Do Rio Corta- Cachorro

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Publicado originalmente no  Jornal de Hoje 31 de janeiro e 1 de fevereiro 2015,  número  5151, Caderno Cidade,  coluna Cena Urbana,  página 13,  sábado e domingo.

Do Rio Corta-Cachorro

Vicente Serejo

Mapa do Litoral de Macau [RN] Pesquisa e desenho de Getulio Moura

Mapa do Litoral de Macau [RN] Pesquisa e desenho de Getulio Moura

Agora posso dizer como o poeta Manoel Bandeira – perdoem a vaidade da comparação – com os nomes de rua do seu Recife antigo, aquele perfumado pelo cheiro das pitangas e dos jenipapos nos quintais da infância: como eram bonitos os nomes dos pequenos rios da minha infância. Não eram nobres e para reencontrá-los foi preciso ter a notícia de uma denúncia federal exigindo que a salina de nome Soledade devolvesse ao mangue quase nove hectares que hoje estaria ocupando indevidamente.

Não pretendi entrar na discussão, Senhor Redator, afinal a mim faltam todos os atributos dos homens da lei. É que os olhos da curiosidade agarraram-se a Macau, minha terra, e a palavra estava escrita ali, logo no início. Ao descrever a área litigiosa, isto é da linguagem jurídica, e principalmente localizá-la, o texto dizia que a faixa de mangue ficava às margens do Rio Corte-Cachorro, nem no mangue. E que assim sendo, e como se trata de área de preservação natural, não é permitido ocupá-la.

Gritei pelo professor João Felipe Trindade, sesmeiro das terras de lá, com posse e domínio de toda sua história duas vezes secular. Do que tinha anotado nos seus alfarrábios, nascidos ainda à luz das lamparinas, viu que era preciso confirmar com outro pesquisador, Getúlio Moura, homem muito mais jovem e disposto do que nós, excelente documentador daquele mundo. Ninguém como ele, Senhor Redator, conhece seu chão ancestral, fotografou rios e gamboas, suas águas antigas e novas.

Por isso, vaidoso da geografia da minha terra, recebo e retribuo o abraço de Getúlio Moura que veio no seu bilhete, como os botes que chegavam às margens do meio rio antigo. E agora sei que o Rio Corta-Cachorro existe, consagrado pela tradição da oralidade que nada inventa sem buscar na boca do povo uma boa razão para existir. O Rio Corta-Cachorro, na verdade, muda de nome, depois de ser Madeira e Casqueira, e a explicação está no bilhete de Getúlio, portador honesto e ligeiro da história que, de tão humilde hoje e sempre, andava esquecida como um velho mapa pregado na alma:

‘Olá, meu caro João Felipe,

Seguem em anexo duas imagens do litoral macauense, uma sem e outra com as nomenclaturas dos rios, para melhor visualizar/localizar.

Conta a história oral, houve várias ocorrências de cães que entraram no rio e foram atacados, cortados ao meio por tubarões; alguns homens em pequenos barcos resolviam atravessar o rio com seus cachorros nadando. O antigo rio Madeira ganhou mais este nome, rio Corta-cachorro, disseram os velhos pescadores da região, por causa destas ocorrências do “tubarão corta-cachorro”.  É o mesmo rio Arrombado ou Casqueira.

Abraços para/você e Vicente Serejo!’.