Leitura e Cidadania [*]

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O bicho, de Manuel Bandeira

 

Vi ontem um bicho

na imundície do pátio,

catando comida entre os detritos.

 

Quando achava alguma coisa,

não examinava nem cheirava.

Engolia com voracidade.

 

O bicho não era um cão,

não era um gato,

Não era um rato.

 

O bicho, meu Deus, era um homem,

meu irmão.

 

Lendo ou ouvindo este poema de Manuel Bandeira, temos a nítida idéia de que o poeta é aquele indivíduo que, com sua sensibilidade e perspicácia, se apropria das sensações que o cotidiano oferece, das paixões humanas que medeiam as relações entre os homens para elaborar, a partir desses elementos, uma nova percepção do mundo que o cerca.

Mas quem é o poeta? O poeta??? O poeta é um cidadão que por ter consciência do que seja cidadania, gostaria de que todos os homens tivessem consciência de seus direitos e deveres na sociedade em que vivem.

Ser cidadão é ter direito a uma vida digna – ter trabalho, ter moradia, ter educação, ter saúde, ter acesso à cultura e ao lazer.

Será que um país onde a maioria de sua população é iletrada e analfabeta, podemos vislumbrar o exercício pleno da cidadania para todos?

E aí me vem à memória o evangelista João quando diz: “No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus.”

Deus imagem do criador; verbo sinônimo de Deus, portanto de possibilidade de criação. E o que é o verbo senão a palavra, signo verbal presente em todas as relações entre os indivíduos socialmente organizados.

Ora, por mais que o mundo das imagens esteja presente no dia a dia do homem contemporâneo, a palavra verbalizada mantém o seu espaço, mantém a sua força no mundo da leitura em sua relação dialética com a leitura do mundo.

E neste momento, aproveito para parafrasear Paulo Freire e dizer que: ler é tal qual uma viagem que se inicia antes e continua para além da palavra.

Ler é magia que se constrói na trama de fios que entretecidos formam uma tessitura composta por armadilhas criadas para conquistar, para prender, para seduzir, para dar prazer. Ler é, enfim, uma viagem onde textos, leitores e autores se misturam num processo intenso, tenso e rico de paixões, portanto de poesia.

Quando falo em leitura enquanto prazer, sedução, jogo; falo com a consciência de que este espaço lúdico que é a leitura está prenhe de ideologias que perpassam a linguagem aqui concebida como discurso de cultura, e, por conseguinte, um país que pretenda estimular o exercício da democracia, deve antes de tudo oferecer uma política de promoção da leitura e conseqüente formação de leitores.

E no Brasil, o nível de consumo de material impresso, de livros por parte da população é baixíssimo, o que vem confirmar a elevada taxa de analfabetismo e o reduzido poder aquisitivo dos brasileiros, que apesar da propaganda do “real” realizada pela mídia televisiva, vivem o momento crítico de uma política que fomenta o desemprego como conseqüência do que ocorre à nível da política internacional neo-liberal.

Face a este impasse, a escola surge como local propício à difícil, mas não impossível tarefa de promover a leitura e em especial a leitura de literatura. E aqui faz-se necessário uma ressalva: a difusão da leitura e o consumo da literatura não são necessariamente competência exclusiva desta instituição, a sociedade, como um todo, deve ter sua parte na responsabilidade de transformar um país de analfabetos, num país de leitores. Só assim, pode-se vislumbrar a conquista da cidadania para todos.

Entretanto, a escola ainda é o lugar onde se aprende a ler e escrever, onde a literatura se torna conhecida e pode-se desenvolver o gosto pela leitura. Para isso, necessário se faz que os professores, em geral, se tornem leitores a fim de que a leitura como fonte de prazer possa desenvolver o senso crítico e possibilitar o caminhar para uma postura emancipatória, deixando para trás ações conservadoras ou regressivas.

Às portas do terceiro milênio, no plano cultural, a ênfase na importância da leitura e na consolidação de um público leitor é uma exigência de ordem social, bem como o é do setor econômico.

O livro, portanto, passa a ser encarado como o instrumento fundamental para a difusão do saber e o meio mediante o qual cada indivíduo se apropria da realidade circundante e passa a compreender melhor o imaginário e o simbólico que atuam como desdobramento ideológico, passando o conhecimento a ser concebido como o passaporte para a liberdade e para a ação consciente e, por conseguinte, independente e criativa.

Entretanto, faz-se mister esclarecer que a leitura, dependendo do modo como é trabalhada, pode atuar em direções diametralmente opostas. Pode transmitir valores e hábitos, muitos deles convenientes à consolidação do “status quo”, mas pode também atuar como marco para um modelo político democrático ao tornar o saber acessível a todas as camadas sociais, dessacralizando tabus e investindo contra o estabelecido, contribuindo, assim, para a afirmação de um pensamento crítico que favoreça a atitude desmistificadora de valores obsoletos na luta pela renovação de concepções arcaicas e conservadoras.

Portanto, ler significa mais que apreender o conteúdo de um texto, entender sua estrutura, seus elementos coesivos e as marcas que guiam os leitores. Ler também é atribuir significados ao texto lido numa postura consciente que permita o enveredar-se pelos espaços lúdico e ideológico com consciência e prazer. Só assim a leitura pode contribuir para a conquista da cidadania, onde o homem, o outro, o “marginal” não se animalize como tão bem nos mostra o poeta pernambucano na linguagem plástica de seu poema O Bicho.

 

[*] Comunicação feita no Encontro Intermunicipal de Leitura – Proler/Macau, Acesso à leitura: responsabilidade de todos.

 

Folha de Macau, Ano I, nº 11, novembro/1997.