Meu amigo Benito Barros

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Benito Barros

Benito Barros[1957-2010] Quatro Bocas/2012

Benito Barros[1957-2010] Quatro Bocas/2012

Eram os mil novecentos e oitenta e dois e eu estava longe de perceber o sentido daquele riso desbragado, esparramado no meio fio da sarjeta enlameada e suja de Macau toda vez que o patinho do filme chorava. Depois, muito depois, penso que compreendi e conto aqui, agora que me é dada mais uma oportunidade de falar do meu amigo macauense Benito Barros.

Benito Barros foi um daqueles brasileiros que cresceram assistindo todas as maldades do mundo acontecendo no seu pais. Em Macau tudo foi muito terrível a partir de março de 1964 entrando pelos mil novecentos e setenta quando a ditadura massacrou as pessoas e as coisas.  Os trabalhadores combativos foram presos e torturados e a cidade restou abandonada, quase fantasma. E como escárnio colocaram um luminoso na Câmara Municipal – Palácio Presidente Médici – homenagem para o ditador daquele período cruel de prisões, torturas e de um cale-se geral.

Cheguei em Macau no começo dos oitenta e com tudo ainda muito vivo na memória: um resultado de IPM que concluía pela inocência dos militares envolvidos no ato terrorista do Rio Centro naquele 30 de abril de 1981, quando os trabalhadores comemoravam com arte o primeiro de maio. No país, em curso a consolidação da inocência dos torturadores com a abertura ampla, geral e irrestrita.  Mas, por fim o povo comemorava a vitória por eleições diretas mesmo que alguns da ditadura ainda quisessem sangue e cadáveres para justificar a suspensão das eleições. E então, ainda pairava sobre todos um clima de medo, muito medo. Uma desconfiança geral, pois, ninguém estava livre dos tentáculos da ditadura. Nesse quadro, os nossos laços de amizade foram construídos com confiança mútua e com muito respeito e foi por este tempo que conheci Benito Barros que preparava para se candidatar a vereador em Macau.

A eleição para prefeito e vereadores foi em 1982 quando o melhor da juventude de Macau juntou-se para participar do pleito. Hoje, quase todos eles estão por aí nos tribunais, nas universidades, no comercio, na indústria, nos serviços, contribuindo para o aperfeiçoamento democrático e vida com dignidade para todos.

Na campanha eleitoral o poderio econômico da época foi enfrentado com muita criatividade. Casamos os bons discursos dos nossos oradores e a arte do cinema em Super-oito, contra os trios elétricos dos adversários da ARENA, o partido pró ditadura. Exibíamos 2 ou 3 filmes Super-Oito em cada comício. Tínhamos uma boa, mas trabalhosa logística que compreendia uma grande tela, projetor, som e filmes. Benito emprestara “Esses onze aí” do jornalista Geneton Morais Neto, amigo do seu irmão Vargas, um bom filme que falava de futebol e fazia um grande sucesso.  Eu havia filmado neste ano quase três horas do carnaval de Macau e montara um filme de quinze minutos e para completar emprestamos do Pedro Airton o gerente do Banco do Brasil alguns filmes entre eles O Patinho Feio. E nessa memorável campanha política Benito Barros prenhe de sonhos foi eleito vereador pelo MDB, o Movimento Democrático Brasileiro. Alguns sonhos, realizou, mas a maioria do que pretendia fazer como vereador, continuou utopia. Lutou muito para o avanço democrático e definitivamente não quis ser candidato à reeleição. Meu objetivo, dizia ele, não é fazer carreira política, outros virão!

Para Benito política era vida com dignidade para todos. E não tergiversava sobre isso. Era um cidadão que tinha a solidariedade e a honestidade como princípios. Quando foi preciso moveu ação judicial em defesa do meio ambiente em razão da destruição de manguezais e fechamento de gamboas quando da construção da estrada para a praia de Camapum. Mais tarde quando um prefeito trucidou a Praça da Conceição cortando os Flamboaiãs quase seculares, ele protestou e denunciou com uma poética Carta ao flamboaiã assassinado, que publicou na Folha de Macau onde por muitos anos assinou uma coluna. Depois, muitos anos depois outro prefeito mandou arrancar as árvores da cidade e então Benito enfrentou os tratores da prefeitura. Quando todos se acovardavam ele levantava sua voz e lavrava o seu protesto.

Para Benito política era justiça social. E depois da vereança ficou sendo uma espécie de promotor de justiça, um bispo, um juiz de direito, pois as pessoas procuravam-no com os mais distintos problemas, particulares ou coletivos, que para ele não tinha diferença, ajudava como podia e sempre buscava uma solução. E a cidadania sempre em primeiro lugar.

Quando ninguém tinha coragem, ele tinha.  Aos insultos à democracia, à cidade e a seu povo e à incompreensão das suas atitudes, respondia com vigor.   Quando se enchia de tudo e de todos rasgava o verbo: Exigem-me coerência, veem-me contraditório. Coerência—quem a traja? Quem a veste? Se muito, envergar uns trapos como teste, mas mantê-la como pele… ao simplório!

A um relato que lhe fizeram sobre a cidade e sua gente na década de 1950, respondeu com a arte do teatro. Benito acostumara-se a transformar tudo em arte e certa vez brindou-nos com um belo texto quando ganhou um Coupe Boil da sua irmã e do seu cunhado. À chatice da vida criou um reino onde era possível sonhar e assim na imaginária Ilha da Casqueira ele criou uma editora e publicou uma dezena de livros e presenteou o povo com muita poesia e uma magistral prosa, Macauísmos – lugares e falares macauenses, onde expos quase um século dos corações e mentes dos macauenses.

Despojado e vacinado contra os fetiches do capitalismo, sorria das glorias vãs, das celebridades passageiras e do consumismo incontrolável, que para ele sempre resvalava para o ridículo. Este foi meu amigo Benito Barros que morreu nos últimos dias de 2010.

Toda vez que exibíamos O Patinho Feio, naquela cena que o patinho cansado e humilhado chorava, Benito, aproximava-se do local da projeção, sentava no meio fio e sorria incontrolavelmente. Eu olhava para ele espantado e sorria também, um riso solidário, interrogativo e por isso contido. Mais tarde, bem mais tarde, pelos anos noventa, ao ver Benito sorrindo muito e cercado por uma pequena multidão que por algum motivo foram buscar socorro com ele e que por certo ele ajudaria, caiu sobre mim o menino Jesus do Guardador de rebanhos de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro). Afinal, Benito era nosso demais para fingir.