Ler??? … Com prazer!

0

 

Há muito venho alimentando o desejo, e por que não dizer o sonho de escrever acerca da leitura de obras literárias como contributo a pais e educadores no que concerne à importância do ato de ler enquanto prazer. Prazer este que possibilita o cultivar a ternura, hoje tão distante dos pobres corações humanos, neste mundo excessivamente prosaico. A minha ligação com o livro sempre foi apaixonante, tanto quanto é a minha paixão pelas causas da educação. Daí esta preocupação constante em discorrer sobre um tema tão polêmico: a relação leitura versus literatura.

Para a abordagem do tema “Ler com prazer”, gostaria de inicialmente me ater ao fragmento do poema de Fernando Pessoa:

 

“Ai que prazer

não cumprir um dever.

Ter um livro para ler

e não o fazer!

Ler é maçada,

estudar é nada.

O sol doira sem literatura.”

 

A princípio pode parecer um contra-senso a escolha destes versos para falar de uma atividade tão prazerosa – a leitura da literatura. No entanto, a escolha foi intencional e só vem corroborar com o tema ao qual me propus.

Ler não é maçada se o ato de ler estiver desvinculado de uma obrigação, de um tarefa a cumprir. Se se constituir num momento de prazer, de entrega, onde o texto é o espaço em que autor e leitor dialogam de forma surpreendente, numa cumplicidade que resulta na construção das diversas significações que a escrita literária possibilita.

Ler é sempre um ato criador, pois nos obriga a redimensionarmos o estabelecido e, assim, nos proporciona um novo modo de perceber o mundo circundante.

Ler não significa apenas a decodificação de palavras impressas. Ler significa dar sentidos ao texto lido.

A partir desta concepção de leitura, entendemos que para a eficácia de seu aprendizado faz-se necessário a todos os que se propuserem a ser formadores de leitores o proporcionar ao leitor iniciante um material de leitura que tenha significação para o mesmo. É neste momento que a leitura da literatura deve marcar a sua presença. Presença esta respaldada pelo ludismo que permite a fruição do texto literário. E fruir o texto significa descobrir a vida enredada em suas malhas. Significa perceber a realidade de forma mais palpável através da impalpável trama da linguagem.

Para ler o texto literário com prazer é preciso fazer desaparecer as fronteiras entre a realidade, o imaginário e a linguagem. A linguagem é o real e o imaginário é também o real enquanto expresso pela linguagem.

A linguagem literária, portanto, devido ao seu nível simbólico, permite ao leitor o seu descentrar-se no momento em que lhe possibilita um alargamento no seu grau de compreensão em diversas direções. Logo trabalhar o texto literário equivale a trabalhar o viver com a imaginação.

 

“Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

depois abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.”

Cecília Meireles

 

Jornal de Macau, Ano II, nº 22, dezembro/1995.

Folha de Macau, Ano II, nº 20, dezembro/1998.