E viva a poesia!!!

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O que é poesia? Vocês devem estar se indagando? E outra indagação advém desta: por que poesia num jornal?

E eu modestamente, na minha condição de professora de literatura e amante da poesia, lhes respondo – porque a poesia é vida; porque a poesia não consiste apenas num ajuntamento de palavras, mas sim no poder das sensações que sua organização, enquanto discurso, provoca no leitor.

Falar sobre poesia sempre foi para mim uma fascinação, mas falar de poesia é extremamente difícil. Por isso recorro, outra vez, a um poeta que faz parte integrante de minha vida de leitora – Fernando Pessoa e seu poema Autopsicografia.

 

“O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.”

 

Este poema nos mostra claramente a relação autor/poesia/leitor. Nele fica nítida a condição do discurso poético enquanto reconhecimento estético que o poeta faz do objeto real, no caso, a poesia em si.

A constatação da relação citada só nos é possível mediante uma leitura atenta do poema em questão. Num primeiro momento, o poeta nos fala acerca do ato criador e da relação estabelecida, através do código poético, entre autor e leitor quando explicitamente diz: “E os que lêem o que escreve.” Num segundo momento, utilizando-se de uma linguagem metafórica, discorre sobre o ato de criação poética, de sua ludicidade e do prazer que envolve o poema como podemos constatar na ultima estrofe através do jogo instaurado na escrita textual entre as palavras RAZÃO e CORAÇÃO a partir dos verbos GIRAR e ENTRETER.

A poesia é, portanto, uma energia que nos ataca e nos comove. Às vezes nos choca, mas também nos desperta, nos entusiasma ou entristece. Todas estas sensações por ele despertadas dependem muito de nós mesmos, de nossa capacidade e porque não dizer de nossa vulnerabilidade para sermos chocados, despertados, entusiasmados, entristecidos.

A poesia faz parte de um mundo em que os homens encantados, seduzidos, desprotegidos entram em contato com as fontes elementares das sensações. Em que os mesmos se apropriam dessas sensações e elaboram, a partir deles, uma nova percepção do mundo em que se encontram.

A poesia é uma linguagem que se realiza na tensão entre o silêncio e o dizer. A poesia é um meio de comunicar poesia.

E é através de um jogo de oposições e sentidos que Vinicius de Morais ao construir o seu “Soneto da Separação” nos comove e nos encanta, mas não nos entristece porque como dizia Pessoa “poesia é fingimento”. Fingimento este sinônimo de fabulação que nos seduz e nos deleita e que algumas vezes pode até mesmo nos entristecer. E mais uma vez relembro Pessoa – “Sentir? Sinta quem Lê!”

 

Soneto da Separação

 

“De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.”

 

Jornal de Macau – Ano II – nº 23, jan/fevereiro/1996.

 

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