Ninguém para a Coreia: trabalhadores de Macau no romance de Claudio Guerra

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Ninguem para a CoreiaLogo após o lançamento em 1997, de Macauísmos – Lugares e Falares Macauenses do amigo Benito Barros, falecido em 2010, publiquei na Folha de Macau um comentário sobre o livro, destacando o quanto a obra nos instigava a produzir outras, tal era a quantidade de assuntos que nos despertava sobre os problemas da vida humana.

Pois bem, numa manhã qualquer de 1998, eis que aparece na minha casa, ali na Padre João Clemente, Benito Barros a caminho do seu trabalho na direção do Campus da UFRN e naquela sua informalidade  dos palavrões amigos me entrega algumas cópias de documentos. Eram as copias dos autos de prisão dos comunistas na década de 1950 que ele havia encontrado nas pesquisas que fizera. Ele sabia o quanto aqueles documentos eram importantes e veio trazê-los para que eu desse vida a eles. Eu, que na década de 80 andava a procura de algum vestígio das ações comunistas em Macau e não encontrara nada, tinha agora dois documentos fantásticos sobre a luta dos comunistas em Macau e ambos representavam bem aquela época da Guerra fria, do Estalinismo e da luta internacionalista dos comunistas pela paz mundial. Ninguém para a Coreia era um dos cartazes que os trabalhadores macauenses empunhavam na manifestação de janeiro de 1951 e significava o protesto dos comunistas contra o possível envio de tropas brasileiras para a invasão da Coréia, como exigia o governo dos Estados Unidos;

Somente em 2008 consegui terminar e publicar o romance Ninguém para a Coréia. Tiragem pequena que não deu nem para todos os amigos. Enviei um para Benito que mais uma vez demonstrou sua generosidade comigo. Fez uma primorosa revisão histórica, literária e ortográfica.

A luta denominada Ninguém para a Coreia  junta-se ao Apelo de Estocolmo, contra o uso da bomba atômica que já havia causado todos os horrores no Japão onde os Estados Unidos jogou a bomba. Foram lutas da década de 1950, talvez as últimas lutas internacionalistas dos trabalhadores lideradas pelos comunistas no mundo todo e abraçadas pelos comunistas de Macau que sofreram torturas e prisões na busca de um mundo com dignidade para todos.