Literatura infantil: um arco-íris na escola

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“Senhor, não quero mais ira a escola…

Prefiro escutar o que diz, à noite,

A voz alquebrada de um velho que conta, fumando,

As histórias de Zamba e do Compadre Coelho

E muitas outras coisas ainda…

E depois, é realmente muito triste sua escola,

Triste como… esses senhores bem educados

Que não sabem mais contar histórias.”

 

Guy Tirolien

 

A escolha destes versos de Guy Tirolien para a discussão do tema proposto, ou seja, da relação pouco amistosa da escola com a literatura infantil não oi gratuita, até porque vivendo numa sociedade dominada pela noção de rentabilidade a curto prazo e ainda por cima tangível e mensurável é extremamente difícil sensibilizar pais e professores para o encantamento e o deleite do contar histórias e do brincar com a poesia.

Há em nossas escolas a mentalidade por demais cristalizada de que o ensino deve ser “sério” e porque não dizer até mesmo austero, onde é preciso tão somente aprender a “ler”, a escrever e a contar. Por outro lado, a maioria dos nossos docentes desconhecem a literatura infantil; as escolas não dispõem de um acervo de obras literárias para crianças e, acrescente-se a isto, o fato de só recentemente os cursos de formação para o magistério haverem incluído em seus currículos a disciplina literatura infantil sem sequer dispor de uma bibliografia mínima para o curso a ser ministrado.

Atualmente, nas sociedade em que vivemos, não podemos ter a ingenuidade de pensar que o gosto das crianças seja espontâneo. Portanto, compete aos adultos, o iniciá-las no conto ou na poesia e é neste momento que a escola é convidada a ter um espaço reservado ao “Era uma vez” e ao “Abre-te Sésamo” que constituem um universo de liberdade e fantasia necessários ao processo de maturação da criança.

O fantástico reúne na criança toda uma visão animista do mundo e responde às suas necessidades psicológicas. É através da fantasia que a criança chega a uma construção racional, objetiva e científica do universo.

A vida da criança é toda dominada pela ludicidade e pela brincadeira e a passagem de uma crença inicial para a exploração lúdica dessa crença se dá de forma imperceptível, não devendo o adulto intervir neste processo de forma castradora. Pelo contrário, a imaginação, como a inteligência ou a sensibilidade, ou é cultivada ou se atrofia.

É preciso que o adulto [pai ou educador] tenha sempre em mente que razão e imaginação não se constroem uma contra a outra, mas sim uma pela outra. Não é castrando a imaginação criadora da criança que vamos torná-la racional, mas sim auxiliando-a a manipular essa imaginação criadora cada vez com mais habilidade e distância, o que supõe o papel de mediador do adulto e o diálogo. Para tanto, é de suma importância a leitura da história em voz alta, pois é esta voz que irá não só informar a criança, mas sobretudo auxiliá-la a traçar a linha de demarcação entre o real e a ficção, bem como a perceber o humor de um texto ao invés de torná-lo “ao pé da letra”, preparando-a para se tornar um verdadeiro, aquele que mergulha nas entrelinhas da leitura.

Infelizmente, na nossa escola a criança aprende a ler única e exclusivamente para ser capaz de reproduzir e reconduzir inalterados os modelos rígidos estabelecidos pela sociedade para a manutenção do status quo”. Entretanto, devemos repensar o papel da leitura na escola e a partir daí levar a criança a aprender a ler e a escrever para impregnar-se com a infinita diversidade do outro para, assim, tornar-se ela própria capaz de uma atitude crítica e criadora face ao mundo, à sociedade e aos demais homens.

O aprender a ler deve ser similar ao aprender a falar. Aprende-se a falar, ouvindo e falando e assim dever ser com o processo da leitura: aprende-se a ler ouvindo e lendo. Mas ouvir a ler o quê? Ouvir e ler textos de literatura infantil. Textos que encantam; que levam ao maravilhoso mundo da fantasia e do jogo. Daí concluirmos que a criança constrói social e ativamente o seu conhecimento sobre a leitura.

Pena que até o momento a escola não tenha percebido a relevância de tal conclusão. Para que isso ocorra, necessário se faz que o adulto procure antes de tudo ser um leitor e que coloque o livro à disposição da criança. Só assim esta passa a perceber o valor social do livro e a vê-lo como fonte inesgotável de conhecimentos. E é neste clima que o livro deve ser lido e relido pelo adulto, principalmente pelo professor que hoje assume mais uma atividade que também deveria ser compartilhada com os pais: a prática da socialização da leitura.

Mas como oportunizar esta prática, no cotidiano da escola a socialização da leitura?

“A priori” o professor/leitor deve instituir o que costumamos denominar “A hora do conto”, que objetiva levar à criança à leitura como momento de prazer e de descobertas. Nesta atividade o aluno tem a oportunidade de vivenciar a leitura como ato coletivo, social, para “a posterior”, viver o ato solitário da leitura, ter o prazer de ler sozinho, de se deleitar com o encantador jogo de palavras que constitui a trama do livro.

“A hora do conto” pode ser realizada de maneiras diversas em função dos objetivos propostos por cada professor para a formação dos pequenos leitores.

Quando o professor lê a história e não mostra a ilustração, pretende deixar espaço para que a criança crie suas imagens, preparando-a para a futura leitura de textos sem ilustrações. Se por outro lado, vai mostrando as imagens do livro às crianças, estas começam a inventar histórias atendendo ao objetivo que tem como meta levá-las a entender que também podem produzir seus próprios textos contribuindo para o processo de aquisição da escrita.

Quando o professor lê o texto e simultaneamente vai mostrando as ilustrações, pretende fazer com que o aluno/ouvinte acrescente às imagens criadas e possibilitadas pela leitura, as imagens criadas pelo ilustrador.

A atividade denominada “A hora do conto” também possibilita o interagir da criança com as demais formas de expressão artísticas: a música através do canto; o teatro, mediante a dramatização de determinadas histórias; a pintura através de desenhos livres.

Portanto, ler é muito mais do que criar sonhos inconscientes; ler é antes de tudo criar sonhos conscientes e a escola deve ser a janela aberta para o passeio por este arco-íris que é a literatura infantil.

 

Jornal de Macau, ano III, nº 29, setembro/1996