Saudades

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Francisco Rodrigues da Costa nasceu aos 26/4/1933 e Areia Branca-RN.

De Areia Branca, também terra de salinas e salineiros, as belas cronicas do escritor Francisco Rodrigues da Costa de vários apelidos, mas que prefere Chico de Neco Carteiro, em homenagem ao saudoso pai.

Conheci o escritor Francisco Rodrigues da Costa através do doutor Davi, da UERN numa destas tardes gostosas do Barro Vermelho. Conversa agradável sobre as terras salineiras e Chico me presenteou com duas de suas obras. Chico tem qualidades ímpares: uma alegria contagiante, memória privilegiada e o dom da cronica. É começar a ler a não parar mais. São crônicas de Areia Branca, mas que poderiam ser de Macau, dada a semelhança entre as duas cidades: sal, salineiros, barcaças, estivadores, profunda religiosidade e um bom número de cabarés. Numa das suas belas crônicas Chico fala sobre o Beco da Galinha Morta lamentando o “olvidar os logradouros” da sua infância. Os macauenses também têm muito a lamentar, pois em Macau, o Beco das Galinhas há muito têm outro nome, a rua da Gameleira mudou para um Marechal, a do Boi Choco, para um político e vai por aí. Em Natal, no Alecrim fizeram homenagem a todos os presidentes da província norte riograndense, mas deixaram o nome anterior. Na placa da Avenida Presidente Bandeira, está lá, Avenida 2. Assim a memória fica preservada. Poderiam fazer assim em Macau e Areia Branca.

Para o deleite dos nossos visitantes selecionamos a crônica “Bairrismo doentio”, onde o cronista fala das semelhanças entre Macau e Areia Branca. De Claudio Guerra para o baú de Macau.

da obra Saudades; autor: Francisco Rodrigues da Costa

Sarau das Letras Editora Ltda. 2005, Mossoró-RN

 

Bairrismo doentio

A convicção de que tudo de Areia Branca era melhor do que em qualquer cidade do seu porte me acompanhou desde cedo: o rio em Mossoró, por exemplo, só enche em período invernoso. Em Areia Branca, a maré, nosso rio, enche e vaza todos os dias. Em Caraúbas ou Assu se faz a feira uma vez por semana; na nossa cidade, diariamente se “faz o mercado”.

Através do Telégrafo conheci pessoas e costumes de outras cidades. E o rosário de comparações eu ia desfiando: Seu Chico Souto, nosso único milionário daquele tempo, tinha sua riqueza comparada com a dos Fernandes e Rosados, de Mossoró; com a de Tomaz Salustino, de Currais Novos; com a de “Vem-Vem”, de Assu; e, segundo meu julgamento “imparcial”, com suas salinas, barcaças e fazendas, seu Chico ganhava de todos numa disputa de “um e um”.

Os telegramas, taxados mensalmente em Areia Branca, alcançavam a casa dos novecentos. Aracati, Assu e Macau também atingiam este número. Eu ficava naquela torcida quando chegava um telegrama de uma dessas cidades para ver como ia o escore.

Macau foi a espinha atravessada na minha garganta. Cidade de economia e costumes idênticos aos da nossa, era a concorrente perfeita. Nós tínhamos salinas, lá também tinha. Estivadores, barcaceiros, conferentes de sal e até uma rua do Meio, Macau empatava.

Nós tínhamos a “Unidos” e a “Casqueira” (barcaças boas de bordejo), eles tinham a “Mabel” e a “Tainha”. Se em Areia Branca seu Alfredo Rebouças ou seu Aristides Siqueira, agentes da Cia. Comércio e Navegação, bebiam a água de Santos-SP, trazida pelos navios, em Macau seu Manoel Casado, superintendente da mesma firma, ali também bebia esta água, tão boa quanto a de chuva. Era um pau-a-pau dos seiscentos diabos, tipo Fla-Flu no tempo em que o Rio de Janeiro tinha futebol.

Salicultores de Mossoró Macau Ltda. (SALMAC), firma estabelecida em Areia Branca por volta de 1946/47. Mossoroenses e macauenses seus sócios. Nenhum areia-branquense. Eu ficava “mordido” de raiva. Areia Branca tinha no seu tráfego marítimo os rebocadores “Mossoró”, “Macau” e “São Miguel” e a lancha “Natal”, nenhum barco com o seu nome; parecia um propósito contra o bairrismo do apaixonado bairrista, arre lá!

Seu Jorge Caminha deixa a prefeitura, cumprindo o seu período administrativo. Importamos um prefeito, seu Araújo. Sabe de onde veio ele? Imagine… de Macau! Era a pura sacanagem contra o incurável bairrista, “vôte diabo”.

Meio século que saí de Areia Branca, o bairrismo aplacou, mas não morreu. Vez por outra lhe faço uma visita para rever contemporâneos e matar saudade. A gente mata a saudade ou é ela que mata a gente?

Numa dessas idas percorro as ruas Cel. Fausto (rua do Meio), Joca Soares (rua da Frente), Francisco Ferreira Souto, antes Silva Jardim, (rua de Trás), 30 de Setembro (rua do Progresso), e tantas outras. Todas calçadas e bem cuidadas. Aí não tem jeito: um mergulho no passado, através de trechos do Quarto Ponto de Civismo, bem decorado no quarto ano do Conselheiro Brito Guerra: Areia Branca é como tantas outras localidades do Brasil. É um presente do mar. É uma cidade modesta pior fustigada por sua nuvem de pó que o vento, estouvadamente, levanta em suas ruas como um desafio aos homens públicos para que lhe inaugurem seu primeiro calçamento.

O vento sopra, mas agora a nuvem de pó já não se levanta… Finalmente, meu Deus, um triunfante sorriso nos meus lábios. É o bairrismo ainda vibrando.

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