Drummond: o poeta das sete faces

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Mineiro de Itabira, o homem Carlos Drummond de Andrade não difere do poeta no que tange à diversidade de imagens: foi fazendeiro, farmacêutico, jornalista, funcionário público e poeta.

Esta diversidade está presente em sua poesia no que concerne à mistura de estilos onde se combinam o banal e o elevado, o grotesco e o grave. E é interessante ressaltar que temas sérios são tratados com linguagem vulgar e o tom sublime é aplicado a temas banais.

De tom moderno, sua poesia explora o verso livre, o humor, a ironia, temas do cotidiano em linguagem coloquial. Porém realiza também ampliação temática e uma diversidade de tendências de estilo que compõem o seu perfil de poeta contemporâneo.

Temas como o amor e a morte são tratados a partir de uma preocupação existencial com pretensões universalistas.

E nessa diversificação de estilos e temáticas estão presentes, em seus poemas, imagens arrojadas em associações inesperadas como se constata no “Poema de Sete Faces”, no qual o próprio autor deixa claro o espaço marginal de sua poesia quando diz em seus versos: “Vai Carlos! Ser gauche na vida”.

Carlos Drummond de Andrade é, portanto, o poeta do modernismo brasileiro que demonstra, de forma explícita, o seu compromisso com o presente, com o social sem, em momento algum, esquecer a preocupação com a inovação da linguagem poética.

Com a pretensão de despertar nos leitores deste jornal o gosto pela poesia escolhi os seguintes poemas de Drummond:

 

Poema das Sete Faces

 

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

 

As casas espiam os homens

que correm atrás das mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

 

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta

meu coração.

 

Porém meus olhos

não perguntam nada.

 

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

 

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

 

Meu Deus, por que me abandonastes

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é o meu coração.

 

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

 

Política literária

A Manuel Bandeira

 

O poeta municipal

discute com o poeta estadual

qual deles é capaz de bater o poeta federal

 

Enquanto isso o poeta federal

tira ouro do nariz.

 

Consolo na praia

 

Vamos, não chores

A infância esta perdida

A mocidade está perdida

Mas a vida não se perdeu

O primeiro amor passou

O segundo amor passou

O terceiro amor passou

Mas o coração continua

 

Perdeste o melhor amigo

não tentaste qualquer viagem.

Não possuis casa, navio, terra

Mas tem um cão.

 

Algumas palavras duras,

em voz mansa, te golpearam.

Nunca, nunca cicatrizam.

Mas, e o humor?

 

A injustiça não se resolve.

À sombra do mundo errado

murmuraste um protesto tímido.

Mas virão outros.

 

Tudo somado, devias

precipitar-te-de vez – nas águas.

Estás nu na areia, no vento…

Dorme, meu filho.

 

Cidadezinha qualquer

 

Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar

 

Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.

Um burro vai devagar.

 

Devagar… as janelas olham

 

Eta vida besta, meu Deus.

 

 

Quadrilha

 

João que amava Tereza que amava

Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que

amava Lili.

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Tereza para

o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou

para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto

Fernandes,

que não tinha entrado na história.

 

 

Canção amiga

 

Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça.

Todas as mães se reconheçam,

e fale como dois olhos.

 

Caminho por uma rua

que passa em muitos países.

Se não me vêem, eu vejo

e saúdo velhos amigos.

 

Eu distribuo um segrego

como quem ama ou sorri.

No jeito mais natural

dois carinhos se procuram.

 

Minha vida, nossas vidas

formam um só diamante.

Aprendi novas palavras

e tornei outras mais belas.

 

Eu preparo uma canção

que faça acordar os homens e adormecer as

crianças.

 

Memória

 

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

 

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

 

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão.

Mas as coisas findas,

muito mais que lindas,

essas ficarão.

 

Folha de Macau, ano I, nº 3, janeiro/fevereiro/1997.

 

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