Mamãe Idalina vestida de branco

0

Mamãe Idalina vestida de branco

Quando o meu irmão Nei me disse que o pé de Ipê branco no quintal de nossa casa não havia florado no ano em que nosso pai morreu, registrei este fato incomum nos meus vastos arquivos de acontecimentos inexplicáveis e fantásticos. Depois busquei fazer um inventário de tudo aquilo que pudesse me levar a alguma conclusão, ano menos plausível, sobre o fato.

E concluí.

Primeiro, que  estranhamente, o pé de Ipê branco só foi notado por todos quando da sua primeira florada. Até ali, até o momento da sua resplandecente florada, era como se não existisse, pois ninguém o havia percebido, apesar de estar plantado juntos dos portões e ser uma árvore de tamanho considerável e que acolhia ninhos de bem-te-vis e de outros pássaros. E o mais curioso: ninguém recordava de tê-lo plantado ou muito menos de quando havia sido plantado. E o que torna o fato um tanto intrigante,  é que ao calcularmos a sua idade,  verificamos que seu plantio remonta à época em que mamãe faleceu.

Segundo, que nos meus apontamentos de ciência e experiência eu sempre tenho concordado com o filósofo que diz “nada se perde, tudo se transforma”. Hoje, um coração bate no meu peito e sou só sentimentos, amanhã poderei ser uma pedra, depois um pássaro, e mais além uma árvore que distribui pequenas dádivas em forma de flores brancas.

E em terceiro, porque pela obviedade, e todos hão de concordar comigo que tão somente uma pessoa que pela sua imaculada ternura, placidez e doçura poderia transmutar-se para estar sempre conosco nesta fraterna casa da rua Engenheiro Losch.  E por isso transmutou-se e veio vestida de branco! E por luto, não floriu no fatídico ano da morte do nosso pai.

Claudio Guerra