As fadas estão de volta

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Às vésperas de um novo milênio, a humanidade tem a surpresa e o prazer de se deparar com uma das   características   de   nosso   século,   ou   seja,   a coexistência pacífica ou polêmica ente a inteligência racional/ cientificista e o pensamento mágico-poético que dinamiza o imaginário.

É a velha estória “ciência versus mistério” que se reveste de novas imagens. A ciência que antes pretendia destruir a idéia de transcendência, hoje se vê levada a reconsiderar o sobrenatural, a aceitar o mistério   e   a   procurar   um   novo   sentido   para   o transcendental.

Em termos de literatura, este fenômeno revela- se de maneira expressiva e o literário abre caminho para o maravilhoso. Daí a redescoberta dos tempos míticos que permitem ao imaginário, ao maravilhoso, ao onírico e ao fantástico transitarem entre o espaço da   fantasia   e   o   espaço   das   possibilidades   de descobertas de determinadas verdades humanas. Desse modo, a visão mágica do mundo deixa de ser privativa da infância e passa a ser assumida também pelo mundo dos adultos.

É   neste   contexto,   que   os   contos   de   fadas ressurgem e se perpetuam até hoje por fazerem o trânsito entre a fantasia e a realidade.

Lidando com conteúdos da sabedoria popular e com conteúdos essenciais da condição humana, os contos de fadas estão envolvidos num universo fantástico   que   mantém   estreita   ligação   com   a realidade,   uma   vez   que   partem   sempre   de   um situação  concreta,  embora  se  passem  num  lugar apenas esboçado e fora dos limites do tempo e do espaço.

É importante ressaltar que os contos de fadas mantém uma estrutura fixa e surgem de um problema vinculado à realidade que provoca um desequilíbrio na tranqüilidade inicial da narrativa. Este desequilíbrio pode ser um estado de penúria, uma carência afetiva ou um conflito de ordem familiar. E o desenvolvimento do conto constitui-se numa busca de soluções, no plano de fantasia, com a introdução de elementos mágicos   tais   como   fadas,   bruxas,   duendes.   No entanto,   a   restauração   da   ordem   acontece   no desfecho da narrativa, quando ocorre uma volta ao real.

Assim sendo, os contos de fadas transmitem à criança a idéia de que a mesma não pode viver eternamente no mundo da fantasia, mas que lhe é necessário o assumir o real. Para que isto ocorra, os adultos devem respeitar o ritmo de cada criança no que concerne à passagem da fantasia à realidade.

Cada elemento dos contos de fadas tem papel relevante   para   a   significação   da   narrativa   não devendo   ser   retirado   ou   atenuado   sob   pena   de comprometer a compreensão integral do conto pela criança. Por esta razão é muito importante que pais e   educadores   estejam   conscientes   e   preparados emocionalmente para contar a história completa, com todos os seus componentes, inclusive aqueles que remetam a facetas de crueldade e angústia.

A riqueza dos contos de fadas para o processo de   maturação   da   criança   é   tamanha   que   Bruno Bettelheim alerta para o fato de que não se deve, por hipótese alguma, explicar para uma criança por queum conto de fadas é tão sedutor, é tão cativante para ela a fim de não destruir o encantamento e o deleite pela   história. Até   porque   o   encantamento   de   um criança por um determinado conto decorre de alguma necessidade interior ou conflito de ordem íntima, que poderão vir a serem superados no momento em que ao se identificar com a temática da narrativa, passa a lutar e a dominar por si só o problema que tornou este conto estimulante ou interessante para ela.

Apesar         de     alguns       pais     e   professores rejeitarem os contos de fadas sob a alegação de que são   irreais,   falsos,   impregnados   de   crueldade   e violência, estes são para a criança o que há de mais real, de mais concreto, de mais significativo, que em linguagem acessível lhes falam do que é real em seu mundo interior.

O “Era uma vez….” ou “Na terra do nunca…” ou ainda   “No   tempo   em   que   os   bichos   falavam…” remetem a um território fora do tempo e do espaço onde tudo é possível, vez que não existem fronteiras entre o mundo da fantasia e o mundo da realidade, mas tão somente as possibilidades do despertar da imaginação criadora inerente ao mundo infantil.

Face a essa realidade infantil de magia dos contos de fadas é que cada escola, cada educador, cada pai deve abrir as suas portas não só para as fadas de Perrault, dos irmãos Grimm e de Andersen adentrarem o mundo imaginário de nossas crianças, mas também para as bruxas, os duendes, os gnomos e até mesmo para o lobo mau que afinal não é tão mau assim, uma vez que também contribuirá para o amadurecimento infantil.

Os   contos   de   fadas   aliviam   as   pressões exercidas no dia a dia da criança em suas relações familiares e sociais, favorecendo-lhe a recuperação e incutindo-lhe coragem ao mostrar-lhe que sempre é possível achar saídas. Não é a toa que os contos de fadas, em sua maioria, apresentam “final feliz” que contribui para encorajar a criança na luta pela crença positiva na vida.

Em suma, imaginar é antes de tudo recriar realidades e a fantasia é um modo de ler, de perceber, de   raciocinar,   de   sentir   o   quanto   a   realidade desencadeia nossas fantasias. Por isso, leia contos de   fadas   para   cada   criança   que   de   ouvinte   se transformará em leitor de livros e de mundo.

 

Folha de Macau, ano I, nº 0, outubro/1996

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