Folha de Macau: dezenove anos

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Folha de MacauRetrospectiva: Folha de Macau  de 1996 a 2015

Do latim retrõ, voltamos nosso olhar para 1996, quando nasceu o jornal Folha de Macau e publicou o seu número zero, anunciando o novo prefeito e a péssima situação econômico-financeira do município. Ainda como chamada de capa, uma notícia alvissareira: “Polo-gás vai atrair dezenas de empresas para toda a região”. E assim, com essas manchetes surgia a Folha de Macau que teimosamente perdura até este ano de 2015. É certo que poucos jornais como esta Folha conseguem a façanha de se manter vivo por tantos anos. Os empecilhos são enormes para pequenos jornais de pequenas cidades interioranas e mais ainda depois do surgimento da Internet que está decretando o fim de milhares de jornais escritos pelo mundo. Aqui em Natal, dois jornais abandonaram o formato papel, permanecendo apenas na forma digital.  Esta Folha, em seu formato tradicional resiste e nestes dezenove anos contou a história da região. É um marco e merece o registro.

Em todos esses anos o jornal registrou a sociedade, os esportes, a cultura, a política e a economia do município. Entrevistou, informou, fotografou enfim é material obrigatório para pesquisadores e para os que desejarem conhecer a história da cidade.

Na busca de um tema específico para a retrospectiva achei por bem falar sobre a economia, pois é nela que tudo se sustenta. E então recordei 1981 quando me mudei para Macau com a intenção de permanecer por dois anos. Fiquei vinte, bons vinte anos.  A despeito da simpatia, alegria e camaradagem dos macauenses, a cidade era como uma cidade fantasma que renascia. O avanço técnico da indústria salineira com mais máquinas e menos homens passara como um furacão sobre Macau e região. Em Macau, a modernização da indústria salineira  utilizou o necessário e abandonou o restante: homens, prédios, embarcações e instalações.  Ainda cheguei a tempo para ver dezenas de prédios abandonados e destruídos pelo abandono e o inóspito salitre. Naquele tempo só se falava na ALCANORTE, a grande fábrica de barrilha que prometia milhares de empregos e a redenção econômica de Macau. As construções gigantes e imponentes na entrada do istmo, a belíssima vila de casas, um clube social com piscina, uma escola, enfim uma  realidade. Nada, mas nada mesmo apontava  que a fábrica não funcionaria. Quem dissesse que não funcionaria era chamado de louco. Enfim era a ALCANORTE que trazia a esperança de dias melhores para o renascimento da cidade que a mecanização das salinas quase transformara numa cidade fantasma.

Depois se falou nas águas-mães, numa indústria de magnésio metálico e muito no Polo-Gás-Sal e a cada notícia o povo enchia-se de esperanças. Em vão, pois Águas-mães, magnésio metálico, Polo-Gás-Sal e Alcanorte foram enterrados  pelos cartéis da indústria química que são fortes e não querem concorrentes. Enfim, é o capitalismo do nosso tempo.

Por fim chegamos ao que realmente fez diferença para Macau: os royalties do Petróleo. Este chegou aqui. Em 1981 era uma promessa alvissareira a prospecção de petróleo e gás que iniciava na região com a PETROBRÁS. A criação de novos empregos e o estímulo à fundação de novas empresas, enfim os ganhos do petróleo já se faziam sentir em Macau com o incremento da renda e melhoria do comercio.

Agora passados todos esses anos e todo o dinheiro dos royalties que aportou em Macau, façamos um balanço. Tomemos os royalties do petróleo que quase sempre significou um diferencial em relação à grande maioria dos municípios.  O que queremos destacar é o valor do dinheiro que Macau recebeu e o que ele significou para o desenvolvimento do município.  No quadro a seguir registramos os aportes dos royalties para o município via Prefeitura Municipal.

Ano Em milhões de reais Ano Em milhões de reais [*]
1996 0 2006 22.500
1997 0 2007 19.200
1998 0 2008 24.800
1999 2.800 2009 16.700
2000 5.000 2010 22.400
2001 5.600 2011 28.300
2002 12.100 2012 33.700
2003 16.600 2013 35.800
2004 18.200 2014 37.800
2005 22.400 2015 9.700 [janeiro a maio]

total   333.600 [trezentos e trinta e três milhões e seiscentos mil reais]

[*] Dados do Governo Federal

Com o montante seria possível construir 6 mil casas de R$50 mil reais cada. Ou então 12 mil barcos de R$25 mil cada, ou então dar a cada macauense R$12 mil reais para que ele gastasse como quisesse. Enfim, as conjecturas são infindáveis, mas o que importaria mesmo seriam os recursos aplicados na infraestrutura da cidade de forma a gerar empregos e renda. Parece-nos que esta nunca foi a preocupação dos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores de Macau que optaram por gastar irresponsavelmente o dinheiro que em grande parte foram destinados às festas como o carnaval, todas com suspeitas de roubo do dinheiro do povo e sob investigação. Apesar dos mais de R$300 milhões de reais transferidos para Macau nestes anos o que é possível ver na cidade dos recursos aportados?

E agora quando este recurso diminui drasticamente em razão, principalmente do preço do barril do petróleo no mercado internacional, como está a prefeitura para enfrentar essa diminuição da receita? Esta é a pergunta.

Como mensurar se o dinheiro – a mais – dos royalties fez diferença em Macau em relação aos demais municípios. Os royalties foram úteis à população de Macau? Esta é a pergunta.

Tomemos uma forma de medida. Falemos do IDH. O site  http://www.pnud.org.br/  nos informa que o “Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é uma medida resumida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde”. Observam ainda que o IDH é “um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento”.

O IDH varia de zero a 1 sendo considerado o desenvolvimento muito baixo entre 0 e 0,499, baixo entre 0,500 a 0,599, médio de 0,600 a 0,699, alto de 0,700 a 0,799 e muito alto os acima de 0,800.

No Rio Grande do Norte  somente três municípios estão no IDH alto uma vez que no muito alto não existe nenhum. Macau situa-se no IDH médio juntamente com Ipueira, Alto do Rodrigues e Currais Novos dentre outros.  O IDH de Macau em 2014 é 0,665, acima de Assú com 0,661 e abaixo de São José do Seridó com 0,694. Macau ficou abaixo do IDH médio dos municípios brasileiros que ficou em 0,727 e abaixo do IDH médio do Rio Grande do Norte que ficou em 0,684.

Enfim, é uma forma de avaliarmos um município. Uma forma de avaliarmos Macau onde foi despejado – só de royalties — de 1999 a 2015, 300 milhões de reais.  Enfim, serviu essa dinheirama para melhorar a vida do povo de Macau ou serviu apenas para que alguns poucos enriquecessem? Esta é a pergunta.

Claudio Guerra em julho de 2015