O sal da terra, uma poesia de Horacio Paiva

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QUERIDO AMIGO/IRMÃO CLÁUDIO,

um poema deve à gaveta, mas não respeitei essa dívida. Teimei. O tema me emociona. E agora penso que tenho o resultado final. Sim, isto é um encanto, uma mágica  –  mas feita com trabalho, meu amigo! Eis, enfim, o poema (também no anexo), passado para você logo no aniversário de minha prima/irmã Maria:

O SAL DA TERRA

“Vós sois o sal da terra”

Mateus, 5

Minha terra tem o melhor sal do mundo

e nele habita a alma do mar.

 

De lá o transportam

e às mesas mais distantes chegam

tempero e cura.

 

Mas às vezes, como agora, o sal não chega

não obstante a mesa posta

não obstante a expectativa e a espera

pelos abarrotados navios

e restam inacabados os alimentos

e frustrados os comensais.

 

Neste porto impera a impaciência

pois aqui há falta de sal

ao contrário de minha terra

onde habita a alma do mar.

 

Então por que não receberam a preciosa carga?

Por que sendo bom sal o lançaram fora?

Por que o seu retorno precipitado ao mar

se a sua missão era na terra?

 

Irmão, falemos agora de gente

de gente que não chegou

de gente lançada ao mar

de gente que esperávamos à mesa.

 

E no entanto para eles

cadê a comida?

Cadê a bebida?

Menino, cadê o sal de minha terra?

 

(Horácio Paiva)