Das últimas salinas artesanais

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Das últimas salinas artesanais

Nos envia o amigo Bevenuto Paiva uma cópia de artigo [janeiro/1980] publicado na coluna Aldeia Global de um jornal paranaense. As anotações sobre Macau são do pesquisador Jorge Baleeiro, autor do livro Os Dez Brasis [2008] que esteve em Macau em 1980 e foi ciceroneado por Bosco Afonso que à época fazia parte do secretariado da Prefeitura de Macau.

O artigo é interessante uma vez que trata do método artesanal de produção do sal.

COLHEITA DO SAL – Para que haja cristalização do sal, diz Hermínio da Silva, feitor, é preciso que a água passe por alguns processos. Ele começa nos cercos, depois passa para os chocadores – em número de doze [no caso da Soledade]. São quadriláteros de 60×40 ou 60×60 (varia muito), em que a água entra com 4 graus centigrados e sai, já no último “chocador” Com 25,5 graus, no máximo – destes ele vai para os cristalizadores, em número de seis, atingindo um máximo de 29° centigrados, dali sai para o aterro em são formados os “SERROTES” – montículos de sal. Os cristalizadores são divididos por passadiço, passando o canal de alimentação, quase sempre perpendicularmente a eles. Hoje, com o obsoletismo do catavento, cujo uso foi abandonado até mesmo pelos salineiros artesanais, salvo raras exceções, são usadas bombas movidas a óleo para levarem a água das “LEVADAS” – canal de desvio do rio, pequeno rego para captação d’água. Ao seu lado, ainda se encontram cataventos desativados.

 

CG – 1983 – Salina Soledade, Carro de mão

PRODUÇÃO P/SALINEIRO – Um salineiro, em média, consegue transportar para as rumas 180 alqueires de sal por semana. Um alqueire são 36 cuias ou cento e cinquenta quilos. Ele deve considerar os 150 quilos (um alqueire) desde o momento de cristalização, que pode levar, desde a entrada nos chocadores até a saída dos chocadores, até 90 dias. Um alqueire de sal está sendo pago a 32 cruzeiros. O salineiro bom de serviço pode ganhar até vinte mil por mês, tirando deste salário o que foi gasto no “barracão”.

HORÁRIO DE TRABALHO – Seu Hermínio, feitor da Soledade, fala sobre o horário de trabalho dos salineiros com certa jocosidade: “Esse pessoal não descansa na época da colheita” (que vai de setembro a janeiro – período semiárido altamente favorável, segundo os salineiros, á colheita. Nos meses de “inverno” – agosto a fevereiro – os salineiros se dedicam ao trabalho de conservação  das instalações das salinas, o que equivale a dizer que a mão de obra fica ociosa. Como não há vínculo empregatício, carteira assinada, etc… nas salinas, nas poucas que restam, os salineiros vão se dedicar a pesca ou á agricultura). Eles trabalham quase que direto. Pegam de seis da manhã, largam ás dez e meia para o almoço (carne de gado, farinha, arroz, feijão; voltam ás 13,30, deixando o trabalho ás 17,30, depois voltando quando a lua tiver saído ou, ás vezes, trabalhando com o auxilio da piraca (lamparina a óleo). Como são poucos os meses de colheita, é preciso trabalhar o máximo para tirar o dinheiro limpo, depois de pago o barracão, que leva quase a metade do salário. “A feira não sai por menos de dois mil por semana…”.

CG - 1983 - Salina Soledade, Trabalhadores quebrando o sal

ÓCULOS “RAYBAN” / FIM DAS SALINAS ARTESANAIS – Para proteger os olhos do sol, os salineiros usam hoje óculos “rayban”, adquiridos nas feiras. No barracão, redes amarradas umas por cima das outras, como no caso da Soledade, eles descansam “umas horas”, já que não tem tempo para dar uma atenção ao corpo. Velhos salineiros, já aposentados pelo FUNRURAL, fazem lembrar as palavras de Caio Porfirio em “O SAL DA TERRA”: Homens licenciados de tarefas, vítimas da corrosão, padecem as inchações dos maxixes e calos brancos, arrastando-se pelas sombras do paios,estourando bolhas e coçando brotoejas, sonolentos, modorrados, largados, como atacados por lepra. Se demorasse mais uns dois anos, diz-se Dr. Raimundo e confirma João Bosco, ambos macauense, era bem possível que você não tivesse a oportunidade de testemunhar o declínio das salinas artesanais e ficaria , então sem ver “As pilhas de sal fresco e cristalino, recolhidas das safras, embelezando os aterros. Ali dormindo meses, enfrentando ventos e chuvas (raras), aguardando vez de serem demolidas pelas picaretas e tragadas pelo moinho” nem veria as “águas-mães.

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