram para onde depois se espalhariam as ruas de Macau. Os quatros genros –accentúa no informe – teem nomes controvertidos. Noutras informações, deram-me gente diversa. Sabe-se que além desses, deixaram a ilha os portugueses João Garcia Valladão, Francisco Jose da Costa Coentro, Eliziario Cordeiro, Antonio de Moura e Silva, Manoel Rodrigues Ferreira e o brasileiro Jacinto José da Hora. Alguns moradores antigos da cidade lembram que as residencias desses fundadores eram nos melhores sítios do alagado e salitroso Macau. Os Martins Ferreira construiram armazém alto e solido onde se lia a data 1825, denunciando vinda anterior”.

[25] – Camara Cascudo, nota inédita; “D. Maria Pureza Fernandes da Silva, viúva e ciumentissima de suas propriedades, guarda num oratório de jacarandá polido tres santos que foram venerados na capellinha da ilha. Houve os de seu marido Antonio Alves da Silva. Uma Nossa Senhora da Conceição, de mãos postas, esmagando entre o crescente lunar e nuvens, a serpente clássica, tem a cabeça cingida por uma corôa de prata do Porto, trabalhada deliciosamente, em florões. O S. José sério e triste, sustem um Menino–Deus louro e nú com resplendores de prata em relevo. O crucificado é commum, pouco chagado, com resplendor de prata. Todos são de madeira. São José e Nossa Senhora devem medir uns cincoenta centimetros. Durante mais de um seculo guaram as preces dos salineiros, pesadores e comerciante insulados na terra levada pelo Atlantico”.

Idem, nota inédita: “quando entive em Macau [dezembro de  1935] conheci João Teixeira de Souza, nascido em 1847, decorador de tradições e gostando de evocal-as. Seu sogro Manuel da Rocha Bezerra , nascera na Ilha de Manuel Gonçalves. O velho João Teixeira reviveu as existencias passadas na ilha que o mar  devorou”.

Idem, nota inédita: “Pelas notas que se foram bondosamente enviadas pelo dr. Francisco Menescal, vê-se que a ilha de Manuel Gonçalves pertence a um pequeno arquipelago. Numa escritura de venda, datada de 13 de Maio de 1799, além dela citam-se as ilhas  do Amargoso, Tubarãozinho, Tubarão Grande e Cacimbas do Madeira. Macau, então deserto, era apenas o lugar chamado Macau. Na segunda metade do seculo XIX as Ilhas do Tubarãozinho e Das quatro Bocas, possivelmente Cacimbas do Madeira, desceram para o fundo do Mar. Creio que nenhuma chegára a se habitada.

“Actualmente, imforma-me o dr. Francisco Menescal, presenciamos a agonia da ilha do Tubarão que fazia para da mesma gleba”.

Idem, nota: “Na sua denominação dos Municipios” [Natal, 1922]  Manuel Dantas não soube explicar o topônimo Macau –. Em nota [p.21] informa que Macau “foi fundado pelos navegantes portugueses. Ignora-se a data da fundação da Matriz, sabendo-se apenas, que era uma pequena capella filial á Matriz da freguesia de São José de Angicos, sendo desmembrada desta pela Lei provincial de 19 de agosto de 1834”, — engano tipográfico — , a data é 19 de agosto de 1954(resolução n. 294), a da criação da freguesia Vêr Pedro Soares. Repertorio das leis estaduaes referente aos Municipios —Macau”.

“Macau pertencente ao municipio de Angicos, foi Distrito de Paz pela resolução n. 100, de 27 de outubro de 1843, villa e séde do municipio de Macau pela resolução. 158, de 2 de outubro de 1847, elevada ao predicamento de Cidade pela lei N. 761, de 9 de setembro de 1875. Ainda na resolução que criou o Districto de Paz vê-se que existia a Ilha de Manoel Gonçalves cujo território é citado”.

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