O Lirismo pede passagem

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“Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói e não se sente;

é um contentamento descontente;

é dor que desatina sem doer.

 

É um querer mais que bem-querer;

é solitário andar por entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é cuidar que se ganha em se perder.

 

É um estar-se preso de vontade

é servir a quem vence, o vencedor

é ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como causar pode o seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo amor?”

 

Camões

 

O mundo prosaico em que vivemos atualmente me desafia a discorrer sobre um tema que a meu ver parece bastante sugestivo para repensar as relações do ser humano consigo mesmo e com o próximo.

Falar   em   lirismo   é   falar   em   poesia.   É   nos encantar com poemas que nos tocam pela força das sensações que nos repassam no tratamento estético dado aos sentimentos que movem o homem em sua trajetória pela vida.

O   lirismo   é   uma   maneira   toda   especial   de recorte do mundo e de arranjo de linguagem que se caracteriza como a expressão pessoal de um sujeito.

O soneto camoniano que apresentamos no início deste artigo está impregnado de um lirismo que submete   a   análise   do   sentimento   “Amor”   a   uma operação   de   fundo   intelectual   numa   perspectiva racionalista.

O   eu-lírico   esforça-se   por   conceituar   a natureza do “Amor” a partir de assertivas que se repartem em enunciados contrários que estabelecem o   caráter   paradoxal   do   sentimento   amoroso.   E   é interessante ressaltar que o poeta conclui o poema denotando   perplexidade   e   chegando   a   uma desconcertante conclusão acerca do efeito do amor nos pobres corações humanos, quando encerra o soneto com uma interrogação deveras pertinente.

Numa perspectiva histórico-dialética, a poesia lírica   em   decorrência   das   transformações   sociais ocorridas adquiriu peculiaridades concernentes ao seu momento de produção artística. Daí passarmos do   ego   racionalista   da   poesia   lírica   clássica   ao subjetivismo   sentimentalista   da   lírica   romântica   e posteriormente a um eu-lírico da poesia moderna, que vivendo numa época de crise e instabilidade sociais interpreta simbolicamente sua experiência histórica como perda da inocência e queda do paraíso. A essa realidade subjetiva de um eu dissociado corresponde uma realidade objetiva de um mundo em constantes mutações.

O sentimento é o fio condutor que perpassa a produção lírica desde sua origem até a sua atualidade e que se confunde com o amor-paixão, revelando não raro determinado grau de espiritualidade.

Ao lado do amor platônico e do amor místico marca sua presença o amor carnal. Portanto à lírica deve a poesia a conquista da liberdade de dizer sem limites e sem escrúpulos tudo que a fantasia sugere numa intimidade com o inconcebível e com o passível de transcender-se.

Para concluir, gostaria de oferecer estes dois poemas líricos para deleite dos leitores que terão sacudidos alguns sentimentos e emoções há algum tempo adormecidos.

 

“Pousa um momento,

Um só momento em mim.

Não só o olhar, também o pensamento.

Que a vida tenha fim

Nesse momento!

 

No olhar a alma também

Olhando-me, e eu a ver

Tudo quanto de ti teu olhar tem.

A ver até esquecer

Que tu és tu também.

 

Só tua alma sem tu

Só o teu pensamento

E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou

Ficou com o momento

E o momento parou.”

Fernando Pessoa

 

 

Soneto da Felicidade, de Vinícius de Moraes

 

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe e a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor [que tive]:

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito quanto dure.

 

Jornal de Macau, Ano II – nº 24 – fevereiro/março/1996.