Poesia também é irreverência

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Falar em irreverência no que tange à poesia é falar do risível, é falar da sátira, é falar da paródia, enfim é falar de um humor inteligente repleto de ironia. É mergulhar  no mundo infinito das formas poéticas que   tem   o   riso   como   oposição   ao   tom   sério   e   à expressão            de    um      modo       de    existência  pré-estabelecida pelo senso comum.

E   aqui   o   caráter   contraditório,   ambíguo   e incongruente do risível na poesia estarão presente nos textos literários de Gregório de Matos e Oswald de Andrade, que apesar de haverem escritos em épocas   diversas   e   de   forma   também   diversa, elegeram   em   determinado   momento   de   suas produções, o caráter irreverente da linguagem numa poética que satiriza e carnavaliza o discurso oficial e a ideologia vigente.

 

“Um branco muito encolhido,

um mulato muito ousado,

um branco todo coitado,

um canaz todo atrevido.

O saber muito abatido

a ignorância e ignorante

mui ufano, e mui farfante

sem pena ou contradição:

Milagres do Brasil são.”

Se Pica-flor me chamais,

Pica-flor aceito ser,

mas resta agora saber,

se no nome, que me dais,

meteis a flor, que guardais

no passarinho melhor.

Se me dais este favor,

sendo só de mim o Pica,

e o mais vosso, claro fica,

que fico então Pica-flor.”

 

“Eu com duas damas vim

de uma certa romaria,

uma feia em demasia,

sendo a outra um Serafim:

e vendo-as eu ir assim

sós, e sem amantes seus,

lhes perguntei, Anjos meus,

que vos pôs em tal estado?

A feia diz, que o pecado,

A mais formosa, que Deus.”

 

Gregório de Matos

 

Nestes três exemplos da poética de Gregório de Matos está nítida a ironia, bem como o humor com que   o   poeta   trata   temos   oriundos   e   inerentes   à experiência humana a partir do poder da linguagem dirigido à imprevisibilidade propícia à instauração do risível.

Na modernidade, cabe a Oswald de Andrade o trabalhar   paródia   como   recurso   estético   para ridicularizar e dessacralizar o discurso poético até então vigente no país, num exercício de linguagem em que esta se desdobra sobre si mesma numa espécie de jogo de espelho como atesta o poema aqui transcrito.

 

Meus oito anos

 

“Oh que saudades que eu tenho

Da aurora da minha vida

Das horas

De minha infância

Que os anos não trazem mais

Naquele quintal de terra

Da rua Santo Antonio

Debaixo das bananeiras

Sem nenhum laranjais.

 

Eu tinha doces visões

Da cocaína da infância

Nos banhos de astro-rei

Do quintal de minha ânsia

 

A cidade progredia

Em roda de minha casa

Que os anos não trazem mais

Debaixo das bananeiras

Sem nenhum laranjais.

 

E buscando irreverência na poética de Oswald, transcrevo alguns de seus poemas para o prazer dos leitores deste jornal.

 

Passionária

 

Meu amigo

Foi-me impossível vir hoje

Porque Armando veio comigo

Como se foras tu

Necessito muito de algum

dinheiro

Arranja-mo

Deixo-te um beijo na porta

Da garcionere

E sou a sinceridade.

 

Pronominais

 

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno.

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro.

 

Senhor Feudal

 

Se Pedro Segundo

Vier aqui

Com história

Eu boto ele na cadeia.

 

Vício na fala

 

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados.

 

Hollyood

 

Toda manhã para ganhar meu pão

Vou ao mercado, onde se compram mentiras

Cheio de esperança

Alinho-me entre os vendedores.

 

Oswald de Andrade

 

Jornal de Macau, ano II – nº 25, março/abril/1996