Um rio, crônica de Vicente Serejo

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[Publicado originalmente Caderno Cidade, Coluna Cena Urbana, O Jornal de Hoje, página 13, 27 de janeiro de 2015, Terça-feira]

 

 

Manguezais em Macau, década 1980. Foto: Claudio Guerra

Manguezais em Macau, década 1980. Foto: Claudio Guerra

Foi preciso, Senhor Redator, que chegasse a esta tela a notícia de uma ação civil, movida pelo Ministério Público Federal, requerendo a devolução de uma área hoje ocupada por uma salina de nome Soledade para que este macauense, tão cônscio das suas raízes, descobrisse que corre no seu mundo mais antigo um rio de nome Corta Cachorro. A idéia é a recuperação ambiental daquele lugar com o replantio dos manguezais que é hoje considerado vegetação nativa indispensável ao ambiente.

Não discuto a questão jurídica. Nem tenho, sequer, como fazê-lo, tal é a incúria deste cronista no mister da ciência ambiental. Mas, o espanto foi descobrir tantos anos depois, que ali corre um rio com o nome de Corta Cachorro. Defendo a preservação dos topônimos nascidos por força da tradição oral e dos costumes, seguidor que sou da velha lição de Câmara Cascudo: o bom respeito aos nomes velhos para coisas velhas e novos para coisas novas, garantindo-se a contemporaneidade do milênio.

Quem sou eu, pois, para duvidar do Rio Corta Cachorro, mesmo sendo um leitor interessado nos velhos alfarrábios e cartapácios, como se dizia antigamente. Muito menos por em dúvida a razão de relatórios que apontam a destruição dos mangues. Carrego comigo até hoje aqueles verdes antigos que faziam a moldura dos meus territórios da infância no seu silêncio onde pousavam os bandos de gaivotas, quando a vida não precisava ferir a paisagem com a tromba de máquinas e escavadeiras.

Aquela Macau do menino era calma e boa, como no verso de Edinor Avelino, o maior poeta da minha terra. Quando deixei aquele mundo, há 55 anos, na boleia do misto de Chico de Gustavo, hoje Empresa Cabral, era como se fosse, de tão calma, uma manhã parnasiana. Ali, margeando a Rua da Frente, porque de frente para o rio, saí convencido de que passavam a caminho do mar as últimas águas do Rio Açu que naquela época – ainda bem –  era escrito sem os dois esses, como se usa hoje.

Também trouxe na memória afetiva dessa geografia que faz parte da história da vida, as águas do Rio Amargoso que se desviavam na direção de Alagamar. Rio humilde, sem glória e sem luxo ou riqueza, coleando as barreiras como uma cobra. Nada mais. E, no entanto, vejo agora, havia outro rio, pras bandas do Açu e que se chamava Corta Cachorro, sem que a petição explique, nem é da sua obrigação fazê-lo, como parece, a origem desse nome que hoje se torna famoso numa causa federal.

Tomara que tudo se resolva. Que a Salina Soledade, se a Justiça assim entender, devolva às águas os quase nove hectares que a petição reclama como sendo uma área de preservação rigorosa e patrimônio da União. Ou, se tiver razão, que mesmo assim não mate os mangues em nome de um verde que naquele mundo é tão escasso. Vou pedir a ajuda do pesquisador João Felipe da Trindade, sesmeiro daquelas terras velhas de lá. Ora, quem sabe, ele conhece a história do rio Corta Cachorro.