Monteiro Lobato: o homem e o escritor

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Para entender o espaço e a importância de Monteiro Lobato (1882/1948) na literatura infantil brasileira, faz-se necessário situá-lo no contexto histórico nacional de sua época a fim de compreendermos os dois projetos que direcionam sua produção artística: o projeto ideológico, marcado pelo nacionalismo e humanismo e o projeto lúdico, ressaltado através da linguagem artisticamente trabalhada, que permite o jogo entre fantasia e realidade.

O Brasil no tempo de Lobato

O Brasil de seu tempo, caracterizava-se pelo conservadorismo das oligarquias agrárias, classe dominante na chamada República Velha (1889/1930) e pela Era Vargas (1930/1945), marcada pela ditadura do Estado Novo. No plano econômico, as transformações são crescentes. O país passa por um rápido processo de industrialização que, paralelo à migração externa e interna, desenvolve o processo de urbanização e acelera a formação do proletariado, inaugurando a mudança do perfil sócio-econômico do país.

Permeando todo esse processo de desenvolvimento, expressivos movimentos político- sociais ocorrem em todo o país, expressando o conflito entre as classes sociais e muitos transformando-se em luta armada. Estes embates podem tomar os mais diversos matizes dentre os quais vale ressaltar, Canudos, na Bahia (1893/1897), movimento messiânico liderado por Antônio Conselheiro, a Guerra do Contestado, no Paraná e Santa Catarina(1912/1915), liderado pelo monge José Maria, o Tenentismo(1922/1934), movimento político das Forças Armadas, a Coluna Prestes (1924/1927), movimento militar revolucionário, Intentona Comunista (1935) e os movimentos grevistas do operariado paulista, com forte influência do anarco-sindicalismo europeu em sua formação.

Lobato: o nacionalista

Neste espaço de inquietação social, os intelectuais brasileiros têm uma participação efetiva, até porque oriundos da classe social privilegiada, mantinham contato com a Europa quando do aparecimento das vanguardas com todos os “ismos” e manifestos. Entretanto, Lobato, apesar de manter alguns pontos de contato com os modernistas brasileiros, apresentava divergências no tocante às obras dos mesmos.

Progressista convicto, Monteiro Lobato aderiu aos princípios da livre iniciativa propalada pelo capitalismo e como era um conhecedor profundo dos sofrimentos do homem do campo, caricaturado pelo autor através do personagem “Jeca Tatu”, e das riquezas naturais do país, encampou batalhas nacionalistas que o levaram à prisão.

Versátil como homem; versátil como escritor. Advogado, promotor público, fazendeiro, escritor e editor. Porém foi como escritor e editor que Lobato deu à nação o seu maior contributo ao mudar os discursos literários dirigidos às crianças que ao invés de fomentarem a fantasia e a criatividade, sugeriam explicitamente o desejo de que a criança nada mais fosse do que um ser passivo e obediente aos “bons costumes”.

Fantasia e realidade em Monteiro Lobato

O aparecimento no Brasil em 1927 do livro A menina do nariz arrebitado representa um salto de qualidade na leitura para crianças. Neste livro, o estilo coloquial, a presença de motivos populares, o equilíbrio entre a fantasia e a realidade seduziram e ainda seduzem os leitores mediante o espaço de criatividade e originalidade que permeia sua obra, provocando mudanças na produção da literatura para crianças.

Sua racionalidade pragmática exigia um escritor realista impregnado de um nacionalismo, sem, no entanto, prejudicar o projeto lúdico de sua obra, cujo representante mais significativo é a boneca de pano Emília, a “dadeira” de idéias, metáfora da relação mundo fantástico/mundo real. Sua obra está incansavelmente debruçada sobre os problemas brasileiros aos quais acrescenta-se um humanismo que o faz trazer para o mundo mágico do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, mediante seus personagens, as fábulas, os mitos e as lendas da Grécia Antiga.

Lobato, ao invés de buscar nos castelos o espaço para a fantasia de sua literatura, elege o Sítio do Pica-pau Amarelo como opção marcante de seu projeto ideológico ao escrever livros para crianças. Este nacionalismo não impede a intertextualidade com os contos de fadas, com a mitologia e com as fábulas, o que faz de modo inovador revisitando esses discursos que fundam o imaginário social da civilização ocidental.

Lobato e o humanismo

O discurso lobatiano é um discurso de persuasão destinado à criança, cuja preocupação primeira parece ser um convite todo especial ao leitor a uma adesão a sua preocupação com os problemas de ordem nacional como podemos constatar em sua fala:

“A criança é a humanidade do amanhã. No dia em que isto se transformar em axioma – não dos repetidos decoradamente, mas dos sentidos, no fundo da alma – a arte de educar as crianças passará a ser a mais intensa preocupação do homem. Estamos ainda, infelizmente, num período, em que a criança, em vez de ser considerada como o dia de amanhã, não passa de “nuisance” (…) Daí toda a monstruosa negligência a seu respeito”.

( Lobato, Monteiro. Conferências, artigos e crônicas. S.P. Editora Brasiliense. 1959, p. 249)

A postura política de Monteiro Lobato, suas idéias acerca da humanidade e do país, sua visão de mundo e seus valores constituem os princípios norteadores de sua literatura infantil que se transforma em canal de divulgação de seus ideais na sociedade brasileira.

O universo ideológico lobatiano

A obra de Lobato é a versão desejável de um país democrata, haja vista que o Sítio do Pica-pau Amarelo é habitado por Dona Benta, Tia Anastácia, Pedrinho, Narizinho, Emília e o Visconde de Sabugosa numa inversão do conceito tradicional de família marcado pela figura do pai-patrão que neste espaço cede a voz a uma mulher, a Vovó Benta, representante da sabedoria dos mais velhos num convívio carinhoso e amigável com as vozes infantis de Pedrinho e Narizinho que provocam o aparecimento da fantasia nas vozes da Emília e do Visconde.

A linguagem na obra de Lobato

Os textos lobatianos quebram o pressuposto de que a criança/leitora só entenderia o óbvio ao trabalhar artisticamente a linguagem onde a presença de neologismos e das construções populares permitem uma libertação das normas que surpreende o leitor pela força de expressão que desencadeia.

Portanto, sem romper ideologicamente com as raízes, Lobato renova, mediante seus textos, a linguagem dos livros infantis, inaugurando, nesta perspectiva, o modernismo na literatura para crianças no país e permanecendo atual pela originalidade de sua narrativa onde ludismo e pedagogismo não se opõem, mas possibilitam o trânsito sem passaporte, da fantasia ao real e da realidade ao fantástico.

 

Folha de Macau, Ano I, nº 6, maio/1997.