Em Macau, a poesia pede passagem

 

Poesia é, antes de tudo, transgressão. É transgredir os limites da logicidade desejada e esperada no tocante à linguagem meramente informativa e brincar, jogar com as palavras, com os sons, com os ritmos, com as imagens, com a musicalidade, com os espaços em branco das páginas dos livros.

Já dizia o poeta modernista português Ernesto de Melo e Castro que o princípio da mimese permitiu a invenção da literatura e o principio da construção possibilitou a literatura de invenção.

Dentro deste espaço de invenção e ludicidade, Macau vivenciou quatro momentos fantásticos de convívio prazeroso com a poesia nestes dois últimos meses. E o interessante disto tudo é que dois dos eventos aconteceram justamente na praça da cidade, numa tentativa de democratização da cultura do livro aliada à tradição popular. Afinal, “a praça é do povo” já dizia, em seus versos, Castro Alves.

Foi assim que numa bela noite de março, Macau foi surpreendida com o “Show: Nobrezas”, em homenagem ao dia da poesia. Aliás, uma homenagem por demais inusitada, uma vez que música e poesia andaram de mãos dadas na afinadíssima voz de Silvinha, que cantou composições do macauense Hianto de Almeida ao lado de canções de João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Morais e Djavan. Este evento faz parte do Projeto Arte na Praça, que tem o apoio do Caderno de Encartes do Jornal de Natal, editado pelo jornalista Paulo Augusto e contou também com o apoio da Fundação Cultural Santa Maria, da SG-Informática e da Rádio Salinas de Macau, sob a coordenação do agitador cultural João Eudes.

Outro evento que mereceu destaque nas comemorações ao dia nacional da poesia foi o Canto-Solidariedade, cuja denominação foi uma homenagem toda especial ao poeta macauense Gilberto Avelino.

O show aconteceu no sábado a noite, na praça, sob a coordenação do teatrólogo Subhadro, patrocinado pela Prefeitura Municipal de Macau.

Este evento teve como marca registrada a seriedade do trabalho, sua criatividade e descontração na realização do show que teve a participação de cantores macauenses como Leão Neto, Marquinhos, Manassés e outros, bem como de convidados especiais.

O Canto-Solidariedade preocupou-se também em aliar música à poesia e contou com a brilhante participação da Banda de Música de Macau, popularmente conhecida como “furiosa”, que se apresentou de cara nova, enchendo de alegria a praça com os músicos mirins do Maestro Castro.

Um outro momento do show que deixou perplexa a platéia face tamanha beleza e criatividade foi a apresentação, que teve como ponto de partida o poema que inspirou o evento, ratificando o caráter poético da palavra no que tange ao prazer e deleite proporcionado pela poesia.

 

“Por quem

passares,

fala.

A palavra

apascenta.”

 

Gilberto Avelino

 

Outro fato relevante do evento foi a sintonia entre música e poesia que possibilitou a apresentação de poesias de Brecht e Mário Quintana, tocando os corações mais sensíveis e aqueles cuja preocupação maior é a luta por uma sociedade mais justa.

Belo também foi o encerramento do show com a participação de todos os cantores num canto- solidário, numa homenagem explícita a duas figuras importantes no espaço cultural de Macau: Gilberto Avelino e João de Aquino.

Ainda no que concerne às atividades comemorativas ao dia nacional da poesia, merece destaque o Concurso de Poesia realizado pela Escola Ressurreição, sob a responsabilidade da Professora Navegante , coordenadora da Sala de Leitura daquela escola. O concurso contou com a participação de alunos da 1ª a 8ª série do 1º Grau.

 

Escola

 

Se esta escola fosse minha

Eu mandava bagunçar

Porque é muito chato

Ter que estudar.

 

Rossini, 4ª B

 

Se Macau

 

Se Macau fosse minha

Eu mandava limpar.

Tirava criança da rua

para ela estudar.

 

Carlos Gregório, 4ª A

 

Para finalizar as comemorações alusivas ao dia da poesia, houve o lançamento do livro “Instinto Reverso” do artista multimídia Getúlio Moura, com exposição de pinturas e fotografias do mesmo, além de show dos cantores macauenses Agassis e Leninha.

Macau está de parabéns, pois nas malhas da leitura de poemas e músicas se constrói a magia de uma cidade melhor.

 

Folha de Macau, Ano I, nº 5. abril/1997.