Apareceu a Margarida, você viu?

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Ao assistir a peça “Apareceu a Margarida”, encenada por João Antonio Vale, me reportei a Anatol Rosenfeld que insiste na peculiaridade do espetáculo teatral, da peça montada e representada enquanto forma de linguagem própria à expressão artística denominada teatro.

Teatro é antes de tudo instrumento de diversão e conhecimento; de prazer e denúncia. Espaço onde o homem que o ocupa mantém com o espectador a consciência de uma cumplicidade marcada pela ludicidade inerente ao jogo cênico.

Na peça, esta cumplicidade é instaurada pela personagem Dona Margarida que sozinha faz a festa com seu monólogo entremeado de tentativas de diálogo com a platéia.

Quando falo em tentativas, refiro-me ao espaço de opressão que a peça repassa no tom autoritário da professora, caricatura do sistema político vigente quando de sua produção, que tolhe toda e qualquer tentativa de participação por parte da platéia.

Há também um outro elemento inibidor dessa participação do público. Esse elemento é o risível da peça constituído por palavras e gestos obscenos que funcionam como forma de desmascarar o senso de justiça travestido de uma falsa moral e, portanto, impregnado de hipocrisia e cinismo que conduzem as relações sociais entre dominados e dominantes.

No entanto, este fato não prejudica o distanciamento entre ator e personagem que permite o rompimento da identificação do expectador com o mundo da ficção, libertando-o da catarse e conduzindo-o a uma postura crítica face ao texto encenado.

A duplicidade humana implícita nas falas e nos gestos de Dona Margarida é ao mesmo tempo trágica e cômica. Trágica porque revela o autoritarismo que cerceia a liberdade, a criatividade, o exercício da cidadania. E cômica porque a partir do risível revela a verdade acerca da relação professor/escola/aluno, microcosmo das relações sociais estabelecidas e aceitas como necessárias à moral predominante.

No teatro o que fundamenta o espetáculo é a presença dos atores e do cenário que possibilitam a apresentação do mundo imaginário de maneira quase direta. E isto se verifica a partir da própria voz do ator que deixa de ser sua e passa a ser do personagem devido e metamorfose do ator em personagem.

Essa metamorfose do ator em personagem pode ser observada na peça “Apareceu a Margarida” quando o ator João Antonio Vale se travesti e encarna a professora Dona Margarida para assim poder afastar-se dela e manter o distanciamento entre ator e personagem, essência do jogo teatral.

Portanto, o que fundo o espetáculo é o ator e o que o constitui é a personagem.

Em “Apareceu a Margarida”, ator e personagem fazem a cena, o drama, uma vez que o cenário aparece como elemento secundário, servindo tão somente de espaço para a realização do texto- ação. E a mediação do mundo imaginário se faz a partir do ator e de sua criatividade num processo de escolha infinita de possibilidades que se concretizam em cada acento de voz, em cada gesto enquanto criação estética que permite ao espectador a plenitude da existência perceptual. Desse modo, o ator e sua interpretação são a concretude do mundo ficcional projetado pela peça.

Em “Apareceu a Margarida”, a personagem é fonte de palavras. No palco, Dona Margarida já fala antes mesmo de pronunciar qualquer palavra.

O ator João Antonio Vale encarna Dona Margarida de forma espetacular deixando para o espectador a oportunidade de perceber todas a s nuances que enriquecem peça e a sua personagem que tão bem retratam um Brasil para inglês ver.

 

Folha de Macau, ano I, nº 4, março/1997

 

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