Memórias da água em Macau [4]

Da obra Macau Canto de Amor e Saudade, de Aparício Fernandes

AD, ? 1950/60, Rio Açu, arquivo Leão Neto

Já existe o abastecimento de água à cidade, … o que antigamente era apenas um sonho constantemente adiado. Quem, como eu, presenciava diariamente o sacrifício da população, comprando e carregando latas de água para suprir as necessidades de seus lares, pode aquilatar da importância desse progresso. Nossa família não viveu esse drama porque meu pai construiu, no quintal de nosso sobrado, uma enorme cisterna, capaz de nos abastecer durante anos, mesmo que escasseassem as chuvas cujas águas eram colhidas na cisterna. … Outro progresso foi a energia elétrica ininterrupta. Quando eu morava em Macau, a energia elétrica estava restrita ao horário que ia das 18 às 23 horas. Dez minutos antes das 23 horas, a usina de energia elétrica da Prefeitura avisava que a luz ia se apagar, e o fazia através de um sinal que todos conheciam: as luzes diminuíam de intensidade até quase se apagarem e esse aviso era repetido três vezes seguidas. Quem ainda estava acordado corria para a cama ou então preparava as velas ou os candeeiros a querosene, porque daí a pouco não haveria mais luz. Isto, diga-se de passagem, quando o motor de luz não resolvia quebrar a sua famosa cabeça, que só podia ser consertada em Natal, o que significava um ou dois meses com total ausência de energia elétrica.  p. 46/47