Teatro: uma possibilidade de leitura

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Os livros que alguém leu ajudaram a compor sua personalidade, pois o homem enquanto ser social nada mais é que um amontoado de leituras: de livros, e mundo, de música, de pintura, de teatro.

Mas é possível ler o teatro? Sim e por que não? Teatro é uma das várias formas de linguagem e vale ressaltar—uma das mais antigas. Sua função tem sido constantemente redefinida ao longo da história da humanidade. Porém não resta a menor dúvida, que desde seus primórdios, desde o tempo em que o espaço de representação se restringia à presença de um ator mascarado e seu monólogo, que esta forma de expressão artística denominada teatro tinha uma função aparentemente paradoxal: divertir e instruir. Quando digo aparentemente, o faço por entender que uma função não invalida a outra.

Teatro é isso: prazer e informação; divertimento e educação.

E foi assim que aconteceu na praia de Diogo Lopes no dia 15 de novembro.

Um clube local serviu de palco para a peça intitulada “Contos do Pontal do Anjo”, um conto de autoria de Claudio Guerra que com sensibilidade e habilidade faz a realidade do cotidiano das comunidades praieiras embarcarem no jogo de ficção onde o real e a fantasia compõem a realidade discursiva na trama da linguagem em drama.

Mito, lenda e realidade são personagens que enriquecem os “Contos do Pontal do Anjo”, num jogo de ambigüidade possibilitado pelo discurso literário que, mesmo propiciando uma postura crítica no leitor/expectador, provoca também uma relação catártica com o texto representado.

E o teatrólogo Subhadro com sua capacidade de criatividade e inventividade peculiares e sua performance no tocante à adaptação de textos literários para o espaço do teatro, proporcionou um verdadeiro espetáculo ao realizar um trabalho de qualidade com os mínimos recursos necessários ao evento.

Foi inovador no cenário; foi inovador no ato de representar.

Tentando ser fiel ao texto que transpôs para uma outra forma de linguagem, inovou o ato de representar que se transformou num vai e vem de vozes narrantes que mantiveram o jogo temático do conto sem prejuízo para a dramaticidade proposta.

O cenário, além do local de realização do espetáculo, se transformou em espaço de metamorfose das personagens no desenrolar da narrativa e do surgimento das vozes narrantes que se sucediam enriquecendo a trama do conto sempre em consonância com a temática pretendida, ou seja, teatralizar narrando a riqueza das lendas que dão vida à existência humana face ás adversidades da vida em que o lema é a valorização do “ter” em detrimento do “ser”.

A organização cênica permitiu o desenrolar de um trabalho coletivo em que os treze atores/aprendizes iniciam o espetáculo falando da proposta do texto e permanecem até o final do mesmo se revezando nas diversas vozes condutoras do drama em cena, que narram as relações entre os homens em determinadas circunstâncias que envolvem, no caso, a relação do homem consigo, com o outro, com elementos da natureza e com os mitos e lendas que disseminam através dos tempos e povoam o imaginário social da comunidade.

O espaço cênico complementado por intérpretes que obedecem a uma concepção preliminarmente estabelecida pelo diretor, cria um confronto de emoções e raciocínio que seduz os expectadores a penetrarem no jogo ideológico proposto tanto pelo autor do conto quanto pelo diretor do espetáculo.

As músicas constantes da peça são coerentes com a temática que envolve a tríade homem/natureza/mito, numa comunidade prenhe de crendices que respondem ou tentam responder as questões de ordem sócio-econômica e política que permeiam a vida dos homens protagonistas da narrativa em pauta.

A montagem da peça “Contos do Pontal do Anjo” pela “Escola de Artistas” vem referendar que o ato de educar é muito mais do que faz a instituição de ensino denominada escola. Esta última, em sua fragilidade, não se sente capaz de romper as amarras de um currículo obsoleto e permitir que o ato de educar seja o meio para se conquistar a cidadania.

 

Folha de Macau, ano I, nº 1, novembro/1996