Poesia é… brincar com palavras

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Convite, de José Paulo Paes

 

Poesia

é brincar com palavras

como se brinca

com bola, papagaio, pião.

 

Só que

bola, papagaio, pião

de tanto brincar

se gastam.

 

As palavras não:

quanto mais se brinca

com elas

mais novas ficam.

 

Como a água do rio

que é água sempre nova

Como cada dia

Que é sempre um novo dia.

 

Vamos brincar de poesia?

 

Feliz foi José Paulo Paes neste seu poema “Convite” que já no inicia deixa nítido o caráter prazeroso da linguagem poética ao reconhecê-la como portadora de elementos lúdicos que proporcionam prazer ao texto.

É na poesia que o lúdico da linguagem se faz mais notório e por este motivo torna-se um apelo claro e evidente à sensibilidade infantil.

A própria construção do texto poético permite que o arranjo dos elementos sonoros encontram ressonância no das figuras de linguagem e construções gramaticais, bem como na disposição dos versos e das estrofes, possibilitando, assim, o jogo com as palavras e seus possíveis significados.

A lógica da poesia infantil está na sua aparente falta de lógica e na conseqüente comicidade que o ilogismo produz como efeito de leitura. Desse modo, o poema infantil possibilita o desafogo das tensões inconscientes e simultaneamente traz para o leitor mirim a segurança interior de que seu modo de lidar com o mundo, mediante o pensamento mágico e egocêntrico, é possível, mas deve ser vencido gradativamente pelo pensamento lógico e reflexivo.

Quando a criança atinge a fase de aprendizagem da linguagem verbal, a poesia infantil lhe proporciona o brincar com a sonoridade desafiadora das trava-línguas e das travas-trava, que são poemas que jogam com a reduplicação de fonemas de difícil articulação aliada a troca vocálicas e consonantais.

Um outro elemento da poesia infantil que permite a incursão no lúdico das palavras é o procedimento imagístico, principalmente no que concerne à parlenda e a adivinha encontra-se o poema de contra-senso que nada mais é senão um universo de representações caóticas. Veja o exemplo:

 

Amanhã é domingo,

pé de cachimbo;

Galo monteiro

Pisou na areia;

 

A areia é fina

Que dá no sino;

O sino é de ouro

Que dá no besouro;

O besouro é de prata

 

Que dá na mata;

A mata é valente

Que dá no tenente,

O tenente é mofino

Que dá no menino

O menino é valente

Que dá em toda gente.

 

O texto poético cria para o leitor um quadro de referências que tem sua autonomia e leva-o a construir uma situação de comunicação a partir, tão somente, dos próprios elementos textuais.

A poesia infantil possibilita a criança a se perceber como sujeito diverso do tu-ouvinte e a compreender a impessoalidade do “eu lírico” sem confundi-lo com o autor.

É interessante e importante observar que, desse modo, a mensagem vale por si mesma e provoca a relação entre o mundo da leitura e a leitura do mundo.

Vamos brincar de poesia?

 

A Patota, de Sérgio Caparelli

 

A patota

do pato

quis fazer

de pato

o ganso

o ganso

que era manco

mas pateta

não era

deu no pé

de bicicleta.

 

Valsinha, de José Paulo Paes

 

É tão fácil

dançar

uma valsa,

rapaz…

Pezinho

Pra frente

pezinho

pra trás.

Pra dançar

uma valsa

é preciso

só dois

O sol

com a lua

Feijão

Com arroz.

 

A casa, de Vinícius de Moraes

 

Era uma casa

Muito engraçada

Não tinha teto

Não tinha nada

Ninguém podia

Entrar nela não

Porque na casa

Não tinha chão

Ninguém podia

Dormir na rede

Porque na casa

Não tinha parede

Ninguém podia

Faze pipi

Porque pinico

Não tinha ali

Mas era feita

Com muito esmero

Na rua dos bobos

Número Zero.

 

Se um dia me der na telha, de Ciça

 

Se um dia me der na telha

eu frito a fruta na grelha

eu ponho fralda na velha

eu como a crista do frango

eu cruzo zebu com abelha

eu fujo junto com Amélia

se um dia me der na telha.

 

Jornal de Macau Ano II –nº 26, maio/1996