Professor/mediador: um caso de amor com a leitura

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“Eu sei muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor: é a minha largueza. É com ela que eu compreendera tudo. Tudo o que não sei é que constitui a minha verdade.”

 

Clarice Lispector

 

Este escrito de Clarice funciona como uma reflexão concernente à necessidade de repensar a leitura na escola atualmente, bem como o papel exercido pelo professor que inconscientemente, ainda se reveste de uma postura onde predomina o caráter de dono do saber em sua fala.

Quando a escritora relaciona o “não saber a sua largueza” nos remete a diversas realidades: a mutação contínua e rápida das informações e do saber institucionalizado, a necessidade de se estar preparado para o diálogo e para a interlocução democrática em sala de aula, para o reconhecimento de que o aprendizado é um processo que acompanha o homem do inicio ao fim de sua existência.

A existência do homem, enquanto ser social, se pauta na dialética e no dialogismo – marca de sua interação com o outro e com o mundo circundante mediada pela linguagem.

Assim pensando e fundamentada em estudos que respaldam a nova concepção do que significa ser professor às vésperas do Terceiro Milênio, trago para este escrito o que se entende por mediador de leitura e o que vem a ser a mediação em sala de aula.

A mediação pedagógica deve ser entendida a partir da concepção Vygotsky acerca do conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal. Para este teórico, o desenvolvimento se processa e se produz através da educação e do ensino. Em outras palavras, aquilo que o aprendiz pode fazer com a assistência de outro num determinado momento, “à posteriori”, será capaz de fazer sozinho sem ajuda de alguém mais experiente.

A mediação em leitura desperta nas mentes dos leitores/aprendizes um processo de compreensão ativa e responsiva em consonância com a teoria de mundo de cada um, construída na vida em sociedade.

Cada aluno traz para o mundo da leitura e sua leitura de mundo. Daí o fato da leitura ser múltipla, mas nunca leviana, uma vez que a interpretação estabelece os seus limites. Limites estes que se encontram nos índices textuais oferecidos ao leitor para as possíveis atribuições de sentidos ao ato de ler.

O leitor não se restringe ao ato de abstrair significações dos textos lidos, mas principalmente, atribui sentidos aos mesmos.

No processo de mediação da leitura, o professor/mediador deve auxiliar seus alunos a chegarem a construção de suas compreensões sobre o ato de ler.

No espaço da mediação, o professor pode recorrer a várias estratégias de leitura. Uma delas diz respeito à leitura em voz alta realizada pelo professor/mediador. Este dá um tom especial ao texto lido, criando suspense, produzindo expectativas, envolvendo os alunos/ouvintes nas atribuições de sentidos à leitura quando da discussão que segue no ato de ler.

Este procedimento metodológico lhe permite aclara dúvidas, expandir informações e provocar a participação de todos os aprendizes/leitores, socializando a leitura.

Portanto, ao professor mediador de leitura compete mediar a interação leitor/texto/leitura ao promover a motivação necessária ao ato de ler, bem como é sua atribuição manter a atenção e o entusiasmo dos leitores/ouvintes, proporcionando-lhes o envolvimento pessoal ao graduar a emoção provocada pelo texto e contribuir para que o interesse na discussão do mesmo se efetue.

Trabalhar a leitura objetivando a formação de leitores é um ato de amor, de sedução, de gozo, de prazer. É brincar com as palavras em estado de dicionário… é vivificá-las… Tudo está nas palavras que tecem idéias, que tecem imagens a espera de um leitor… de um produtor de sentidos.

E por falar em palavras, lembrei-me de Pablo Neruda quando diz:

 

“São as palavras as que cantam, as que sobem e baixam… Prosterno-me diante delas… Levaram o ouro e nos deixaram ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.”

 

Folha de Macau, Ano II, nº 15, maio/1998.