Memórias da água em Macau [2]

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Memórias da água em Macau, Rio Grande do Norte

Getulio Moura, Diogo Lopes, arquivo GM

1] Depoimento em julho de 2004 de Maria Madalena Damasceno, 52 anos, nascida em Diogo Lopes Ela guarda boas lembranças da água do lugar. Sua mãe, dona Cora vendia água que era tirada de um cacimbão nas encostas das dunas. O lugar era conhecido como o Tanque de Cora. Esse tanque ficava próximo das casas das pessoas tradicionais do lugar, José de Elvino, comerciante e Luiz Gaspar, marceneiro naval. Ela se lembra também que o bote que levava água para Macau tinha o significativo nome de Fé na Providência. Maria “Bela” se lembra também de outros locais que forneciam água naquela época, como o Tanque de João Ernesto que ficava próximo da casa de Manoel de Exu, pescador já falecido e pai da professora Arlete. Das lembranças de Maria Bela que à época deveria ter de 8 a 10 anos, a água aflorava com uma areia bem fininha que as pessoas vinham apanhar para dar brilho [arear] nas panelas. Lembra-se que vinha gente até de Barreiras buscar a areia. Recorda-se também que eram muitas embarcações que vinham apanhar água para levar para Macau. Já aos 12 ou 14 anos diz que não existia mais o cacimbão que foi sendo aterrado aos poucos e a água deixou de aflorar.

2] Depoimento em agosto de 2004 de Claudio Antonio Guerra, 54 anos. Ele diz que quando chegou em Macau em dezembro de 1981 foi morar numa casa da Rua São José que tinha uma cisterna no quintal. De início achou estranho, mas depois verificou que quase todas as casas tinham cisternas ou tanques, pois era uma necessidade básica para uma cidade que não possuía água encanada. O Banco do Brasil pagava para os funcionários a conta da água, tanto a mineral, como a trazida pelos caminhões que abasteciam as cisternas. A água era retirada do Rio Açu, na altura de Pendências e transportada por caminhões adaptados com tanques. Dos tanques e cisternas, os que tinham condições instalavam uma bomba e mandava a água para a caixa d’água de onde era distribuída para toda a casa. Os que não podiam usavam a água diretamente dos tanques, com o uso de baldes e bacias. Foi assim até a inauguração do serviço de água de Macau em 1982.

Barreiras, 1938

Claudio fala também do distrito de Barreiras. Diz que em Barreiras em 1982 lembra-se da casa de Arimatéia Gomes [seu concunhado], a oeste do povoado, no lugar chamado “Chico Martins” que também tinha um tanque de tijolos que era enchido com a água de um cacimbão da propriedade situado na encosta do terreno na descida para a praia. No povoado existiam vários poços nas encostas. As águas das chuvas acumulavam-se nas dunas que se transformavam em grandes barragens submersas entre 3 a 6 metros de profundidade, depois da areia dunar, encontra-se uma camada de subsolo argiloso que impede que a água penetre mais fundo, formando assim um grande colchão de água.

Tanto a Cia Industrial do Rio Grande do Norte [CIRNE] como a Henrique Lage Salineira possuíam terrenos na região de Barreiras e Diogo Lopes onde construíram cacimbões para suprir a necessidade de água de suas indústrias. Possivelmente na década de 50 a então Companhia Comércio e Navegação adquiriu dois terrenos em Barreiras onde construiu cacimbões.

O senhor Francisco Silva, mais conhecido como Nininho e que faleceu há alguns anos trabalhou nos botes aguadeiros que levava a água de Barreiras para Macau. O serviço era mantido pela prefeitura de Macau. Ele afirmava que a melhor água da região era a de Ponta de Pedra, possivelmente o terreno que era ou ainda é da Henrique Lage e que ficava próximo da casa de Francisca da Prolar, entre Barreiras e Diogo Lopes. No lugar conhecido como “Oco da Cobra”, em Barreiras, na década de 80 eu me recordo de ter visto cacimbões cavados na beira da maré.

Claudio é proprietário do terreno que pertenceu à antiga Companhia e Comércio. No terreno existem vários cacimbões interligados, que jorram ininterruptamente, inclusive nos anos mais secos. Nem nos períodos mais longos de estiagem eles deixaram de jorrar. Estes cacimbões interligados, por gravidade, mandam a água para uma cisterna na parte mais baixa do terreno próximo à praia. A cisterna tem aproximadamente 90 mil litros. Dali, também por gravidade, a água era canalizada para o meio do braço de mar [rio] onde os barcos ancoravam para pegar a água e levar para Macau. Claudio diz que quando comprei o terreno em 1982 não existia mais os canos para a maré, mas ainda tinha um carnaúba fincada no meio do braço de mar, no local onde os barcos ancoravam. A qualidade da água nunca foi muito boa para beber. É uma água um pouco dura.

Em 15 de maio de 1984 Claudio firmou com a Prefeitura de Macau [Prefeito José Oliveira] um contrato de comodato por prazo indeterminado cedendo gratuitamente o uso da água. A Prefeitura com recursos do DNOCS construiu alguns chafarizes no distrito de Barreiras e bombeava a água da cisterna para os chafarizes. Com o tempo, muitas pessoas fizeram derivações para suas casas e passaram a ter água encanada. Claudio diz ainda que sempre insistiu com a Prefeitura para fazer o tratamento da água antes da distribuição, mas nunca foi atendido. Em meados de 1997 Claudio firmou um novo contrato com a Prefeitura de Macau [Prefeito José Antonio] que passou a pagar R$600,00 mensais pelo uso da água. O contrato durou até o final de 2004, quando o serviço de água encanada instalado e mantido pela CAERN passou a funcionar normalmente. Atualmente a água está servindo apenas para a aguação das plantas do terreno.

3] Depoimento em novembro de 2009. O agitador cultural, o macauense João Eudes Gomes lembrou-se de duas passagens políticas partidária sobre a água. A primeira na campanha para prefeito e que Amon Melo era candidato e um correligionário fez uma marchinha que dizia o seguinte:

 

Água, água, água

Água seu governador

Você prometeu a água

E a água não chegou.

Enganador.

 

Em 1982 quando foi inaugurado o serviço de água em Macau, o prefeito era José Oliveira e resolveu dar o troco, encomendando uma música sobre o tema a José Alves da Silva, o conhecido Zé Gilete que compôs uma música cujo refrão dizia:

 

Taí a água que você queria

Para beber

Tigibú do cão.

 

Getulio Moura, 2007, Diogo Lopes, arquivo GM

 

Nesse tempo, não havia ódios em Macau. Haviam adversários políticos e tudo era levado na brincadeira, na gozação.

4] Depoimento em novembro de 2009. A professora e pesquisadora da base de leitura e escrita da UFRN, a macauense Maria do Rosário, também se lembra do grande problema da água em Macau e das inúmeras promessas dos políticos para resolver o problema. Lembra-se de uma outra versão da marchinha da campanha de Amon Mello, que dizia assim:

 

Água, água, água

Água seu governador,

Lá na minha casa,

Água não chegou,

Seu doto!.