Literatura infantil… Uma agradável opção

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Muito se tem falado e debatido acerca do tema literatura infantil.

Pais e educadores se deparam com o problema: tem a criança o prazer de conviver com livros, de escolher o livro que lhe agrada, que lhe dá prazer, que atenda às suas expectativas? E a resposta para tal indagação se torna clara e evidente. Num país de terceiro mundo como o nosso em que educação e leitura não são prioridades, a maioria das crianças sequer tem a possibilidade de manter contato com livros de fantasia, livros prazerosos.

Infelizmente, a grande maioria das nossas crianças só vem a conhecer o objeto livro na escola. E só conhece e acha possível a existência de livros que completam o processo de alfabetização, ou seja, que possibilitam a aquisição da habilidade do ato de ler aqui entendido tão somente enquanto possibilidade de decodificação da escrita. E, assim, o livro se transforma em sinônimo de dever, de tarefa, de obrigação, de lição que o professor dá e tem que ser cumprida. Portanto, neste contexto, a atividade de ler jamais remeterá ao prazer, à fantasia, ao sonho.

Como mãe, como educadora e como leitora de livros de literatura infantil, entendo que a criança tem o direito de escolher, com toda liberdade e fantasia antecipada, o livro que quer e gostaria de ler.

Impor a leitura de um livro à criança é limitar seus sonhos, cortar as asas de sua imaginação, traçar caminhos para a fantasia… Enfim é exercer uma postura ditatorial e reacionária.

O texto literário é fruto de fantasias, sonhos, emoções, sensibilidade, criatividade e liberdade de espírito. E o livro de literatura infantil e, principalmente, fruto de jogo e brinquedo, de fantasia e arranjos mágicos. É, em suma, um jogo de inteligência, imaginação e liberdade proporcionado pelo trabalho integrado do escritor, do ilustrador e do diagramador.

A arte é recriação e expressão da realidade. Entretanto o artista recria a realidade mediante uma linguagem nova e imprevisível. E o livro infantil não se limita apenas a contar uma história, mas, sobretudo, pretende provocar prazer, ficção, sonhos e fantasias. Provoca também riso e emoção e induz o leitor-mirim a criar no ato de ler. Desse modo, ler um livro de literatura infantil é dialogar com o objeto- livro, com o brinquedo-livro, com a história contada, com a poesia lida.

Todos os pais e educadores devem desenvolver a sensibilidade para perceber a força do lúdico que faz o livro de literatura infantil uma caixa mágica de surpresa, uma viagem ao mundo da fantasia que faz a criança feliz. E a criança feliz será. Provavelmente, um adulto mais humano, mais terno, mais sensível, menos robotizado.

É preciso não temer que a liberdade, o sonho e a alegria se misturem com a fantasia. Para isso é importante que a escola faça do professor o estimulador da leitura.

Assim, compete ao professor/educador o dever de mostrar o livro para a criança, de ler para ela provocando descobertas, despertando o senso crítico, sugerindo recriações, abrindo espaço para o prazer e a curtição, estabelecendo, dessa maneira, uma relação íntima entre a criança e o livro.

A leitura pelo prazer é também uma forma de entender a vida, de compreender o mundo. É um complemento necessário a uma educação mais consistente, mais crítica, mais criativa, mais liberta.

E esse sonho poderá se tornar realidade quando houver mais livros nas casas, mais livros nas escolas, mais livros nas bibliotecas – livros de qualidade e incentivadores de leitura. Só assim teremos uma leitura por opção.

Pais e educadores, lutemos por isso. A causa do livro é uma causa justa se quisermos uma sociedade mais digna e menos opressora.

 

Jornal de Macau, Ano II –nº 27, junho/1996