Salina para o seu Antonio

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Foto E. Vale, década 50, pequenas pirâmides de sal no istmo, arquivo: Professora Anaíde Dantas

Foto E. Vale, década 50, pequenas pirâmides de sal no istmo, arquivo: Professora Anaíde Dantas

Era pegar ou largar. Ele, desempregado e quase passando fome,  pegou. Mulher e filha para dar de comer e a pesca que não estava rendendo nada.  Carteira registrada e salário mínimo e nada de falar em horas noturnas, trabalho periculoso ou insalubre. Que não falasse nisso!  A jornada começava às 18 horas e ia até às 6 da manhã. Se dormisse, a bomba a diesel poderia queimar. Se dormisse a bomba poderia parar de bombear. E a água do mar não iria para o balde produzir o sal. E ele seria demitido e o nome passado para todos os salineiros. Ele que não dormisse! E se chovesse que desse o seu jeito. O último fez uma pequena “latada” de palhas de coqueiros num dos cantos da salina de onde ele ouvia o motor. Era preciso ouvir o motor. Tum, tum, tum, tum, racatum! Era assim.  Se ouvisse diferente alguma coisa estava errada. Ao ouvir o barulho diferente que fosse lá e olhasse o óleo, a pressão, o escambau e que o motor não parasse.  Era tudo a descoberto, principalmente ele, seu Antonio.

Topou e nem haveria como não topar. Fez a latadinha de palhas de coqueiros e depois nas noites seguidas além do  tum,  tum,  tum,  tum, racatum, e o vento frio misturava-se aos  gemidos das almas penadas pelos aterros. Em noites de luas os fantasmas eram muitos, em noites escuras, diminuíam, mas eram muitas as almas penadas. Parecia que os tapuias todinhos estavam ali naquela salina. Desde os 1500 eles foram assassinados, pelos portugueses, franceses, holandeses, espanhóis, ingleses e brasileiros. E agora, ele mesmo, seu Antonio, de bisavô Tapuia, legítimo, estava sendo assassinado ao som do tum, tum, tum, tum, racatum.

De Claudio Guerra para o baú de Macau.