Religiosidade e fé na Macau dos sessenta: uma crônica de Nair Damasceno

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Mais uma vez transferindo quinquilharias do meu baú para o baú de Macau, dessa vez acompanhadas de joias verdadeiras que são os melhores votos de um ano promissor a toda a equipe do baú de Macau.

 Em busca das borboletas

 

Igreja Católica em Macau [RN], 2001

Igreja Católica em Macau [RN], 2001

Nunca encontrei em minha vida momento de tamanha beleza e grandiosidade como as missas solenes na Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Macau no início da década de 1960. Meio século se passou, mas esses momentos ficaram registrados na minha mente como se fossem uma tatuagem permanente na minha alma e eu as reverencio como algo sagrado.

As Missas solenes aconteciam nos domingos de páscoa e no dia de NS dos Navegantes principalmente. (considero a igreja da Nossa Senhora da Conceição uma das mais bonitas que eu já vivi). O altar repleto de flores (com pouco mais de dez anos eu me perguntava de onde vinham flores naquela cidade seca e poeirenta); homens, mulheres e crianças, todos elegantemente vestidos transformavam os acessos à igreja numa verdadeira passarela de desfile de modas de fazer inveja aos melhores estilistas dos dias de hoje. Os sinos anunciavam o momento esperado por todos: o início da missa. A esquerda do altar, nos primeiros bancos, a Cruzada Infantil e logo após senhoras com fitas de cores e medalhas da sua congregação com seus rostos cheios de fé e devoção. No pequeno coro situado na parte posterior da igreja e em frente ao altar principal ficavam os alunos do canto orfeão do Ginásio Nossa Senhora da Conceição que após cansativos ensaios na quadra do Ginásio com os padres Penha e Zé Luiz acompanhavam em latim toda a liturgia. Os escoteiros em suas roupas de gala completavam o cenário.

Altar da Igreja católica de Macau[RN]. Década 1950

Altar da Igreja católica de Macau[RN]. Década 1950

Alguns sacristãos ajudavam a missa: eu lembro claramente de um chamado “Bosco”. Quando o carrilhão era acionado tínhamos a certeza que naquele momento supra sagrado todos os deuses, santos e anjos se faziam presentes ao altar e todos os nossos pecados eram perdoados. Quando a missa terminava a saudação dos foguetões e girândolas completavam aquele “momentum”.

Meio século é passado e o tempo se encarregou de transformar o casulo em borboleta sem dar importância à sua vida efêmera.

Hoje eu procuro sequiosamente pessoas com lembranças daquela época, então vasculho o meu baú e transfiro as minhas doces lembranças para o baú de Macau.

 

Nair Damasceno [ndapaiva@yahoo.com.br]