Um natal com poesias… e por que não???

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Pensar o Natal é pensar na redescoberta do amor, da ternura, da solidariedade entre os homens. Sem fronteiras, sem discriminação. Com afeto, com paixão, com poesias…

A literatura, enquanto arte, tem como única e exclusiva moeda a gratuidade, que remete ao prazer de ler, à paixão de ler poesias.

E é assim que pensamos o Natal – nascimento de Cristo, nascimento de fé, de vontade de despertar o renascer do desejo de viver um intercâmbio de sentimentos capazes de fazer o outro feliz para ser feliz também.

E para nós, que pretendemos formar leitores, em oferecer-lhe oportunidades de ler não por obrigação, mas, sobretudo, por prazer.

Como diz Pennac, “O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que compartilha com alguns outros verbos: o verbo amar … o verbo sonhar…” (Como um Romance, 1992).

Já imaginou alguém chegar pra você e dizer, autoritariamente, Me ame! Sonhe!, Leia! … Que saco!!! A vontade que se tem é dizer ao ditadorzinho: Vá plantar batatas, ou melhor vá caçar macacos! Já pensou???

A literatura é uma viagem prenhe de prazer e se, em determinados momentos, pensamos haver perdido este prazer tão nosso conhecido, é fácil reencontrá-lo. Basta somente, mas tão somente lermos.

Nós que gostamos de ler, principalmente poesias, queremos partilhar esse amor pela leitura com todos aqueles que lêem este jornal neste período de confraternização que toca fundo nos nossos corações.

Assim, tocados pelo encantamento, pela felicidade proporcionada pela leitura de poesias, tiramos da estante algumas para o deleite, para a fruição e para o prazer de quem ousar lê-las.

Para se ter bons leitores é preciso alimentar o entusiasmo, estimular o desejo, familiarizá-los com os livros, vez que o prazer de ler literatura advém também da descoberta do inusitado que permeia a linguagem poética e proporciona o jogo de imagens onde o cotidiano é visto e sentido como nunca antes o fora.

 

A Rua dos Cata-ventos, de Mário Quintana

……

Quando os meus olhos de manhã se abriram,

Fecharam-se de novo, deslumbrados:

Uns peixes, em reflexos doIrados,

Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se…

 

Rua em rua, acenderam-se os telhados.

Num claro riso as tabuletas riram.

E até no canto onde os deixei guardados

Os meus sapatos velhos refloriram.

 

Quase que eu saio voando céu em fora!

Evitemos, Senhor, esse prodígio…

As famílias, que haviam de dizer?

Nenhum milagre é permitido agora…

E lá se iria o resto do prestígio

Que no meu bairro eu inda possa ter!…

 

 

Vou-me embora, de Mário de Andrade

 

Vou-me embora vou-me embora

Vou-me embora pra Belém

Vou colher cravos e rosas

Volto a semana que vem

 

Vou-me embora paz da terá

Paz da terra repartida

Uns têm terra muita terra

Outros nem pra uma dormida

 

Não tenho onde cair morto

Fiz gorar a inteligência

Vou reentrar no meu povo

A principiar minha ciência

 

Vou-me embora vou-me embora

Volto a semana que vem

Quando eu voltar minha terra

Será dela ou de ninguém.

 

 

Não há vagas, de Ferreira Gular

 

O preço do feijão

não cabe no poema. O preço

do arroz

não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás

a luz o telefone

a sonegação

do leite

da carne

do açúcar

do pão

 

O funcionário público

não cabe no poema

Com seu salário de fome

sua vida fechada

em arquivos.

Como não cabe no poema

o operário

que esmerila seu dia de aço

e carvão

nas oficinas escuras

 

– porque o poema, senhores,

está fechado: “não há vagas”

Só cabe no poema

o homem sem estômago

a mulher de nuvens

a fruta sem preço.

O poema, senhores,

não fede

nem cheira.

 

 

Poema dos olhos da amada, de Vinícius de Moraes

 

Ó minha amada

Que olhos os teus

São cais noturnos

Cheias de adeus

São docas mansas

Trilhando luzes

Que brilham longe

Longe nos breus…

 

Ó minha amada

Que olhos os teus

Quanto mistério

Nos olhos teus

Quantos saveiros

Quantos navios

Quantos naufrágios

Nos olhos teus…

 

Ó minha amada

Que olhos os teus

Se Deus houvera

Fizera-os Deus

Pois não os fizera

Quem não soubera

Que há muitos eras

Nos olhos teus.

 

Ah, minha amada

De olhos ateus

Cria a esperança

Nos olhos meus

De verem um dia

O olhar mendigo

Da poesia

Nos olhos teus

 

Folha de Macau, Ano I, nº 12, dezembro/1997.