Tempo de natal; tempo de amor – Poetas que falam de amor

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Poesia, mundo da opinião e das sensações, portanto presente nas relações dos homens entre si, refletindo ou refratando, mediante a simbologia que reveste o objeto estético texto, temáticas que concernem a sentimentos humanos socialmente reconhecidos.

Sendo a poesia uma espécie de energia que nos ataca e nos comove e vivendo numa sociedade onde predomina o espírito cristão – Natal, Amor e Poesia constituem um tríade que prova com o surgimento ou o renascer de sentimentos nobres nos homens, cujas palavra chave é fraternidade que nada mais é do que uma das várias formas de amor.

Partindo dessa premissa, sinto-me no dever de oferecer aos leitores deste jornal, poemas que falam de amor cujos poetas marcam presença na poesia ocidental cultuando o amor de maneira diversa: o amor sensual, o amor místico, o amor erótico, o amor platônico, a amor cético, mas sempre o amor em sua trajetória lúdica enquanto criação de imagens que reportam a uma realidade discursiva que como diz Fernando Pessoa e diz mui bem:

 

“Sentiu? Sinta quem lê!”

 

O amor quando se revela

Não se sabe revelar

Sabe bem olhar pra ela,

Mas não lhe sabe falar

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente…

Cala: parece esquecer…

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar

E se um olhar lhe bastasse

Pra saber que a estão a amar!

 

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quando sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

 

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar…

 

 

Amar, de Carlos Drummond de Andrade

 

Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e malamar.

amar, desamar, amar?

sempre e até de olhos vidrados amar?

 

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

Sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

 

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão vazio,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma

ave de rapina

 

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura

medrosa,

pacientes, de mais e mais amor.

 

Amar a nossa falta de amor, e na secura

nossa

amar a água implícita e o beijo tácito, e a sede

infinita

 

De Gregório de Matos Guerra

 

Ardor em coração firme nascido!

Pranto por belos olhos derramado!

Incêndio em mares de água disfarçado!

Rio de neve em fogo convertido.

 

Tu, que em peito abrasas escondido,

Tu, que em rosto corres desatado,

Quando fogo em cristais aprisionado,

Quando cristal em chamas derretido.

 

Se és fogo como passa brandamente?

Se és neve, como queimas com porfia?

Mas, aí! Que andou Amor em ti prudente.

 

Pois para temperar a tirania,

Como quis, que aqui fosse a neve ardente,

Permitiu, parecesse a chama fria.

 

 

De Luiz Vaz de Camões

 

Amor é fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer,

 

É um querer mais que bem querer,

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder,

 

É querer estar preso por vontade,

É servir a quem vence, o vencedor,

É ter com quem nos mata lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

 

Poema Erótico, de Manuel Bandeira

 

Teu corpo claro e perfeito

… Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha…

 

Teu corpo é tudo o que cheira…

Rosa … flor de laranjeira…

Teu corpo, branco e macio,

É como um véu de noivado…

 

Teu corpo é pomo doirado…

Rosal queimado de estio,

Desfalecido em perfume…

 

Teu corpo é a brasa do lume…

 

Teu corpo é chama e flameja

Como à tarde os horizontes

 

É puro como nas fontes

A água clara que serpeja,

Que em cantigas se derrama…

 

Volúpia da água e da chama…

 

A todo o momento o vejo…

Teu corpo… a única ilha

No oceano do meu desejo…

 

Teu corpo é tudo que brilha,

Teu corpo é tudo o que cheira…

Rosa, flor de laranjeira…

 

Folha de Macau, ano I, nº 3, dezembro/1996