Na porta maior: uma poesia de Horácio Paiva

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NA PORTA MAIOR

 

Cagê 2015

Cagê 2015

No portal da transposição ou porta maior

por onde migram as almas

em busca dos Elísios

perguntam a José:

 

Quantos mortos carregais?

 

Nenhum

pois não me foi dado o tempo

do convívio humano.

Venho do Limbo

e nada tenho a confessar.

 

Perguntam a Pedro:

 

Quantos mortos carregais?

 

Muitos

pois muitos anos vivi:

dezenas de parentes e amigos

que se foram antes de mim

e mesmo alguns inimigos que perdi

perdendo a voz de sua volta

no íntimo desejada.

 

Mas ainda jovem da sibila ouvi

que assim seria:

primeiro eu

ou eles

e escolha não haveria.

 

Ver ou não ver:

eis a questão ou

funesta profecia  –

quem vivesse ficaria

para ver partirem os demais.

 

A esses sobrevivi

e agora comigo os trago.

 

Perguntam a Antônio:

 

Quantos mortos carregais?

 

Na verdade

ainda não morri

e nem mesmo sei

o que faço aqui.

 

O desânimo talvez

ou a apatia

construiu o vazio

deste outro mundo

em que me encontro.

 

Podem chamar

se quiserem

de tédio ou depressão

o que ainda presos

mantém meus passos

no antigo chão.

 

Perguntam enfim à morte:

 

Quantos mortos carregais?

 

Todos

porque todos são

como se fossem

filhos meus.

 

-  E isto porque convém à morte

estar nos vivos e nos mortos

e com todos distribuir

suas responsabilidades.

 

 

(Horácio Paiva)