Guamaré e o petróleo: péssima propaganda e péssimo jornalismo

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Guamaré, 1982, quando Astarote ainda não havia subido com as águas da profundeza. Foto: Claudio Guerra

Guamaré, 1982, quando Astarote ainda não havia subido com as águas da profundeza. Foto: Claudio Guerra

Um jornal de Natal publicou nesta sexta-feira, 30 de janeiro de 2015 matéria sobre a cidade de Guamaré, polo da produção petrolífera potiguar e situada “desde tempos imemoriais” na região salineira, mesmo que o jornal tenha insistido em situá-la no Alto Oeste Potiguar. Penso que mais uma vez, a água das profundezas, o petróleo, veio à tona com seu cheiro nauseabundo trazendo Astarote o tesoureiro do inferno, disposto a tudo.

A chamada de capa do jornal traz a manchete  “Guamaré se torna referência em cirurgias de alta complexidade”, mas inexplicavelmente o complemento da manchete fala sobre dessalinizadores.  Em meia página, metade com fotografias, sem esclarecer nada sobre o assunto que gerou a manchete o que restou foram coisas para o futuro, como “em breve”, “será”, “ devem receber”, “deve começar em breve” e “deve ser postos em prática nos próximos meses”, “as próximas obras”.  Há somente uma afirmação e uma promessa “Temos um caixa com cerca de R$30 milhões para serviços de melhorias da qualidade de vida da população”.

Depois de ler a matéria conclui que não se tratava de matéria do bom jornalismo, daquele que ainda é ensinado nas universidades. Era propaganda, aliás, péssima propaganda, agora que se aproxima o carnaval, quando a Prefeitura de Guamaré tradicionalmente gasta boa parte do dinheiro do povo na contratação de bandas musicais pagas com altos cachês e suspeita de superfaturamento.  O problema é recorrente nas prefeituras da região salineira – grandes festas, altíssimos cachês e suspeita de superfaturamento.

Sobre a pretensa referencia do município no atendimento de alta complexidade não encontrei  e  —  posso até não ter pesquisado direito – a data e o número da portaria da Coordenação Geral de Média e Alta Complexidade  que autorizou o hospital de Guamaré a tão importante e nobre missão na Região Salineira, uma vez que a responsabilidade pela avaliação técnica de habilitação em serviços de Alta Complexidade e o monitoramento e avaliação das unidades já habilitadas é da CGMAC.

Do tema na http://www.fns.saude.gov.br/visao/consultarPagamento/pesquisaSimplificada.jsf encontrei o valor transferido pelo Ministério da Saúde para Guamaré em 2014 no montante de R$3.587.796,10 com um valor de R$552.000,00 para a requalificação de UBS – verba para construção no valor de R$552.000,00.

Observando os municípios que recebem os royalties do petróleo concluí que se houvesse a boa aplicação dos mesmos a qualidade de vida da população aumentaria muito. Só em 2014, Guamaré com 14.282 habitantes recebeu do Governo Federal R$54.707.637,12 e Caicó – que não tem royalties do petróleo — com 62.709 habitantes recebeu no mesmo ano o valor de R$58.467.972,16

Sobre o assunto agregado na matéria da alta complexidade – a dessalinização da água, a  imagem que ainda está na minha retina é a das filas de latas nas ruas de Baixa do Meio. Foi lá que vi desolado há pouco tempo, latas, calões e roladeiras num município que recebia milhões de royalties do petróleo.

Conheço a região de Guamaré desde os oitenta, uma região bela, de povo trabalhador, amigo e hospitaleiro e que merecia administrações públicas que proporcionassem vida com dignidade para todos.

Para saber mais acesse: http://www.guiadedireitos.org/downloads/guia_direito_saude.pdf

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/acesso-a-informacao

Claudio Guerra para o baú de Macau