Bruno Menescal

0
Foto E. Vale, 1940, barcaças de sal e o vapor Tibagi da CCN, do livro: A indústria do sal... de Dioclécio D. Duarte

Foto E. Vale, 1940, barcaças de sal e o vapor Tibagi da CCN, do livro: A indústria do sal… de Dioclécio D. Duarte

Obra: O gosto salgado do vento; Autor: Bruno Menescal. Razão Cultural Editora, 2000, Rio de Janeiro, ISBN: 85-7489-014-6
O autor Bruno Menescal , nascido em 1929 é irmão do cantor e compositor Roberto Menescal e morou em Macau entre os anos  trinta  e quarenta dos novecentos e como muitos que viveram em Macau colocou em livro as reminiscências da sua vida na região. Assim é Macau de grande inspiração para os que a conhecem.

Seu pai, o engenheiro Francisco Menescal , foi considerado por Dioclécio Duarte – autor de um livro importante sobre o sal – como “um dos maiores conhecedores da indústria salineira”, e pelo ex-deputado Floriano Bezerra como “pessoa recatada, fina no trato com as pessoas” — veio como superintendente da Companhia Comercio e Navegação  para organizar a produção do sal em bases mais técnicas, em busca de maior produtividade e qualidade do produto para um mercado que se mostrava promissor em razão da guerra que praticamente interrompeu o comércio internacional e a produção industrial na Europa e parte da Ásia.O gosto salgado do vento Bruno Menescal

A história romanceada e de boa escrita, traz  o  ponto de vista de um membro da classe proprietária e a partir do capítulo 7 descreve a Macau dos quarenta com detalhes preciosos de um observador que  soube captar  o desenrolar da vida no mar, no rio e na terra macauense.

De Claudio Guerra para o baú de Macau

 

Lamarão e a Macau dos quarenta

Passados quatorze dias de viagem o vapor fundeara bem cedo do local denominado Lamarão, depois de navegar por toda a tarde e noite anteriores vindo de Natal e infletindo a rota ao passar o Cabo de São Roque para o rumo próximo a leste-oeste. Aquele ancoradouro, se é que assim podia se chamar, já que não se apresentava qualquer enseada, mas tão somente alto-mar, era o ponto distante da costa cerca de oito quilômetros e a maior aproximação possível de Macau, sem risco de encalhe. Ali, devido à intensidade do vento aberto nordeste o mar era bastante batido e portanto encapelado por ondas às vezes de dois metros de alto. O navio arfava lentamente, porém as embarcações menores que o atingiam sofriam as dificuldades naturais para transbordo de bagagem e dos passageiros que careciam de bastante coragem para transpor a escada do portaló para o tombadilho e vice-versa.

Fernando, não habituado com o sistema, foi instruído pelo comandante Solano a entrar em um balde grande de ferro denominado tina, no qual cabiam dois adultos. Pendurado nos paus de carga do navio, servia para proceder ao transbordo do sal lá produzido, das embarcações denominadas barcaças ou chatas, aquelas a vela e lembrando as pequenas caravelas, para o navio que traria a carga para os mercados do Sul. Momento angustiante era aquele em que o operador do guincho necessitava ser preciso para baixar a tina, coincidindo com o momento  em que o mar jogava o tombadilho da lancha por baixo e em posição favorável e área suficientemente desimpedida. O mínimo que podia acontecer de pior seria uma eventual imersão no mar alto, com risco de ser esmagado entre os dois costados. A perícia do operador, já antes prático no assunto, depôs Fernando na parte traseira da lancha Liberdade, que baloiçava enormemente, Fernando fazia enorme esforço e par não deixar transparecer o vexame de se encontrar mareado a ponto de quase vomitar, o que não seria e um inicio adequado à postura que teria de assumir de pronto. Pior, era observado por todos, ainda que com respeito e submissão. Lembrava que ainda que surpreendera todos que esperavam um senhor e não um homem de apenas trinta e um anos, conquanto com o título de doutor tanto mais que já o diziam substituto do coronel Teixeira, avançado em anos e com sua eficiência tremendamente reduzida.

Barcaças e tinas no Lamarão de Macau

Barcaças e tinas no Lamarão de Macau

Como prova de atenção , o mestre Amaro da lancha convidou-o a entrar no portaló abrigado e evitar chegar encharcado pelos borrifos. A viagem até o cais durou cerca de cinquenta minutos intermináveis e em silêncio, pois Fernando além de preocupado em estabilizar o próprio estomago, totalmente embrulhado achava também não recomendável qualquer tipo de intimidade. A lancha era uma construção de madeira com caldeira a vapor, própria para aquele mar encapelado e apta a rebocar até três embarcações de transporte de sal até o navio e trazê-las  de volta quando a falta de vento para sua velas.

Finalmente, entraram pela barra do Rio Açu, com sua águas de coloração própria, barrenta, meio acinzentada na vazante, de vez que na enchente recebia água límpida do mar, fato que ocorria duas vezes por dia. Navegando agora de forma mansa embora com grande correnteza, via desfilando na sua frente a cidade, sua futura sede, sabe-se lá por quanto tempo. A decepção foi enorme. Sentia-se pobreza e desleixo por toda parte. Instalações pobres e mal conservadas, a maioria de muito mau gosto. Impressionava-o a horizontalidade daquela região toda. Variações de terá acima de seis metros do nível do mar eram raríssimas. A única sensação de desnível era dada por ocasião das baixas marés, uma vez que os diferenciais de marés, as chamadas preamares de sizígia, chegavam a atingir mais de três metros. Alterações de altitude acima de seis metros sua vista não conseguia alcançar, pois seriam tomadas por montanhas naquela planura toda, Desconfortante pensar que um ligeiro aumento dos mares levaria a inundar uma extensa área.

Finalmente aportaram no cais, propriedade da companhia, na margem do rio Açu, onde se recolhiam cerca de trinta ou mais barcaças ou chatas, rebocadores, lanchas, além de incontáveis barcos de menor porte. A ideia  imediata era de como que um retorno ao passado remoto tal qual a era das caravelas de flibusteiros. Outras construções apareciam, como estaleiros, dique, carreira, oficinas de carpintaria naval, de mecânica, almoxarifado e outras mais, como algumas residências de graduados, o escritório sede, o prédio da cooperativa de consumo desativada e, finalmente, sobressaindo de todos eles, o casarão imponente, tipo sobrado altaneiro, antigo porém solido de dois pavimentos, cada qual como imenso pé-direito de quatro metros e meio. Ali era a sede e residência oficial, tendo ao lado o escritório  geral.

A impressão melhorou um pouco diante do conjunto e mais especialmente com relação e  esses dois últimos.

Havia chegado ao destino. Restava saber o que este lhe reservava.

O gosto Salgado do vento – Bruno Menescal –  Capítulo 7, Páginas 45 e 46