Pedagogia do Relacionamento, Professor Izan Lucena

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“Pátria educadora” – Do colaborador deste site o Professor Izan Lucena recebemos  interessante reflexão sobre o ensino e a aprendizagem.

Pedagogia do Relacionamento

1950, GE Duque de Caxias, Arquivo Anaide Dantas

1950, GE Duque de Caxias, Arquivo Anaide Dantas

Nós sabemos por que as crianças não aprendem. Se você é professor. Nada é tão petulante e enganoso quanto dizer que “os alunos não aprendem” como está na moda atualmente. Professores chegam ao ponto de transcrever erros de provas dos alunos para a internet com a finalidade de espalhar essa falácia. Além de falsa, é uma atitude cruel, pois ninguém tem o direito de impor humilhação a quem quer que sejam ainda mais partindo de supostos “educadores”. Afirmo que ninguém está sabendo o que significa aprender. Primeiramente, é preciso responder a uma pergunta: “Aprender o quê?” Obviamente, os professores responderão que aprender é ler livros e escrever no caderno, pois é só isso o que conta e é valorizado na escola. Não importa que a criança leia o mundo à sua volta ou que ela escreva bilhetes cheios de emoção para as pessoas de quem gosta inclusive a professora. Interessa que ela não aprendeu o que os professores (ou o sistema) querem que ela aprenda.

E quando não aprendem vem com outra mentira e dizem “É por causa da pobreza, baixa frequência, influências negativas”. E nós sabemos por quê. Mas uma das coisas que nunca discutimos ou raramente discutimos é o valor e a importância do contato pessoal, relacionamentos. Adélia Prado diz que nenhum aprendizado significativo acontece sem um relacionamento significativo. Mário Prata diz que todo o aprendizado é entender os relacionamentos. Todos que estão nesta sala foram afetados por um professor ou um adulto. Por muitos anos, eu observei pessoas ensinando. Eu vi os melhores e vi alguns dos piores. Uma colega me disse, certa vez, “Eles não me pagam para gostar das crianças”. Pagam-me para ensinar a lição. As crianças devem aprender. Eu devo ensinar. Eles precisam aprender. Caso encerrado. Bem, eu disse para ela, “sabe, crianças não aprendem com pessoas de que elas não gostam”. Ela disse, “isso é um monte de besteira”. E eu disse para ela, “bom, seu ano vai ser longo e árduo, querida”. E obviamente foi. Algumas pessoas pensam que você ou tem o dom de construir um relacionamento ou você não tem. Eu acho que Paulo Freire teve uma ideia certa. Ele disse que você precisa apostar em poucas coisas simples, como buscar entender primeiro, contrário de querer ser entendido. Coisas simples como pedir desculpas. Já pensaram nisto? Peça desculpa a uma criança e ela fica em choque. Uma vez eu fui ensinar uma matéria sobre proporções. Eu não sou muito bom com matemática, mas eu estava praticando. E eu pesquisei numa edição para professores. Eu tinha ensinado toda a matéria errada. Então eu voltei para a aula no outro dia e disse, “vejam, crianças, eu preciso pedir desculpas”. Eu ensinei toda matéria errada. Sinto muito”. Eles disseram, “Tudo bem, Sr. Izan. “Você estava tão animado, nós só o deixamos continuar”.

Sempre observei nas escolas públicas em que trabalhei o quanto as crianças são fantásticas para aprender letras de música da atualidade. Eu promovia “show de calouros” com os alunos e me deliciava com os talentos diversificados que se apresentavam enchendo de alegria e criatividade os palcos improvisados. Crianças pequenas, que nem ainda são alfabetizadas, memorizam letras imensas de músicas com temas de seu interesse, ou mesmo até não condizentes com suas idades, como as músicas sertanejas. Como não aprendem?

E essas mesmas crianças, com uma incrível capacidade de assimilação, são mais tarde, consideradas “um fracasso” nas fatídicas avaliações escolares, que mereciam mais o nome de “pegadinhas”, ou de “jararaca”, como bem denominou o escritor Chico Guill no seu esplêndido artigo “A pedagogia do absurdo”.

Eu tive turmas que eram tão lentas, com tantas deficiências acadêmicas que foi duro. Eu imaginava como eu vou levar esse grupo em nove meses de onde eles estão até eles precisam estar? E era difícil. Era terrivelmente difícil. Como eu aumento a autoestima de uma criança e seu desempenho acadêmico ao mesmo tempo? Em um dos anos elaborei uma ideia brilhante. Eu disse para todos os meus alunos, “Vocês foram escolhidos para estar na minha sala porque eu sou o melhor professor e vocês são os melhores alunos, eles nos colocaram juntos para que a gente mostre para todos os outros como se faz”. Um dos alunos disse “Sério”. Eu disse “Sério”. Precisamos mostrar para as outras turmas como se faz, então quando andarmos pelo corredor, as pessoas vão nos notar, vocês precisam ficar quietos. Só precisam se exibir. E eu dei-lhes um discurso que dizia: “Eu sou alguém. Eu era alguém quando entrei aqui. Eu vou ser uma pessoa melhor quando eu sair. Eu sou poderoso e eu sou forte. Eu mereço a educação que eu recebo aqui. Eu tenho coisas para fazer, pessoas para impressionar e lugares para ir”. E eles disseram, “É!”. Você diz isso por um bom tempo, que começa a ser parte de você. E então, eu passei um questionário, 20 questões. Um aluno errou 18. Eu coloquei um “+2” no trabalho e um grande sorriso. Ele disse, “Professor, isso é um zero?” Eu disse, “Sim”. Ele disse, “Então, por que você colocou uma carinha feliz?”. Eu disse, “Por que você está progredindo. Você acertou duas. Você não errou todas elas”. Eu disse, “E quando nós revisarmos isso, você não fará melhor?” Ele disse, “Sim, professor, eu posso melhorar”. Veja “-18” tira toda à vida de você. “+2” dizem, “Não é tão ruim assim”.

As crianças sabem e muito. É uma pena que os professores não sabem disso. Ou não querem saber. É uma pena que as escolas estejam tão distantes da vida real, e com isso, condenando os alunos à sensação de fracasso, que vai, indubitavelmente, empurrá-los para a evasão escolar e consequente exclusão na sociedade, já que o êxito escolar é o nosso rito de passagem da atualidade.

As crianças também ensinam, são excelentes professores. Sou grato aos meus alunos pelo tanto que aprendi com eles. Não a ler e a escrever, porque isso eu aprendi fácil por viver numa época em que não havia televisão, videogames, computador, e ler era uma distração, um prazer. Não éramos obrigados a ler para depois responder as perguntas estapafúrdias que a escola impõe hoje aos alunos. Então, líamos soltos, por gosto, sem estar preocupados com as arapucas das provas para pegar o que “não sabemos” do que lemos.

Izan Lucena (izanlucena@uol.com.br)