Uma bela crônica para cidades irmãs: Macau e Areia Branca

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Vem de Areia Branca a bela crônica do escritor Francisco Rodrigues da Costa destacando as coisas comuns entre estas cidades separadas por rios e serra, mas ligadas pelo Atlântico e pelos trabalhadores do sal e do mar. O texto, além das observações históricas importantes das embarcações e empresas que compunham o cenário do  período de 1930 a 1970, tem a característica de boa memória e verve sarcástica do escritor areia-branquense.

De Claudio Guerra para o baú de Macau

 

Macau e Areia Branca

Francisco Rodrigues da Costa (*)

E. Valle, Macau na década 1950,

E. Valle, Macau na década 1950,

Cidades litorâneas com as mesmas características econômicas; cidades irmãs onde havia entrelaçamentos familiares e, principalmente, a cooperação entre suas tarefas portuárias; cidades com o mesmo problema: a dragagem dos seus rios para os navios entrarem na barra, e ali receberem suas cargas.

Se uma possuía salinas a outra não ficava atrás; se uma tinha quase setenta barcaças no seu tráfego, a outra empatava; se uma precisava da mão de obra dos operários em salinas, dos barcaceiros, dos estivadores e dos conferentes de sal para movimentar a sua economia, a outra não dispensava tais necessidades.

Companhia Comércio e Navegação, empresa armadora e proprietária de diversas salinas e de considerável frota de navios, tanto Macau quanto Areia Branca tinha uma filial dessa poderosa empresa.

Se, em Macau, era a firma Henrique Lage, em Areia Branca era a Cia Nacional de Navegação Costeira que, além dos cargueiros Campeiro, Campinas e Aragano, ambas agenciavam os “itas” Itanagé, Itambé, Itaité, Itaimbé navios de passageiros. Aí Macau levava uma ligeira vantagem: dispunha da lancha Liberdade, o que à Costeira faltava. Em compensação Areia Branca via amerissar no seu rio aviões da Pan-Air do Brasil e da Condor.

Macau tinha boas barcaças de bordejo: Mabel e a Tainha, pertencentes à CCN. Areia Branca tinha a Unidos dessa mesma empresa, além da Casqueira de F. Souto e a Satuba de Antônio Calazans.

Nos festejos de Momo as duas cidades se rivalizavam: cada uma querendo que o seu carnaval abafasse em animação o da outra. Não era para menos, em ambas as cidades o dinheiro corria frouxo. Cidades eminentemente operárias, onde quase não existia o desemprego. Diziam até, que em Macau alguns operários se exibiam acendendo charutos sob o fogo feito em cédula de cem cruzeiros. Nisso o macauense ganhava para o areia-branquense, pois o filho de Areia Branca estava aceso para não cometer tal besteira.

Nas mensagens telegráficas taxadas nas agências dos Correios e Telégrafos das duas cidades, por volta dos anos quarenta, registrava-se um impressionante pau-a-pau: cada repartição emitia e recebia cerca de mil telegramas mensais.

Antonio Vale, decada 1950, Tirol, Areia Branca. In costabrancanews.blogspot.com

Antonio Vale, decada 1950, Tirol, Areia Branca. In costabrancanews.blogspot.com

Certa vez, conferindo sal a bordo de um navio, ouvi de um tripulante: “o Rio Grande do Norte tem o porto de Natal, e luta por mais dois portos, o de Areia Branca e o de Macau, enquanto  o estado de São Paulo tem um só”. Crítica dura, cheia de razão.

Mas, em meio a essa estatística de tantas coincidências, havia lugar para o humor. Osvaldo Vasconcelos, agente marítimo em Areia Branca, gostava de uma piadinha. Militante do PSD, era liderado pelo deputado mossoroense Mota Neto. Quando da morte do senador João Câmara, fingindo não entender nada da política, Vasconcelos perguntou ao líder: “é para achar bom ou para achar ruim”? Motinha não perdeu a oportunidade para dar uma gostosa gargalhada.

Pois bem. Os macauenses se orgulhavam da bonita obra que a cidade ganhara recentemente: o mercado do peixe. Um prédio caprichosamente construído, onde sobressaía a limpeza. Paredes e bancadas revestidas de azulejo, quase impedindo que o odor natural do pescado fosse sentido pela freguesia.

Um dia, em viagem de negócio, Osvaldo Vasconcelos vai a Macau. Desembarcando no cais da cidade, logo um chapeado se oferece para conduzir a bagagem do visitante. Perguntou ao visitante para onde levaria suas malas. Este, não se fez de rogado: “Para o mercado do Peixe”.

(*) Francisco Rodrigues da Costa é areia-branquense. Contista e romancista é  autor de Caminhos de Recordações e Perdão entres outros livros.

Para saber mais sobre o autor, acesse: http://www.obaudemacau.com/?page_id=4048