Memórias da água em Macau [1]

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Memórias da água em Macau

AD, ?1950/60, bote de aguada, arquivo Getúlio Moura

Na obra mais completa sobre a história de Macau, “Um Rio Grande e Macau”, o escritor Getúlio Moura destaca nas páginas 128 a 132 o problema da água doce. Ilustrando o tema com várias fotografias de diferentes épocas, como a rampa em 1930 na chegada dos “botes de aguada”, a perfuração de poços e o poço da Marechal. Foram várias tentativas para tentar resolver o problema da água, mas, tudo foi em vão. O problema só foi resolvido em 1982, graças ao Projeto Alcanorte que previa a extensão do serviço para o abastecimento de Macau. Há pouco tempo um estudo do IFERN [ex-CEFET] apontou vários problemas na água do rio Açu, desde coliformes fecais até resíduos de inseticidas usados nas plantações do vale. O problema continua sério. E a CAERN diz o que? O assunto foi notícia [2/11/2009] no blog do Renatão [Revista Caros Amigos].

 

Desde o início da colonização, a água doce sempre foi um problema para a região salineira. O rio que banha Macau só é doce nas cheias do período das chuvas, o “inverno” nordestino, que é de chuvas e não de frio. Depois, a água do mar penetra vários quilômetros rio acima, o que favorecia o comércio ribeirinho. São famosas as charqueadas no vale do Açu. E o Porto do Carão era um entreposto movimentado até a década de 30 do século passado. As Oficinas, em Pendências era o local de charqueadas muito conhecidas.

AD, ? 1950/60, povo aguardando a chegada do bote de aguada, arquivo Francisco Gama

Em 26 de agosto de 1916 o Jornal de Macau registra o seguinte fato: “Dos estaleiros do Valladão foi lançado n´água, em o dia 20 do corrente a grande lancha Araçagy propriedade do digno e operoso cidadão, sr. Major Onofre Pinheiro.” O barco tinha capacidade para 21 toneladas e carregava 200 barris e quintos cheios de água para o abastecimento da cidade.

 

Em 10 de fevereiro de 1917, o Jornal de Macau em seu editorial também fala sobre o problema d´água, criticando o poder público em relação à perfuração de poços. Diz um trecho do editorial: “…duas palavras com referencia à extravagante perfuração de poços que já.. . tão desastrosas foram a marcha e direcção desse serviço entregue quasi sempre a pessoal reconhecidamente incompetente… que nenhum resultado satisfactório, absolutamente nenhum, d´elle colhemos”.

Em 18 de janeiro de 1919, portanto há mais de 90 anos, o jornal macauense “O Imparcial”, de nº VII no seu ano II o articulista falando sobre o problema da água diz o seguinte: “mendigamos com dinheiro nas mãos a esmola de uma ancoreta d´água para acalmar a eterna sede devoradora”. E continua, “ a cidade recente-se de um reservatório d´água”. E diz ainda que quando a água chega o barril d´água é disputado em meio a “sopapos e algazarra”.

Em 1 de março de 1919, “O Imparcial” de nº XIII no seu ano II, registra uma greve dos aguadeiros.

Registra também que o quinto d´água foi fixado em $600 pelo Presidente da Intendência em 1919.

Mas a falta d´água também era vista com bom humor. Uma característica do macauense, em meio às dificuldades e sofrimento.

E o poeta Pantaleão registra em versos o problema da falta d´água:

Diz o articulista: “Ainda se ouve a celeuma do povo por causa da falta d´água. Pantaleão tem uma idéia salvadora…”

 

“Alinhar! Marchar em frente!

Batalhão! Accelerado!

É o meu brado enthusiasmado

À frente da minha gente

 

Falta d´água por aqui?!…

Mentira! O pote está perto!

Marche-marche! A bica é alli…

No botequim do Adalberto!”

 

Não é preciso dizer que Adalberto só vendia cachaça!

 

Em 10 de maio de 1919 – nº XXIII – Ano II, O Imparcial registra entre as soluções para a falta de água na cidade, a “Canalização da água de Mangue Seco”.

Em 24 de maio de 1919, nº XXV – Ano II, registra que “o barril estourado e o líquido disputado por crianças e adultos, apanhando nas mãos e nos chapéus” a água de beber. ´

 

Claudio Guerra, 1982, poco da Marechal, arquivo o bau de macau

Em 24 de dezembro de 1949 o jornal A República, nº 282, de Natal, registra que foi perfurado mais um poço tubular em Macau. O telegrama do prefeito de Macau ao governador José Varela diz o seguinte: “Tenho maior prazer comunicar vossencia, segundo poço praça Bandeira, profundidade 170 metros, jorrando água com abundancia e perfeitamente potável. Povo radiante acontecimento louva benemérito governo vossencia que possibilitou tão impar benefício.

Cordiais Saudações

Albino Gonçalves de Melo, Prefeito”.