A Heroína do Farol

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A HEROÍNA DO FAROL

Ao entardecer, eis o que teria registrado um observador sagaz: a “barcaça da CCN”, impelida pela corrente, descia o curso do Rio Açu com uma rapidez admirável, subjugando a quietude e dispersando o céu vermelho em brasa espelhado nas águas cinza e caudalosas… Era Macau…
Do pátio do “Grupo Escolar Duque de Caxias”, Dona Lourdes Ferreira, professora afeita ao ensino primário, fazia dobrar um pequeno sino de bronze, anunciando o término das aulas.
Aquele repique sinalizava o início de uma algazarra desmedida, diante da pressa que todos se davam em sair imediatamente no afã de alcançar o solar da família Cariello.
Relíquia de uma época de prosperidade e testemunho histórico da fundação da Cidade, o suntuoso prédio dos Cariellos ostentava em sua fachada principal imensas portas de cedro que a certa distância deixavam escapar o manifesto contraste em relação a nossa pequenez.
Ficávamos esperando, sentados na calçada do solar, a imprevisível passagem de Senhorinha.
– Será que ela vem? – indagava ansioso um dos meninos…
Inquietava-nos aquela espera…
Senhorinha era uma mulher que não vivia a nossa sanidade… Às tardes passava por ali de um modo faceiro e indiferente. Aparentava pouco mais de cinquenta anos. Os cabelos ralos e assanhados, o corpo franzino e as vestes surradas formavam um conjunto harmonioso, assemelhando-a a uma “boneca de pano”. O rosto abusivamente maquilado deixava ressaltar o batom vermelho que lhe cobria além dos finos lábios, dando-lhe uma expressão de graça e singular beleza.
Pronto, o circo estava armado! Bastava alguém gritar: – “Senhorinha tá sem calça!” – E ela, com gestos debochados e hilariantes, levantava a saia, deixando-se “mostrar as calças”.
Era um delírio… Aquela cena se repetia inúmeras vezes, até Senhorinha desaparecer no final da rua cantarolando, bamboleando e suspendendo a saia.
Diz-se que Senhorinha foi a primeira mulher a mostrar a bunda ao público… Senhorinha, raramente, “usava calcinha”…

Natal/2002.
Saddock

 

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