É como se mata cachorro!

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[Trecho do romance Marinheiro só de Claudio Guerra sobre o massacre da Chácara São Bento em Recife quando assassinaram vários militantes da VPR, a Vanguarda Popular Revolucionária, organização de resistencia contra a ditadura de 1964/1985].

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O marinheiro José Manoel na Europa, 1961

O marinheiro José Manoel na Europa, 1961

Olhava com pavor para os homens que conversavam com Fleury na porta da casa.  César e Anselmo, outrora companheiros de sonhos, de utopias. Um olhar de pavor ao pensar o que poderia acontecer com os outros companheiros, com sua família, sua companheira sempre tão amiga e fiel e com os filhos pequenos, indefesos.

César se aproximou de José Manoel que estava caído há poucos metros da casinha de chão batido, jogado que fora por cima de uns arbustos pontiagudos e espinhentos. José Manoel olhou mais uma vez para aquele companheiro sempre sorridente e brincalhão, sempre pronto para agir qual fosse o problema e não podia acreditar que tudo aquilo era verdade. Então, Anselmo e César eram os traidores. Geni tinha razão. Só ele não acreditara. E até Onofre ficara com uma ponta de desconfiança sobre as atitudes de Anselmo. Só ele nunca desconfiou de nada.

Sem falar muito alto, Fleury determinou:

–– É melhor acabar logo com isso!

Um policial bem jovem, com um cavanhaque cerrado e bem negro, jogou o cigarro que havia acabado de acender e pisou uma, duas vezes e olhou se estava apagado. Depois, aproximou-se de José Manoel apontando a arma. José Manoel conseguira  deslocar o corpo, de forma a tirar o braço de cima de uma ponta do arbusto roçado que lhe provocara mais um ferimento. Estirado ali, com as mãos e os pés amarrados não tinha mais forças nem para mexer o rosto. Foi a expressão que ficou, de pavor. O policial titubeou e voltou-se, olhando para o outro lado. Isso não passou despercebido por César que aproximou-se mais, apontou sua arma para José Manoel e disse:

–– Olha, é assim! É como se mata cachorro! E sorriu. Sem arrependimentos. E lembrou-se dele menino e o tio que lhe colocara a arma na mão para atirar no cachorro que adoecera e seria sacrificado. O animal, imobilizado e olhando para ele com comiseração e o tio ordenando: “Atire! Atire! Seja homem! Atire!” E ele criança, a arma pesando na mão, o animal que lhe fora fiel durante muito tempo agora com aquele olhar compadecido, inerme.

–– Não seja frouxo! Atire! Veio mais uma vez a ordem. Aí foi um, dois, três,… seis tiros, um em cada lugar para ficar bem morto. Aí, César fitou o policial que tremia, virou-se e deu mais um tiro. Sete ao todo, foi o que os peritos do IML de Pernambuco relataram no laudo do cadáver de José Manoel.