Chico Guilherme e a luta dos trabalhadores do sal

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Autor nao ident 1 1940 colheita de sal arq Benito Barros Macau RN“Chico Guilherme nos deixa um grande exemplo de coerência política e dignidade humana, o que cada vez mais, se torna raro nos dias atuais”.              José Edilson A. G. Segundo

Em boa hora o escritor José Edilson A. G. Segundo dedicou no seu livro Nas Trilhas do meu avô, lançado recentemente pela editora mossoroense Sarau de Letras interessante texto sobre Chico Guilherme. Figura importante no movimento sindical do Rio Grande do Norte foi também citado na obra Minhas Tamataranas: linhas amarelas – memórias, do ex-Deputado Floriano Bezerra que dedicou um capítulo [páginas 193 e 194 – STI da Extração do sal, de Macau/STI da extração do sal do NR – Macau, 1952]  ao contato das lideranças dos trabalhadores salineiros de Macau e Mossoró/Areia Branca,  com vistas à luta comum. Apesar das diferenças políticas — influência política dos comunistas em Mossoró e Areia Branca e do trabalhismo varguista em Macau — foi possível construir a unidade para a luta sindical com a participação importante de Chico Guilherme.

Chico Guilherme: referência no sindicalismo local

Página 49 da obra Nas trilhas de meu avô, de José Edilson A. G. Segundo, Sarau de Letras Editora Ltda., Mossoró (RN), 2015

Francisco Guilherme de Souza nasceu em 19 de outubro de 1910, filho primogênito de pobres agricultores, Ricardo Guilherme de Ima e Maria  Francisca de Souza; logo cedo, aos 12 anos começou sua labuta, como carregador de água. Em 1926, com apenas 16 anos, passa a integrar a grande massa de trabalhadores das salinas, trabalho que, naquela região representava o único caminho a seguir. Iniciava-se para Chico Guilherme, como ficaria popularmente conhecido, um mundo de afazeres extremamente insalubre e desigual, com enormes dificuldades, sem direitos trabalhista, sem tratamento e alimentação devidos. De 1928 a 1929, divida suas atividades entres as salinas e agricultura.

Em 1932, casa-se com Francisca Clara de Souza, mulher forte e companheira. Com ela teve 16 filhos, dos quais 8 não sobreviveram às precárias condições quem que viviam. Francisca Clara e outras mulheres como Policárpia e Anita (companheira de Joel Paulista) fundaram a Associação das Mulheres Trabalhadoras de Mossoró, tendo importante papel nas articulações, principalmente nos períodos de greves, em defesa de seus direitos.

A origem da luta dos trabalhadores do sal está associada à criação, em 1910, da Liga Operária, uma sociedade beneficente, que tentava defender interesses de diferentes categorias de trabalhadores de Mossoró. Desse modo, tornava-se indispensável a criação de uma entidade que pudesse assegurar os direitos a esses operários, verdadeiros guerreiros, em virtude das precárias condições de trabalhador, a que eram submetidos.

Há um fato que Chico Guilherme descreveu e que permaneceu em sua memória como expressão da indignação na qual vivia. Havia os feitores, de confiança do patrão, que vigiavam aqueles que trabalhavam incansavelmente, ele costumava e dizer que lhes causava nojo o fato de que seus cavalos bebessem água no mesmo tonel em que os operários saciavam sua sede.

Esta é uma pequena amostra do trabalho insalubre e humilhante dos trabalhadores das salinas naquela época.

Nesse sentido, o contato dos trabalhadores citados com o Partido Comunista do Brasil representou um grande incentivo para suas reivindicações, Na cidade de Mossoró, o Partido Comunista foi fundado em 1928, pelos irmãos Reginaldo (Raimundo, Lauro, Jonas e Manoel) integrantes de umas das mais antigas famílias mossoroenses, a Família Camboa.

Após a organização e a fundação do referido partido, iniciou-se a aglutinação dos operários, tendo como atuação prioritária a formação dos sindicatos. E, foi assim que, em 1931, Chico Guilherme entra no Partido Comunista, fato que marcou toda sua trajetória de vida, de luta por um ideal. Neste mesmo ano, é criada a Associação dos Trabalhadores na Extração  do Sal, da qual Chico Guilherme faria parte em 1932.  Junto a outros sindicalistas, passa a reivindicar seus direitos; num primeiro momento, por melhores condições econômicas e laborais, posteriormente, pela liberdade dos companheiros que, vitimas da repressão, foram presos.

Nas décadas de 30 e 40, na época do Estado Novo, o governo federal se caracterizava pela autoritarismo e repressão. E, em Mossoró, a política local era conduzida de forma semelhante. A partir daí, surge o Sindicato do Garrancho, a maior prova de obstinação, coragem e persistência de homens que lutavam pela garantia de seus direitos. Recebeu esse sugestivo nome em razão das reuniões de seus membros serem realizadas no meio das matas.

A partir de então, as perseguições aumentaram cada vez mais, alguns sindicalistas não podiam ao menos se dirigir à cidade que logo eram presos. Surge, então, a Guerrilha, a Luta Armada, como alternativa de sobrevivência. Um grupo de 50 homens que tinham como líder Manoel Torquato percorriam aquela região, esperando por um grande movimento que estaria por vir, a fim de poderem voltar aos seus lares. Foram denominados pelos políticos de Bandoleiros Vermelhos.

Enfim, aconteceu o momento esperado, o Levante Comunista, deflagrado em Natal, em 23 de novembro de 1935. Prenunciava-se num novo tempo, em que o povo chegaria ao poder. Mas, por algumas circunstância, entre a quais a resposta insatisfatória da senha, não ocorreu a consolidação de levante na cidade de Mossoró, Existia, ali, um campo fértil; os sindicatos, a guerrilha, os simpatizantes que esperavam apenas um sinal. Mas veio a frustração: iniciava-se uma das maiores perseguições e atrocidades a homens que lutavam por um ideal. Chico Guilherme e outros companheiros foram deportados  para Ilha Grande, na Colônia Correcional Dois Rios, no Rio de Janeiro. Chico Guilherme permaneceu nesta prisão por seis meses. Foi julgado pelo Tribunal de Segurança Nacional e condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados em Mossoró.

Naquele período, o Sindicato foi totalmente esfacelado; Chico Guilherme, ao recuperar a liberdade, percorreu as salinas onde encontrou um quadro de lamentações e injustiças. Unindo-se a Joel Paulista (Joel Martins do Nascimento), Manoel Moreira e João Crisóstomo, reestruturou o Sindicato. Contudo, isso só foi possível graças à proteção do Bispo Dom Jaime Câmara,  a quem os políticos locais respeitavam.

Convocaram então um representante do Ministério do Trabalho, que oficializaria o sindicato, tirando-o da clandestinidade. Atendendo ao chamado e percebendo a grande liderança de Chico Guilherme exercia entre os trabalhadores, sugeriu que eles repudiasse o Partido Comunista e se tornasse presidente do Sindicato. Chico Guilherme recusou veementemente, assumindo a sua presidência somente após sua anistia politica e a liberação do Atestado de Ideologia, em 1946. Presidiu-o por dois anos e permaneceu na sua diretoria até 1952.

A sua experiência de lutas contribuiu para sua eleição como vereador, por dois mandatos consecutivos. Foi eleito na primeira vez, pelo Partido Republicano , que apoiava Cristiano Machado. Durante o segundo mandato, fazia parte de uma coligação de vários partidos, a Aliança Democrática, que tinha como líderes Vingt Rosado e Dix-huit Rosado. Foi um destaca defensor da sua classe. Tinha grande preocupação com os trabalhadores das salinas. Elaborou vários projetos cujo objetivo era minimizar o sofrimento daqueles que conhecia tão bem. Dentre tais projetos, destaca-se a construção de uma estrada carroçável entre as cidades de Mossoró e Grossos, margeando as salinas, para facilitar o transporte dos trabalhadores durante o inverno.

Essa estrada beneficiou a população das localidades de Ema, Tabuleiro Alto, Jurema, Baixa Grande e Carro Quebrado, além da própria cidade de Grossos. Também, durante seus mandatos, batalhou pela instalação de linhas telefônicas para as cidades de Grossos e Areia Branca, pela criação de escolas primárias nas localidades de Suçuarana, Piquiri, Amaro, Passagem das Pedras, Barrinha, Alagoinha, Jurema, Lajedo e Pau D’arco.

Não mais voltou a trabalhar nas salinas, passando a ser motorista de um misto (veículo metade ônibus e metade caminhão), que trafegava entre as cidades de Mossoró e Areia Branca. Exerce, depois, a profissão de taxista até 1983, ao aposentar-se. Chico Guilherme faleceu em 13 de janeiro de 2001.

Recebeu merecidas homenagens em vida.

Mérito Proletário, concedido pelo Partido Comunista Brasileiro, em 21 de abril de 1988, na cidade de Mossoró, diploma em reconhecimento pela defesa da Campanha O Petróleo é Nosso, dado pelo Sindicato dos Petroleiros – RN, em 14 de fevereiro de 1995, em Mossoró.

A Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, em um grande gesto de reconhecimento a esse bravo mossoroense, concedeu-lhe o título de Doutor Honoris Causa, em 19 de outubro de 2000, justamente no dia em que completava 90 anos. Doutor da vida, doutor do povo, doutor dos oprimidos, daqueles que buscam um mundo isento de desemprego, de subemprego, de preconceitos, de crianças morrendo de desnutrição, de abandono, do que anseiam um mundo de solidariedade, justiça, de verdadeiras políticas públicas, um mundo de homens cidadãos.

Também foi homenageado pela Câmara Municipal de Natal, em 23 de novembro de 2011, numa sessão especial em homenagem aos remanescentes da Insurreição Comunista de 1935, juntamente com Francisco Meneleu dos Santos, Glicério Sátiro de Lucena(in memoriam0.

Em 10 de dezembro de 2001, recebeu o VIII Prêmio de Direitos Humanos Emanoel Bezerra Santos, no Solar Bela Vista, na cidade de Natal.

Alguns livros e obras descrevem o seu belo legado, bem como de seus companheiros: Sindicato do Garrancho, da Dra. Brasília Ferreira, Sindicato do Garrancho: Um Ideal Nunca Morre, de sua neta, enfermeira, bacharel em história, Meine Siomara Alcântara. A Ópera do Garrancho, de Crispiniano Neto e Aécio Cândido, entre outros.

Chico Guilherme nos deixa um grande exemplo de coerência política e dignidade humana, o que cada vez mais, se torna raro nos dias atuais.

Páginas 49 a 54 – Nas trilhas de meu avô de José Edilson de A. G. Segundo.