Flamengo, Dequinha, Areia Branca e Macau: mais um belo texto de Francisco Rodrigues da Costa

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Ainda Macau e Areia Branca.

Autor: Francisco Rodrigues da Costa

Década 1950, Campo o Cruzeiro, Quando havia ética também no futebol.

Década 1950, Campo do Cruzeiro, Quando havia ética também no futebol.

E as duas cidades viviam num clima de solidariedade, apesar do bairrismo fraterno, como irmãs unidas e arengueiras: “Ela tem isso, mas eu tenho também; eu tenho aquilo, mas ela não fica atrás”, como se cada bairrista falasse consigo mesmo. E areia-branquenses eram recebidos em Macau com hospitalidade e carinho; e não era diferente o tratamento que Areia Branca dispensava aos macauenses.

No futebol, ou no basquete, cada povo que recebesse o outro com mais entusiasmo, embora no campo ou na quadra a fidalguia se transformasse num furor de verdadeiros titãs, cada um procurando derrotar o rival.

Mas depois da quase mortal disputa, os salões engalanados se abriam para receber os vitoriosos e derrotados ou os derrotados e vitoriosos para a confraternização de gente ordeira e amiga.

Ainda há pouco era o som estridente de uma banda musical incentivando os atletas que corriam desesperados para dominar a pelota objetivando à meta adversária; agora era a orquestra com um toque dolente unindo os casais numa coreografia  diferente, que os fazia deslizar pelo salão ao som da valsa, do samba ou do bolero.

E qual os nossos patrícios portugueses, que, em tempos remotos, deixavam Lisboa nas suas caravelas e dobravam o Cabo da Boa Esperança para se aventurar ao mar; num sábado, pela manhã, zarpara do Tirol, em Areia Branca, o time do Madureira, que, num bote a vela, saía de barra afora e dobrava a Ponta do Mel para alcançar a cidade de Macau.

Na tarde do domingo seguinte, estava marcada uma partida de futebol no campo Walter Bichão da cidade co-irmã. O tricolor areia-branquense levava um presente para brindar os torcedores anfitriões. Com um cachê de vinte cruzeiros por cada jogo, Antônio Noronha, presidente do time visitante, havia contratado um jogador de Mossoró que ganharia fama internacional em pouco tempo.

E assim, naquela tarde ensolarada de um domingo da década de quarenta, o Madureira de Areia Branca venceu o selecionado de Macau por 7 x 1, ou 7 x 3. Aqui não importa o placar, mas o acontecimento que fez vibrar os apaixonados torcedores que compareceram ao estádio Walter Bichão.

O craque a que se refere esse escrevinhador saudosista jogaria posteriormente no América do Recife. Da “Veneza brasileira” foi um pulo para ser titular como centro médio do Flamengo da Cidade Maravilhosa, por quem foi tri-campeão nos anos 1953/1954/1955. Vestiu a camisa da seleção brasileira no Mundial de 1954, realizado na Suíça. Não chegou a jogar nenhuma partida durante o certame, pois o titular absoluto foi Brandãozinho.

Esse craque que muita alegria deu aos flamenguistas foi Dequinha, que Areia Branca viu tantas vezes jogar no seu Campo da Saudade, e que Macau conheceu graças ao entrelaçamento esportivo-social mantido pelas duas cidades litorâneas, e grandes produtoras de sal.