Ilha de Cristal – Professor Iveraldo Guimarães

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De volta da Ilha de Cristal do biólogo e professor Iveraldo Guimarães. Excerto do texto publicado no Jornal de Macau nº 27, p. 6, junho/96.

 

“[…] Esse sal nosso de cada dia nasceu da estranha união de um gás amarelo-esverdeado, o cloro, com um metal esbranquiçado, o sódio, cujo átomos reagem na proporção de 1:1. União que se dá principalmente, a partir da reação de ácidos e bases ou da queima do Sódio metálico numa atmosfera de Cloro gasoso. Depois da gênese dos mares, os rios levaram para eles, desde os continentes, parte dos sais que os tornariam salgados. O Cloreto de Sódio, no entanto, surgiu em maior quantidade dos subterrâneos infernais do planeta, expelido através das fendas abertas em sua crosta para diluir-se naqueles mares primordiais. Esse sal de origem tão medonha pode ser encontrado hoje nos oceanos [85% de todos os sais em solução], nos continentes, no interior da Terra, no corpo dos organismos. Quantod o homem há dez mil anos, inventou a agricultura, a pecuária, e as comunidades rurais, também iniciou a exploração do sal e seu uso deliberado, intensificando-o ao longo de sua história. E nessa evolução, os romanos com ele preservavam, davam sabor à comida e curavam os ferimentos. Consideravam-no então, uma dádiva da deusa da saúde – Salus, de quem retirou-se o nome sal. E com o sal pagavam pagavam aos guerreiros o soldo… Ou salário. Além de ter sido uma forma de dinheiro, o cloreto de sódio sempre assumiu importantes funções no equilíbrio hídrico dos seres vivos. Entretanto se ele apresentar-se em excesso no ser humano, pode provocar derrames cerebrais ou ataques cardíacos, e quando na carência do Sódio, advém a fraqueza, a apatia, náuseas, câimbras. Mas o homem foi dominando a fera branca e dela retirando as bases químicas para beber água potável, clarear o papel, fabricar tíntas, vidros, vernizes, cosméticos, porcelanas, plásticos, explosivos, tecidos, películas, PVC, anestésicos… Enfim, forjar o mundo moderno. Se o sal gerou conflitos e passou a significar esterilidade, adquiriu a crença de purificador nos rituais religiosos. Se foi um símbolo de monopólio ao longo dos séculos, também foi um estandarte de liberdade nas mãos de Ghandi. É realmente de fascinar! E fascinado continuei ali diante das montanhas brancas que se desmanchariam com o tempo para atender às necessidades humanas. Necessidades que forçavam o homem a ir buscar o sal nas profundezas do planeta [ o sal-gema] ou no processo das salinas. Em Macau aquela atividade começara há séculos, e dos caixotes de sal carregados nos ombros calosos até as esteiras transportadoras, ficaram histórias de trabalho inumano e a lembrança nostálgica de uma ilha cheia de moinhos de vento e cristais […]”.

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