Pelo Direito de Ser Bonsai

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Autor: CLAUDIO GUERRA N° de Páginas: 116 Editora: O baú de Macau Divulgação pela ANABB – Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil www.anabb.com.br Resumo: O livro trata sobre a condenação da rádio comunitária de um pequeno município nordestino, com base numa lei da ditadura. A expectativa dos cidadãos que atuam nas rádios comunitárias por todo o país é que a 1ª Conferência Nacional de Comunicação marcada para dezembro próximo resulte, dentre outras coisas, no encaminhamento de um novo marco regulatório para o setor de comunicações.

PELO DIREITO DE SER BONSAI – A luta das rádios comunitárias contra os barões da mídia A sentença de condenação do produtor cultural João Eudes Gomes prolatada pela justiça federal agora em setembro de 2007, acatando denúncia do Ministério Público Federal que o acusou de haver instalado e utilizado equipamento de radiodifusão [rádio comunitária] sem autorização do poder concedente, me remete à história do moleiro Domenico Scandella, conhecido por Menocchio, que viveu na aldeia de Montereale, província italiana de Friuli entre os séculos XVI e XVII e que foi queimado por ordem do Santo Ofício, após responder vários processos por desobediência às leis da igreja católica romana. Sua história despertou no pesquisador Carlo Ginzburg tanta curiosidade que resultou num livro interessante cujo título é “O Queijo e os Vermes – O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição”. Até o papa Clemente VIII “se inclinava para Menocchio”, mas o que estava em jogo era menos o perigo que o pobre moleiro poderia significar à igreja que o simbolismo de sua condenação no momento em que era necessário impor as doutrinas aprovadas pelo Concílio de Trento. Para o filósofo Renato Janine Ribeiro que escreve o posfácio à edição brasileira da referida obra “Tal como é preferível esterilizar um ambiente hospitalar de mais do que de menos, também aparecia como preferível combater o diabólico em excesso, e não em falta”. Para ele, “Menocchio é um herói, ou mártir da palavra”. O eminente juiz que proferiu a sentença condenatória do cidadão João Eudes Gomes julgou procedente a pretensão punitiva da denúncia respaldado no artigo 70 da Lei nº 4.117/1962, combinado com o artigo 2º da Lei nº 9.612/1998. Na dosagem da pena o magistrado considerou que “a culpabilidade do réu, em face das circunstâncias fáticas e pessoais que determinaram o crime, é diminuta, porquanto se valeu, do serviço de radiodifusão com o desiderato de prestar o serviço à comunidade de que fazia parte, tendo sido, de fato comprovados os benefícios trazidos pelos serviços prestados; que o réu não registra antecedentes criminais negativos; que sua conduta social é boa; que a personalidade do acusado não inspira maior grau de desconfiança e de periculosidade à sociedade, que o motivo do crime foi o interesse de ajudar a comunidade local com a transmissão de informação e a realização de serviço de utilidade pública;…”. Todas essas considerações que o eminente juiz fez, e o fez bem, foi corroborado por aqueles a quem interessa o funcionamento da FM-Solidariedade, a comunidade de Macau, em especial a do Porto do Roçado. E foi por essa razão que uma centena de cidadãos dos mais variados segmentos da sociedade macauense declararam sua solidariedade à rádio comunitária. São professores, comerciantes, pequenos industriais, estudantes, operários, pescadores, representantes de entidades assistenciais, religiosas e educacionais que vêem na FM-Solidariedade um instrumento que contribui para a melhoria da vida comunitária. É de se ressaltar, nesta sentença, dois pontos que na minha opinião, ultrapassaram nossa legislação. Um é o fato do cidadão ser condenado individualmente a pagar multa e sofrer restrição de liberdade, apesar de ser apenas um dos membros de uma associação que é formada por dezenas de pessoas. No mesmo diapasão seriam os membros de um partido político ou de um sindicato, condenados individualmente em razão de uma acusação de infringência às leis pelo partido ou sindicato? Outro fato que também é preciso ressaltar é que de acordo com o texto constitucional, Capítulo I, Título II, Artigo 5º, XIX, “as associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por decisão judicial, exigindo-se, no primeiro caso, o transito em julgado”, pois bem, com a apreensão dos equipamentos da FM-Solidariedade a associação foi prejudicada em suas atividades antes do transito em julgado! E devemos destacar também que a Lei 4.117/62 que instituiu o Código Brasileiro de Comunicações, apesar de ter sido promulgada num período de relativa democracia, foi inteiramente alterada pela ditadura através do Decreto-Lei nº 236 de 28/02/1967. Portanto é uma lei da ditadura. E até a nossa Constituição Cidadã de 1988 acolheu-a. Estranho? Não se considerarmos que até hoje uma grande parte de deputados, senadores, governadores e outros políticos em busca de mandatos são donos de emissoras de rádio e de televisão. Estes fazem parte do baronato da mídia, cujas concessões foram obtidas, na sua grande maioria, durante a ditadura. Aqui sim, um flagrante desrespeito à Constituição Federal, que proíbe tal prática. No Rio Grande do Norte, é comum citar que a Cabugi [Globo] é dos Alves, senador Garibaldi. deputado federal Henrique, deputado estadual Walter, vereador Geraldo; a Potengi [Band] é do ex-senador e ex-governador Geraldo Melo; a Ponta Negra [SBT] que era do senador Carlos Alberto[pai], agora é de Micarla [filha], vice-prefeita de Natal; a Tropical [Record] é do senador José Agripino e do deputado federal Felipe. Se é ou não eu não sei, mas que a Tropical tem uma preferência enorme pelo senador José Agripino, isso tem. Basta ver seus telejornais que está lá o estridente senador discursando na tribuna do Senado Federal, todos os dias. E se sairmos aí em cada Estado da federação a apontar os verdadeiros donos de emissoras de rádio e TV – não os testas de ferro – veremos que são políticos com mandatos ou em busca de um. No ano passado o jornalista, Venício Lima, pós-doutor pela Universidade Illinois, constatou que mais de 50 parlamentares tinha a posse de emissoras de rádio e Tv. Segundo o levantamento, deputados que possuíam concessões de rádio e Tv eram membros da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática e votaram pela renovação de suas próprias concessões. Para o Doutor Venício Lima como não há uma legislação específica para o setor, os “grupos privados familiares ligados às elites políticas foram se apropriando do setor e exercendo influência decisiva na sua regulação. Os princípios inseridos a duras penas na Constituição de 1988 não lograram regulamentação no Congresso Nacional, onde a bancada que representa os interesses dos empresários de comunicações – direta e indiretamente – é historicamente muito forte”. E alerta que, “no Brasil não há controle sobre a propriedade cruzada nem sobre a formação de oligopólios de mídia”. E conclui que “Somente um novo marco regulatório para o setor, que tenha como horizonte a democratização das comunicações, poderia reverter a médio e a longo prazos a situação atual”. Recentemente, através das emissoras de rádios e TVs a ABERT – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão que representa os proprietários destes meios de comunicação encetou uma grande campanha contra as rádios comunitárias – para eles, rádios piratas. Uma das acusações seria que estas rádios interferiam até nas comunicações dos aeroportos, pondo em risco a segurança das aeronaves. Mas a acusação maior era a de não estarem legalizadas. Balelas. Qual a interferência que a FM-Solidariede, distante 200 km. poderia provocar nos aeroportos de Natal e Mossoró? E sobre a legalização, recente levantamento constatou que [só em São Paulo] das 39 emissoras de rádio em Freqüência Modulada licenciadas pelo Ministério das Comunicações, apenas 3 tem outorgas em dia. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu que o prazo de concessão para serviço de radiodifusão sonora é de 10 anos, podendo ser renovado por igual período. Com as outorgas vencidas, estas emissoras se valem do Decreto 80.066/1983, que estabelece no artigo 9º que, “Caso expire a permissão, sem decisão sobre o pedido de renovação, o serviço poderá ser mantido em funcionamento tem caráter precário […]” Ocorre que não há o estabelecimento de qualquer prazo ou limite e isso afronta o Código Brasileiro de Telecomunicações de 1962, [artigo 36], uma vez que “expirado o prazo de concessão ou autorização, perde, automaticamente, a sua validade a licença para funcionamento da estação”. Para o deputado federal Orlando Fantazzini, “Não podemos continuar permitindo o funcionamento de emissoras comerciais com concessões vencidas há mais de dez anos enquanto rádios comunitárias são fechadas de forma violenta tendo processos em tramitação no ministério”. Mas voltemos a Menocchio. Que mal esse camponês – com seus pensamentos “fora da lei” — na sua pequenina aldeia causaria à poderosa igreja católica romana? E, passados mais de tres séculos continuamos perguntando: Qual o perigo que a FM-Solidariedade com seus 25 watts de potencia e sua antena de 12 metros fincada no solo pantanoso da maré do bairro do Porto do Roçado na pequena Macau poderia causar à sociedade? E ainda mais se verificarmos que faz apenas transmitir programas de musica popular brasileira, educacionais, religiosos, etc, campanhas contra o uso de drogas, de vacinação, contra a dengue, além da divulgação de comunicados oficiais da Prefeitura Municipal, do Governo Estadual e do Governo Federal? Vamos entender isso no âmbito de Macau. O município tem 26.000 habitantes, aproximadamente 20.000 na sede e cerca de 5.000 no Porto do Roçado onde está a FM-Solidariedade. A cidade tem somente uma rádio AM comercial que cobre toda a região e que é conhecida como a rádio de Zé Agripino {senador José Agripino Maia –DEM], se o seu nome consta da razão social da emissora não vem muito ao caso, o que vem ao caso é a preferência da emissora pelo senador, retransmitindo diariamente seus raivosos discursos contra o Governo Lula. Desde meados da década de 90, foram várias as iniciativas de se fazer rádio comunitária em Macau. Algumas verdadeiramente comunitárias, outras nem tanto, mas muitos cidadãos de Macau foram condenados por tentar quebrar o monopólio da rádio AM em Macau. Concorreriam com ela? Acho muito difícil, pois além de não fazer comerciais, seus trabalhadores eram todos voluntários e não percebiam salários. E com relação a problemas técnicos, não há como interferir na emissora AM. Descartados os aspectos técnicos, analiso pelo lado econômico. Estarão os barões da mídia com receio de perder os milhões de reais que recebem anualmente dos governantes para a propaganda quase pessoal de seus governos? Por aí também não vejo ameaças, pois rádios e Tvs comunitárias não se prestam a servir governos. Servem a comunidade, servem o Estado. Resta então o fator ideológico e a necessidade de cumprir uma lei da ditadura, coisa que não é nada razoável para uma nação que viveu a maior parte da sua história republicana sob governos ditatoriais. A despeito de todos estes problemas criados para que a FM-Solidariedade não funcione, ela segue lá no seu cantinho divulgando tudo que for de interesse da coletividade macauense, pois o que lhe dá legitimidade é o reconhecimento da comunidade e isso a FM Solidariedade tem de sobra. Agora mesmo sou informado que foram encaminhados para a emissora dezenas de pedidos de divulgação que considero importante listar alguns deles: 1] Do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Macau-RN: Edital de convocação para escolha de membros de Conselho Tutelar; 2] Do 6º DIRED – Secretaria de Educação do Rio Grande do Norte: Chamada para regularização de situação funcional; 3] Do Museu José Elviro: Comunicação de interesse da comunidade; 4] Da Caixa Escolar da Escola Estadual Profª Clara Tetéo: Assembléia Geral Extraordinária; 5] Da Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Pastoral da Juventude: Convocação da comunidade para reunião sobre o Combate ao uso de drogas; 6] Da Escola Clara Tetéo: Comunicação sobre inscrições para os exames supletivos; 7] Do Conselho Municipal de Saúde de Macau-RN: Comunicação/Convite da 3ª Conferência Municipal de Saúde de Macau; 8] Do 6º DIRED – Secretaria de Educação do Rio Grande do Norte: Comunicação de homenagem aos professores; 9] Da Justiça Eleitoral – 30ª Zona Macau: Comunicado sobre a revisão eleitoral no município; 10] Da Prefeitura Municipal de Macau – Cemitério Público: Aviso de interesse da comunidade; 11] Da 6º DIRED – Secretaria de Educação do Rio Grande do Norte: Comunicado sobre as Olimpíadas de Matemática. “Não existe democracia sem comunicação democrática”. É assim que inicia o livro “Vozes da Democracia: histórias da comunicação na redemocratização do Brasil”, editado pela Intervozes: coletivo Brasil de Comunicação Social e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2006 e que pode ser lido no sitio www.intervozes.org.br . Assim como a Intervozes, existem centenas de grupos que querem aprofundar a discussão sobre os meios de comunicação. No dia 10/11/2007, às 10 horas da manhã, O Movimentos dos Sem Mídia fará uma manifestação diante da sede da Globo em São Paulo para protestar contra o monopólio da comunicação no Brasil. Em todo esse debate, uma luz vem daqui mesmo do Rio Grande do Norte, da terra onde viveu Jacó Rabbi o vero amigo dos potiguares. E neste sentido que a proposta do eminente jurista potiguar doutor Paulo Lopo Saraiva no texto “A Comunicação Social na Constituição Federal de 1988”, do livro, “Direito Constitucional — Estudo em homenagem a Paulo Bonavides”, é inovadora. O autor propõe “a instituição urgente do ‘habeas mídia’, para libertar os meios de comunicação do ‘cárcere das elites’ na feliz expressão do mestre Paulo Bonavides”. E acentua, “Não apenas garantir o direito de resposta, mas permitir o exercício do direito de ‘antena’, vale dizer, autorizar o acesso da sociedade organizada ao rádio e à televisão, colocando-os no espaço público”. E conclui apontando para a “necessidade urgente de criar a ‘Teoria Jurídico-Politica da Libertação da Mídia’, “com uma nova lei sobre concessões, permissões e controle…”. Conversando com o pessoal da FM-Solidariedade, você percebe que eles não querem muita coisa, só o direito de antena e ocupar um pedacinho do espaço público para servir o público. Na expressão de um membro da emissora, “o que é gente quer é continuar uma arvorezinha, a gente quer mesmo é ser bonsai.” [*]Texto publicado no Jornal de Natal em outubro de 2007]

13/11/2007  INSTITUTO HUMANITAS – Rádios Comunitárias. Um plano geral. Entrevista especial com Cláudio Antonio Guerra Quando a Rádio 93.5FM, Rádio Solidariedade, da cidade de Macau, no Rio Grande do Norte foi proibida de transmitir sua programação por ser acusada, pelo Ministério Público Federal, de utilização de equipamento de radiodifusão, próprios de rádios comunitárias, o sociólogo e economista Cláudio Antonio Guerra escreveu o artigo “Rádios Comunitárias. O caso da FM 93.5: pelo direito de ser bonsai” e o enviou a inúmeros veículos. Cláudio, no texto, fala da luta das rádios comunitárias contra os “donos” da grande mídia. A IHU On-Line, conversou com Cláudio, por e-mail, para tratar deste assunto. “A pressão popular deve se dar em todas as frentes de luta, mas penso que o fundamental é destruirmos a noção da ‘normalidade’ das coisas, essa ‘normalidade’ que exclui, que oprime e que massacra o cidadão”, relatou Guerra, que falou também sobre as mudanças que precisam ser feitas nas leis que regem a comunicação comunitária no país e do cumprimento da função social do rádio no Brasil. Confira a entrevista. IHU On-Line – O que a população brasileira deve fazer, em sua opinião, para exigir que tais leis sobre concessões de rádios comunitárias sejam modificadas e, por conseqüência, reorganizem todo o rol de veículos que hoje existem na clandestinidade, mas contribuindo para a sua comunidade? Cláudio Antonio Guerra - A pressão popular deve se dar em todas as frentes de luta, mas penso que o fundamental é destruirmos a noção da “normalidade” das coisas, essa “normalidade” que exclui, que oprime e que massacra o cidadão. Nessa área da comunicação, ficou estabelecido como “normal” o poder das grandes redes e que todo político deve ser o dono de emissoras de rádio e canais de TV. Eu não sei como está a situação no resto do país, mas no Nordeste é um escândalo. Agora mesmo leio num jornal daqui uma denúncia sobre uma emissora de rádio, cuja concessão foi obtida para a cidade de Macaíba (RN), mas que está instalada e funcionando há muitos anos em Natal (RN). E a eficiente ANATEL – na ação de lacrar rádios comunitárias – desconhece o fato!  Essa emissora é propriedade da vice-prefeita de Natal, Micarla Souza. Sem a intenção, o artigo acaba denunciando também o ex-senador e ex-governador Geraldo Melo como dono de uma emissora de rádio na cidade de Ceará-Mirim e Agnelo Alves [tio do senador Garibaldi Alves e do deputado federal Henrique Alves] como dono de uma emissora de rádio na cidade de Parnamirim, onde é o prefeito. Penso que nossa ação maior deve ser a de fazer valer a Constituição Federal. Se o texto diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”, isso tem que valer. Não podemos concordar com uma lei que, ao invés de regulamentar, oprime as rádios comunitárias e o guardião da Constituição, o Supremo Tribunal Federal, feche os olhos para essa injustiça. É necessário que avancemos para uma participação mais direta naquilo que nos pertence.  Precisamos de mais plebiscitos, referendos e outras formas de participação direta tanto nas questões nacionais, bem como nas estaduais e municipais, pois a nossa democracia representativa, o parlamento, já se esgotou, e sozinho não atende mais aos anseios populares. Eu penso também que essa demanda social pela liberdade de comunicação deve ganhar muita força nos próximos anos. E a Internet vai jogar aí um papel fundamental. Nós vivemos um belo momento de inclusão social que necessariamente pressiona para novas demandas sociais. Acredito também que nós estamos trilhando um caminho que pode levar ao fim da nossa submissão secular. Nossa história começou com a escravidão do negro e dos indígenas e continuou com a espoliação dos trabalhadores assalariados e dos pequenos produtores rurais e urbanos. Para concluir, defendo que as rádios comunitárias de 25 watts ERP e antena de até 30 metros devem ter uma regulamentação específica apenas para preservar o interesse público, mas nunca com o intuito de suprimir o direito à comunicação como está definido na Lei 9.612. IHU On-Line – Quais seriam as mudanças que você faria nas leis que regem os princípios das rádios comunitárias. Cláudio Antonio Guerra - Primeiramente enterrar de vez o entulho autoritário. É urgente a supressão da Lei 4.117/62. Não é possível que uma lei da ditadura seja maquiada e acolhida pela democracia. Depois, alterar os artigos 5º e 22º da Lei 9.612, de 19/02/1998, a lei das rádios comunitárias. O artigo 5º estabelece um “único e específico canal na faixa de freqüência do serviço de radiodifusão”, o que limita a ação e expansão das rádios comunitárias. O artigo 22º é um absurdo, pois exclui o direito de proteção contra as interferências causadas por outras emissoras de radiodifusão. Mas o que é necessário mesmo, como propõe o Doutor Venício Lima , é um novo marco regulatório para o setor de comunicações. IHU On-Line – A função social do rádio, hoje, está sendo cumprida? Cláudio Antonio Guerra - Definitivamente não. E, sendo propriedade, deveria cumprir a função social conforme o texto Constitucional. Excluindo as rádios educativas e comunitárias que cumprem a função social, o que vemos são emissoras de radiodifusão voltadas quase que exclusivamente “na defesa do nosso grupo político”, no dizer dos seus proprietários.  Não se vê programas de debates com pluralidade de idéias. Deles só participam os que defendem as idéias “do nosso grupo político”. As notícias são filtradas até o absurdo da inversão dos fatos. Não se vê pluralidade de opinião nem versões simultâneas das matérias polêmicas e também nenhuma iniciativa para a integração, divulgação e conservação dos elementos de cultura, tradições e hábitos sociais da comunidade. Ao invés de integrar a comunidade, contribui para desagregá-la. IHU On-Line – O filme “Uma onda no ar” (*), de Helvécio Ratton, retrata a construção de uma rádio comunitária, a Favela FM de Belo Horizonte. Qual é a importância que esse trabalho tem hoje para as ciências da comunicação brasileira? Cláudio Antonio Guerra - Minas Gerais tem uma contribuição importante na disseminação das rádios comunitárias. Da cidade de Uberaba, em meados da década de 1990, um juiz federal concedeu várias liminares para a instalação e funcionamento de rádios comunitárias, contribuindo sobremaneira para o aprofundamento do debate e estimulando muitas comunidades a instalar o seu serviço de radiodifusão comunitária. O filme “Uma onda no ar” é analisado por muitos como uma discussão sobre os problemas da favela e também sobre o preconceito racial. Eu vejo o filme mais como uma contribuição ao debate em torno do problema da exclusão social, independentemente de serem favelados e negros. O primeiro preconceito é o de classe, depois vem o resto. O filme traz uma mensagem de resistência e toma partido. Nessa luta é preciso tomar partido. IHU On-Line – Quais são, hoje, os principais problemas de ordem técnica para viabilizar a plena operação das rádios comunitárias no Brasi? Cláudio Antonio Guerra - Pelo menos até agora eu não vejo problemas de ordem técnica na operação das rádios comunitárias. Um equipamento razoável e uma antena bem situada – coisa que está ao alcance de qualquer comunidade organizada – responde bem à necessidade da população. Veja bem, ninguém aqui pretende falar para o mundo, se isso acontecer é conseqüência. O que a comunidade pretende é ter voz, ser ouvida, falar entre si, comunicar-se. (*) Uma onda no ar é a história da criação e do desenvolvimento da Rádio Favela de Belo Horizonte – “a voz livre do morro”, como a chamavam seus idealizadores. A rádio pirata entrava no ar todos os dias no horário do programa estatal A Voz do Brasil. A tática e o amplo alcance dos transmissores da rádio, que mandavam suas ondas bem além da favela, incomodavam as autoridades. Jorge, um dos idealizadores da Rádio, que é negro e morador da favela, acaba sendo perseguido e preso pela polícia. Atrás das grades, é questionado por outro detento sobre como foi a criação da Rádio. Começa uma história de luta, resistência cultural e política contra o racismo e a exclusão social, em que a população da favela encontra uma importante arma: a comunicação.

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