O Bailado na poesia infantil de Hardy Guedes Alcoforado Filho

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Ao ler o livro de Hardy, cujo título é O BAILADO – primeiros movimentos, (Editora Scipione, 1992) senti que seria um encontro que geraria reencontros inesquecíveis.

Este sentimento que a poesia dele me passou no jogo tríadico entre imagens, sons e ritmos, possibilita os vários sentidos e sentimentos que atribuímos à leitura e que nos envolve qual teia de aranha onde a magia dos poemas nos enreda em recordações e nos torna parte desta escrita poética.

É o cotidiano escrito sob a luz do inusitado. É um convite para tirar da estante esta poesia e levá-la à escola, à praça , à rua e oferecer a oportunidade aos pequenos leitores de executarem seus primeiros movimentos no ritmo das rimas que compõem este bailado.

Para inicio de conversa, este livro sugere claramente que poesia não tem idade. Nele encontro, e quem tiver o prazer de lê-lo encontrará versos que mimetizam a realidade das crianças através de arranjos de sons, ritmos e imagens num sugestivo convite às mesmas a reconhecer a vida estampada no original das formas poéticas, mas também comovem os leitores adultos, levando-os a uma trajetória no reduto da memória.

Este fato só se torna possível graças à equivalência entre os elementos sonoros, imagéticos e estruturais que convergem para o eixo dos sentidos, considerando-se, a priori, a idéia que pretende representar numa harmonia com o projeto de ilustração proposto pelo Luiz Maia.

O prazer de ler as poesias que fazem O Bailado advém da familiaridade dos termos trabalhados e da ludicidade que reorganiza a realidade tão conhecida do mundo infantil, fazendo com que os pequenos leitores vejam a vida como nunca antes a perceberam.

As poesias de O Bailado são um exemplo de como funciona a materialidade sígnica da poesia: jogos silábicos e vocabulários, formações rítmicas e rímicas na construção de movimentos oscilatórios e a percepção gráfico-visual do espaço que atuam no imaginário infantil dos leitores iniciantes.

 

O Pião

 

O pião

no chão

na ponta do pé

veloz

rodopia.

 

O pião

Bailarino

pro olhar do menino

é encanto,

é magia.

 

 

O Sol

 

Manhãzinha,

trás do monte,

já se avista

o equilibrista

sobre a linha

do horizonte.

 

Fim do dia,

tardezinha,

fatigado de andar

na corda bamba,

descamba

desfalecido

no mar.

 

 

Coração Apaixonado

 

Quem souber

que me responda,

sem demora,

sem cuidado:

em que compasso

dança

um coração apaixonado?

 

O meu,

por exemplo,

tem horas

que quer saltar

boca afora

e sair

por aí

em disparada,

numa emoção

incontada,

desmedida,

mal dosada.

 

Às vezes,

o coração

faz a maior

batucada.

 

 

 

A flor e o vento

 

Num vai-e-vem

ritmado,

a flor realiza

o movimento

de um bailado

orquestrado

pelo vento.

 

Parece a cada

compasso

que a flor vive

indecisa.

não sabe se abraça

a terra,

não sabe se voa

com a brisa.

 

Folha de Macau, Ano II, nº 13, janeiro/fevereiro/1998.